Ganga Bruta (1933)

por Daniel Lukan

“Esquecer Humberto Mauro hoje – e antes de não se voltar constantemente sobre sua obra com única e poderosa expressão do cinema novo no Brasil – é tentativa suicida de partir do zero para um futuro de experiências estéreis e desligadas de fontes vivas de nosso povo, triste e faminto, numa paisagem exuberante.” (ROCHA, 2003, p.54)

ganga bruta 3

No final da década de 20, o cinema brasileiro vivia um entusiasmo ilusório. Com o advento do cinema sonoro e o crack da Bolsa de Valores em Nova Iorque, os norte-americanos passaram a refortalecer seu poderoso mercado interno antes de se preocuparem sobre como esses filmes falados em inglês seriam vendidos em outros países. Por conta disso, instantaneamente criou-se no Brasil a expectativa de desenvolvimento e predomínio do cinema nacional uma vez que acreditava-se que o público rejeitaria o cinema estrangeiro falado pelo fato de não conseguir compreender o idioma estrangeiro, assim como pelo ‘desconforto’ de ver o filme e ler as legendas ao mesmo tempo. Como diz João Luiz Vieira “Muita confusão se instalou nesse período, com as distribuidoras norte-americanas reprisando velhos filmes mudos, enquanto a má qualidade de reprodução sonora dos filmes estrangeiros afastava cada vez mais o público dos cinemas.” (1987, p.135).

Apesar de, ao contrário do que acreditavam, a produção ter sido reduzida com a chegada do cinema sonoro devido ao aumento dos custos das novas produções, ainda assim acreditava-se no surgimento de uma produção mais regular e forte. Foi crendo nisso que Adhemar Gonzaga aposta na criação de uma verdadeira empresa de produção cinematográfica funcionando em atividade permanente, aos moldes do modelo hollywoodiano. Nascia a Cinédia.

Sobrecarregado pelos trabalhos na construção das instalações do estúdio, Gonzaga trouxe Humberto Mauro de Cataguases, em Minas Gerais, para dirigir Lábios sem beijos (1929), o primeiro filme da Cinédia.

Foto de Humberto Mauro

Foto de Humberto Mauro

Naquele momento, Humberto Mauro já era, certamente, um dos profissionais mais completos do cinema brasileiro, com grande experiência e prática adquiridas no ciclo da cidade de Cataguases, do qual foi principal expoente, com obras como: Na primavera da vida (1926), Tesouro Perdido (1927), Brasa Dormida (1928) e Sangue Mineiro (1930). Nesses quatros filmes é notável o progresso e aperfeiçoamento do diretor em relação à construção dramática, à densidade e à consistência de seus personagens, assim como a uma evolução no uso da linguagem.

Em sua estreia carioca, o filme dirigido por Humberto Mauro (Lábios sem beijos) obteve uma boa recepção do público; o que impulsiona a conclusão das obras do estúdio e a importação de mais equipamentos sofisticados. O filme, tecnicamente bastante elogiado, já mostra os primeiros traços de uma consolidação de um estilo narrativo e de um modelo ‘industrial’ de produção do cinema brasileiro e, sobretudo, evidencia as primeiras peculiaridades de um sensualismo a frente de sua época que iria eclodir em Ganga Bruta (1933).

ganga bruta 2

Com início das filmagens em setembro de 1931, ainda com o título Dança das Chamas, o filme só foi concluído e lançado em maio de 1933. Ganga Bruta é o primeiro filme nacional sonoro, entretanto, a grande demora entre sua produção e seu lançamento fez com que sua técnica sonora já estivesse completamente atrasada. É falado apenas em alguns momentos e possui ruídos e falhas sonoras que certamente apontavam um atraso tecnológico em relação ao padrão realista que os filmes norte-americanos já mostravam.

