A Estrada (1956)

por Daniel Lukan

A Estrada (Oswaldo Sampaio) 3

Oswaldo Sampaio nasceu em São Paulo, capital, em 1912. Ele começou a trabalhar como cenógrafo para o teatro na década de 30, em companhias como da Revista Otília Amorim-Neto, a Companhia Brasileira de Comédia e a Renato Viana. A partir de 1936, começa a trabalhar na Companhia Procópio Ferreira como cenógrafo, contra-regra e diretor de cena. Já na década de 40, sob o convite de Monteiro Lobato assume a direção da Livraria Monteiro Lobato e pouco depois funda a editora Flama, além de continuar com alguns trabalhos no teatro. No ano de 1950 é quando começa sua vida como cineasta; com o convite de Alberto Cavalcanti, ele é contratado pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz, onde trabalha por todos os departamentos técnicos, seja na filmagem, na montagem ou na sala de som. Ao escrever o roteiro de Tico-Tico no fubá (1952) ele estréia como assistente de direção de Adolfo Celi e, no ano seguinte, faz co-direção de Sinhá Moça com Tom Payne.

Alguns anos após o início da década de 50, um embate se formava em relação à produção cinematográfica no Brasil. A produção industrial em São Paulo possuía como objetivos estéticos o universalismo, a obsessão de qualidade e a aparência de um filme estrangeiro. Apesar do intento, esse cinema brasileiro não conseguia atingir o nível das produções que esse modelo hollywoodiano e industrial realizava naquele período. Além disso, vários tratados e convênios entre Brasil e Estados Unidos fundavam condições favoráveis à importação de filmes norte-americanos e facilitavam um boicote à distribuição dos filmes nacionais.

É no início dessa década que, em oposição a esse ‘cinema industrial’ que se desenvolvia em São Paulo, surgem os movimentos de cinema independente e os Congressos de Cinema, realizados tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo. Esse tipo de iniciativa é responsável por começar a discutir novas formas de produção cinematográfica distintas aos moldes industriais americanos e que valorizem a produção essencialmente artesanal, independente dos grandes estúdios e desprovida de grandes aparatos técnicos. Também entra na discussão uma reflexão sobre uma significação cultural do cinema brasileiro. Enfim, começam a ser delineados os temas e as alternativas estéticas que vão perpassar o pensamento e a produção cinematográficos ao longo dos próximos 25 anos, mais ou menos.

Logo após o fim da Vera Cruz, em 1954, Oswaldo Sampaio começa a produzir nesse esquema independente e artesanal. Faz três filmes A Estrada (1956), O Preço da Vitória (1959) e A Marcha (1972); dos quais os dois primeiros são exemplos modelos desse pensamento e desse movimento que se estabelecia no meio cinematográfico brasileiro.

A Estrada (Oswaldo Sampaio) 2

A Estrada é filme de história extremamente simples, mostrando o cotidiano de um grupo de caminhoneiros reunidos em torno de uma cantina da beira da estrada. Dois personagens centrais movimentam a história, Donato e Gringo. Caminhoneiros que acabaram de virar sócios e agora viajam juntos. Donato, que já é mais velho e conhecido pelos caminhoneiros, apresenta Gringo aos outros frequentadores da cantina e também à Maria, responsável pelo local. Gringo e Maria aos poucos vão se envolvendo amorosamente entre atritos e afagos, de forma que o romance vai se tornando narrativa central em meio ao contexto da vida de caminhoneiros.

Ao lado de crônicas urbanas como Rio, Quarenta Graus (1955) e Rio, Zona Norte (1957), ambos de Nelson Pereira dos Santos; A Carrocinha (1955), de Agostinho Martins Pereira, e Cara de Fogo (1958) de Galileu Garcia, que retratavam temáticas rurais; A Estrada, de Oswaldo Sampaio, representava de forma pioneira no Brasil a vida dos caminhoneiros, e incorporava bem o espírito da produção artesanal, rápida, barata e com uma equipe pequena. Inspirados pelos filmes do neo-realismo italiano que estavam banhados por uma ‘realidade’ crua e um humanismo que se opunham ao artificialismo das produções industriais, esses filmes brasileiros buscavam ressaltar o subdesenvolvimento da realidade brasileira e a figura do brasileiro, do povo trabalhador, em seus modos de pensar, de falar e agir.

