O ébrio (1946)

por Gustavo Menezes

Desde que se começou a fazer cinema no Brasil, o apelo popular e a competição com o filme importado – sobretudo de Hollywood – são fatores que custaram noites de sono aos cineastas, produtores e exibidores nacionais.

Vez ou outra, certas produções estouram, os espectadores lotam as salas, a bilheteria atinge níveis de fazer inveja. Houve casos de estabilidade notável – as chanchadas da Atlântida, o auge da Vera Cruz, os filmes de Mazzaroppi, a Boca do Lixo, os filmes dos Trapalhões.

Desses esporádicos, o primeiro sucesso expressivo do cinema nacional foi O Ébrio. Lançado em 1946 pela Cinédia, o filme bateu recordes de bilheteria, chegando a quatro milhões de espectadores nos primeiros quatro anos de exibição, e cerca de oito milhões ao todo; superou Farrapo Humano (Billy Wilder, 1945), premiado clássico hollywoodiano com tema similar; e ficou duas décadas em cartaz em cinemas por todo o país, destroçando corações por onde passava. Seu marco de bilheteria só foi superado por Dona Flor e seus dois maridos (Bruno Barreto, 1976).
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Tanto renome pode parecer incompreensível em retrospecto. A obra em si apresenta atuações derrapantes (à notável exceção do ator principal, que praticamente a carrega nas costas), falhas de roteiro, diálogos e flashbacks sobre-expositivos, tramas paralelas pouco interessantes, um moralismo nauseante e mesmo doses de machismo e racismo em graus variados (“Patrãozinho, eles são brancos, mas têm a alma da cor da minha pele”, diz a empregada negra para consolar o protagonista, com assombrosa naturalidade).

Como explicar, então, o sucesso de O Ébrio? O principal motivo é o mesmo do sucesso das chanchadas: a popularidade do rádio. Naquela época, o rádio gozava de um prestígio com o grande público maior do que hoje tem a televisão aberta. Assim, era natural que ele influenciasse o tipo de filmes que se fazia no país. As chanchadas, por exemplo, tinham pausas na trama destinadas especificamente a apresentar os maiores hits musicais, muitas vezes por seus intérpretes originais ou mais consagrados.

Com O Ébrio não foi diferente. A canção homônima, escrita e interpretada pelo astro Vicente Celestino, fazia um sucesso estrondoso desde seu lançamento, dez anos antes. Já havia sido adaptada ao teatro pelo próprio autor, e ganhava finalmente uma versão fílmica pelas mãos de sua esposa, a também estrela radiofônica Gilda Abreu. A fama da diva era tanta que seu crédito de diretora é o primeiro a aparecer na abertura, sobreposto a um retrato seu – e precedendo até o título.

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Mas aqui, a trama não é nada chanchadesca. Tem algo de alívios cômicos, porém seu núcleo é melodramático: estrutura fortemente inspirada nos dramas radiofônicos daquele tempo. Gilberto Silva, filho de rico fazendeiro que perdeu tudo, é apresentado como um pobre vagabundo que é acolhido por um padre bondoso em sua igreja. Reergue-se na vida, torna-se médico, casa-se. Então, traído pela esposa e pelos parentes interesseiros, troca a vida na nobreza pelo anonimato regado a álcool nas ruas.

Claro, os estereótipos perpassam toda a construção dos personagens. Gilberto é um santo: bondoso, gentil e educado; brinca com cada criança que aparece na tela, compadece-se de uma garotinha de muletas, vive mandando presentes à esposa. Marieta (Alice Archambeau), a esposa, é desde a primeira aparição a enfermeira que vive se atirando no médico-galã, e depois de casada vai atrás do primeiro conquistador barato que a aborda. Os empregados são todos servis. Os parentes interesseiros não passam disso. São tipos, como mandava a dramaturgia radiofônica.

Aliás, o rádio é peça central na narrativa. É a vitória num concurso de rádio que proporciona a primeira guinada na sorte do protagonista. A canção é “Porta Aberta”, uma saudação ao catolicismo. A partir dela, segue-se uma montagem em que os ternos de Gilberto vão melhorando gradativamente, ao som de dois outros sucessos de Vicente Celestino, “Patativa” e “Serenata”.

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No entanto, diferente do que era feito nas chanchadas, as músicas têm relação direta com a trama – “Porta Aberta” é uma homenagem do protagonista à igreja que o acolhera e “O Ébrio” é a própria história de sua vida. A relação das outras duas é parcial: apesar de não se referirem a acontecimentos na vida de Gilberto, servem para ilustrar a ascensão de sua carreira de cantor.

O rádio também dita a condução do roteiro. Às plateias modernas, podem parecer estranhos e até irritantes os diálogos sobre-expositivos, o flashback desnecessário, as tramas paralelas ou a presença de um narrador para explicar fatos que deviam ser óbvios ou que poderiam ser apontados de forma menos escancarada. Mas O Ébrio segue a estrutura de um drama radiofônico, forma a que o público da época estava mais habituado.

E a verdade é que, por mais que tenha momentos enfadonhos – toda a trama dos parentes interesseiros, ainda que conte com as participações de Walter D’Ávila e Rodolfo Arena, alonga-se além do suportável -, a performance de Vicente Celestino na cena final envolve tanto que fica fácil entender seu apelo popular. A dublagem é falha e até cômica, mas o sentimento e a força de seu vozeirão na execução da canção-título inibem qualquer riso. vlcsnap-2015-06-25-04h32m15s4

Claro, é difícil demonstrar simpatia a uma conclusão e a um protagonista tão retrógrados. Mas em vez de descartar a obra por sua moral problemática e seus inerentes problemas éticos, deve-se analisá-la sob a ótica que se tem com os livros de Monteiro Lobato, ou com filmes como O Nascimento de uma Nação (D. W Griffith, 1915) e … E O Vento Levou (Victor Fleming, 1939). Não destruí-la ou condená-la ao ostracismo, mas encará-la com olhar crítico. Não se pode esquecer: trata-se de um filme prestes a completar 70 anos.

O Ébrio é não só um relevante documento da nossa história cinematográfica, como também uma relíquia da era do rádio, uma pérola linguística – pois preserva pronúncias, grafias e vocábulos que há muito caíram em desuso -, e uma fonte para estudos sociológicos. Reflexo de sua época, como toda criação humana, esse filme – tanto pelo marco de sucesso como pelo posterior esquecimento – ainda tem muito a dizer sobre o Brasil de ontem e de hoje.