O roteiro escrito pelo próprio Humberto Mauro, com argumento de Otávio Gabus Mendes, conta a história de Marcos (Durval Bellini), um rico engenheiro, que mata sua esposa (Lu Marival) em sua noite de núpcias por descobrir que ela não era mais virgem. Em seguida, tentando esquecer o ocorrido, ele parte para trabalhar no interior, onde será responsável por acompanhar a construção de uma usina. Ao chegar lá, começa uma amizade com Décio (Décio Murilo), um jovem que também trabalha na obra da usina; em consequência disso, conhece a noiva do rapaz, Sônia (Déa Selva), com quem logo estabelece uma ambígua amizade em que ambos acabam se apaixonando.

ganga bruta 7

A história aparentemente simples foi, no entanto, um campo vasto para que Humberto Mauro criasse um forte clima sensual, e sexual, em sua obra. Detalhes que só foram apreciados muito tempo depois, especialmente quando Glauber Rocha dedicou todo um capítulo de sua Revisão crítica do cinema brasileiro ao diretor mineiro – Humberto Mauro e a situação histórica – no qual diz que Ganga Bruta não é apenas um dos principais filmes do cinema brasileiro, mas, sem dúvidas, um dos vinte melhores filmes do cinema universal.

ganga bruta 5

Por meios de ângulos inusitados e o uso de câmera na mão, que parecem absurdos e sem razão dado o período clássico do cinema em que o filme foi feito, Mauro chama a atenção do espectador aos detalhes eróticos – sobretudo às representações simbólicas e fálicas – referências freudianas claras. Dentro de uma montagem dinâmica o diretor vai contrapondo pormenores da construção, prédios, guindastes, canos que se assemelham ou ao menos lembram um pênis ereto. No decurso dessas contraposições, instaura-se um mundo ambíguo, entre a bondade e maldade, no qual a repressão sexual é um tormento pessoal e também de todo o convívio social de forma geral. Marcos é o homem que sente a necessidade e deseja manifestar sua virilidade, seu desejo sexual reprimido por Sônia e sua perturbação psicológica pelo casamento que terminou em assassinato acaba se revelando por meio do modo bruto e turrão com que fala com as pessoas e pelas brigas gratuitas no bar. Enquanto isso, Sônia, ainda mais reprimida, veste o estereótipo da ninfeta inocente, virginal e altamente tentadora; seu desejo sexual, que deve ser completamente inibido, escapa no modo como ela instiga sexualmente Marcos.

ganga bruta 8

Nesse clima de tensão sexual extremamente forte, a competência de Humberto Mauro como diretor aparece no modo como ele expressa isso cinematograficamente. O retrato metafórico e psicológico é construído especialmente por meio da mis-en-scène poética. Pouco é dito ou manifestado pelos personagens. Como observa Glauber Rocha, o diretor mineiro faz uma colagem de gêneros e estilos que enriquecem a composição dessa mis-en-scène tornando-a altamente expressiva e alegórica.

“Sendo expressionista nos cinco primeiros minutos (a noite do casamento e o assassinato da mulher pelo marido), é o documentário realista na segunda sequência (a liberdade do assassino e seu passeio de bonde pelas ruas), evolui para o western (o bafafá no bar, com pancadaria geral no melhor estilo de um John Ford), cresce com a mesma força do cinema clássico russo (a posse da mulher, de notações erótico-freudianas na montagem metafórica da fábrica de ação) e […] todo o final é construído no clima de melodrama de aventuras.” (ROCHA, 2003, p.52)

Ganga Bruta possui a mérito de buscar uma história chocante por sua violência, mas realisticamente banal considerando que poderia ser ocorrência deveras plausível em qualquer jornal daquele período, mas que, no entanto, torna-se tragicamente intrigante na medida em que o domínio de linguagem de seu diretor estabelece para essa narrativa um universo psicológico onde as imagens ganham força na subjetividade de seus personagens. A interligação entre a narrativa e as imagens é algo extraordinário do nível de um grande filme do expressionismo alemão, ou semelhante ao modo como Hitchcock conseguia exprimir o suspense e o medo por meio das imagens. Em termos de linguagem cinematográfica, sem dúvidas, é um dos pilares dentro da filmografia brasileira (junto com Limite, de Mario Peixoto). Contudo, faço uma pequena ressalva à declaração de Glauber Rocha de que seria um dos vinte melhores filmes de todos os tempos, Ganga Bruta tem o pioneirismo em relação ao fato de iniciar o cinema sonoro no Brasil, porém, sua chegada é extremamente tardia. O filme é profundamente dominado pela linguagem do cinema mudo e, portanto, o trabalho excepcional de Humberto Mauro já estava um pouco ultrapassado em temos universais (por mais que fosse um precursor em temos nacionais).

ganga bruta 9

Se Ganga Bruta fosse um filme mudo da década de 20, não tenho dúvidas de que a afirmação de Glauber Rocha seria completamente certa… e em temos de cinematografia mundial, Ganga Bruta teria a importância de um O Gabinete do Doutor Caligari.