A Estrada 1

A ESTRADA – Oswaldo Sampaio

Inclusive, sobre filme de Oswaldo Sampaio em questão é possível detectar uma aproximação bem em estreita com o cinema italiano daquele período; em 1942, Gianni Franciollini realizou o filme Fari nella nebbia, um longa que também abordava a rotina de caminhoneiros como tema central.

A relação entre as histórias contadas em A Estrada e Fari nella nebbia podem ser várias, desde a mais genérica que põe caminhoneiros como ponto central e temático, às mais específicas que nos permitiria observar a relação entre as personagens, suas personalidades e, sobretudo, o desenvolvimento romântico e melodramático que vai crescendo ao longo da trama. Contudo, embora as coincidências narrativas e visuais sejam notáveis, esse paralelo não pode passar de mera especulação uma vez que não há qualquer registro que prove a distribuição e exibição do filme italiano no Brasil.

Fari nella nebbia

Fari nella nebbia

Além disso, nem de perto o filme de Oswaldo Sampaio chega a se aproximar de uma cópia. O recorte da realidade brasileira que se compromete a fazer é satisfatoriamente representado. Os problemas do subdesenvolvimento que afligem o cotidiano daqueles que trabalham como caminhoneiros são transpostos em imagens da forma mais natural possível, algo que nada além de uma filmagem in loco seria capaz de fazer. Numa das cenas mais impressionantes do filme, em meio a uma tempestade, há uma mobilização da comunidade para erguer a ponte que caiu e que corre o risco de ser carregada pelo rio. Donato e Gringo chegam com o caminhão e, na impossibilidade de atravessarem o rio, descem para prestar ajuda. Após reerguerem a ponte, eles entram no caminhão para seguir viagem. Nesse momento é desconcertante a naturalidade com que os dois lidam com iminência de uma tragédia ao passarem por cima da ponte com o caminhão; ao mesmo tempo, a montagem que alterna entre planos fechados do pneu que parece hesitar em subir na ponte, as rachaduras da ponte recém-reerguida, as correntezas do rio e a apreensão e torcida da comunidade que espera o final da travessia do caminhão cria em nós espectadores uma tensão e suspense inexprimível.

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Gringo chega acidentado à cantina.

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Donato e Gringo atravessam a ponte recém-reerguida com o caminhão.

Pontes caídas, caminhões atolados e, principalmente, a morte de caminhoneiros (na maioria das vezes por acidentes causados pelas péssimas condições de viagem) são exemplos dos vários problemas que são apresentados ao longo do filme. Aos poucos, nós, espectadores, vamos percebendo que esses inconvenientes e essas variadas tragédias vão se tornando mais incômodas a nós mesmos que aos personagens, que se acostumaram à constância e à banalidade sob as quais esses fatos acontecem em suas vidas. O constrangimento face à realidade talvez seja a principal virtude do filme herdada das influências neorrealistas.

A Estrada obviamente possui suas falhas, alguns diálogos mal construídos e, tecnicamente, a ‘clássica’ péssima captação de som; porém, como dito anteriormente, a excelência técnica não fazia parte de suas pretensões. No entanto, apesar das condições e aparelhagens que não eram as ideais, vale ressaltar a qualidade da decupagem que sem dúvidas realça visualmente a estética por trás de todo o trabalho e potencializa, enquanto linguagem, o filme; causando os efeitos pretendidos.

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Um filme que possui um imenso valor tanto cinematográfico quanto histórico. Todavia, esquecido em bibliografias sobre cinema brasileiro, sem grandes menções em sites e blogs especializados (que mal fazem uma sinopse decente do filme) e com uma referência de não mais de duas linhas num importante livro de história do cinema brasileiro. Valendo ainda apontar o péssimo estado de preservação do filme, que só encontrei na internet, em péssima qualidade de imagens e com áudio sem sincronia, extraído de uma transmissão da TV Brasil. As imagens nítidas que compõe essa postagem foram tiradas da versão completa disponibilizada num canal russo do youtube (com dublagem em russo). Ou seja, melhor versão para se ver esse filme não é mais brasileira, fato que mais uma vez dá voz à citação de Paulo Emílio Salles mencionada num post nosso no Facebook: “O Brasil se interessa pouco pelo seu passado”.

Maria e Gringo.

Maria e Gringo.