O grande momento (1958)

por Gustavo Fontele Dourado

324234234

Still de cena do filme. Gianfranchesco Guarnieri interpreta Zeca, à esquerda do quadro.

Zeca, a sua noiva e as suas famílias se preparam para o grande momento do ano – o casamento tão aguardado pelos noivos. Porém, eles não têm dinheiro o bastante para cobrir as despesas de uma grande festa e os preparativos dela. Aí está o dilema de Zeca e seu pai: conseguir dinheiro de diversas maneiras para financiar o aguardado evento.

Roberto Santos faz sua estreia como diretor com um longa apresentado por Nelson Pereira dos Santos, já conhecido na época por Rio 40 Graus (1955) e Rio Zona Norte (1957). Santos honra o nome de Nelson com uma obra à altura do mestre, cineastas da mesma geração e da mesma cidade, São Paulo, que concentra uma grande quantidade de imigrantes italianos e que o filme procura abordar por um recorte, mesmo que não tenha uma correlação direta ou menções óbvios e prosaicos sobre esses contextos.

O grande momento (1958) mostra uma maturidade técnica e de argumento avançadas para um diretor estreante e este filme ser considerado um dos nossos maiores clássicos não é um boato oco e nem de nostalgia da crítica e dos historiadores. A obra não é uma relíquia ou uma peça de antiquário que só desperta curiosidades acadêmicas ou documentais.

Isso se deve em grande parte pelas situações com um ar trágico-cômico que traz uma paisagem que nos leva ao interesse hipnótico em acompanhar aquela família  de um subúrbio de São Paulo que caminha para driblar as dificuldades com o fim de oferecer uma tradição de forma decente, mesmo que não seja a melhor maneira ou possibilidade de todas para o evento. Para Zeca e a sua noiva, a viabilidade de realizar algo minimamente prazeroso e que não deixe o casamento com a sensação de algo faltando é a melhor alternativa para eles.

Zeca e o seu pai fazem diversas renúncias, o da bicicleta predileta (Zeca) e abdicar do orgulho para pedir dinheiro ao chefe do emprego (pai), mas nada disso é o suficiente, ou nem acontece da melhor maneira possível ou também não é bem sucedido.

23423423

A venda da bicicleta de Zeca. À esquerda o negociante e à direita, Zeca.

34234234

O pai e a mãe de Zeca.

O que poderia ser mais um filme sobre casamento permeado de clichês se distingue pelo coletivo de suas personagens, o elenco principal não é o único que encanta e isso traz muito dinamismo para a montagem e para a execução do argumento bem escrito. Sem os personagens do restante da família e os amigos de cada um deles, a realização de Roberto Santos poderia cair na monotonia e em um mero preenchimento mecânico de diálogos interpretados sem carisma. Tanto que o maior interesse não é a cerimônia majoritária na igreja e sim a festa em família.

O filme caminha para uma fatalidade que é a existência do evento causador de muitos imprevistos e conflitos entre cotidianos e visões, ao menos que o ambiente fosse militar, diversos causos caóticos poderiam ser evitados. Ainda bem que o filme não procura um casamento pueril, mostrar o casamento pelo casamento e sim o caos que uma multidão pode causar e o estresse do noivo e da noiva nessa situação tragicômica.

Não se sabe com detalhes se o roteiro já tinha a descrição de minúcias especiais na interpretação das personagens ou se foi o elenco que criou certos improvisos ou se a direção encaminhou tudo de um jeito bem apurado. Exemplos são Zeca pegando a caderneta monetária da família às escondidas, a última rajada de água na panela depois das mulheres jogarem baldes de água fria nos homens bêbados e os escândalos eventuais de Zeca.

Não importa como algo principal, estas sutilezas estão lá e deixam o cômico predominar um pouco mais sobre o trágico, o filme é sobre uma decepção do noivo e da noiva e isso que os levam às mudanças e ao fortalecimento de seus laços afetivos em vias não burocráticas.

324324324

Zeca pedala uma última vez antes de vender a bicicleta para conseguir dinheiro. Uma das melhores cenas do filme.

Um dos elementos que podem corroborar o filme como um dos precursores do cinema novo é a filmagem nas externas e em casas não-artificiais, Santos faz questão de mostrar planos conjuntos bem adaptados às arquiteturas de seus ambientes. Um grande mérito da direção de arte que foi executado em si pela escolha dos planos e pela seleção de locações.

Talvez as maiores curiosidades históricas sobre esse filme são atores famosos como Gianfranchesco Guarnieri, Milton Gonçalves, Myriam Pérsia e Paulo Goulart no início de suas carreiras e até aquele momento muito desconhecidos e sem carregarem o semblante mais conhecido de décadas posteriores, nos tempos consagrados de suas trajetórias.

324234

Myriam Pérsia interpreta Ângela. Momento final do filme, a reconciliação do casal. Durante o filme todo acompanhamos muitos personagens e nos minutos derradeiros a narrativa foca sua atenção em Zeca e Ângela, um desfecho digno. Já que não é mais do nosso interesse vermos mais personagens novos depois dessa seleção na história.

Este filme pode ser considerado como um descendente um pouco distante de Fragmentos da vida (1929), de José Medina, um personagem em conflito como um dispositivo narrativo que conduz a história – porém a obra de Santos vai mais além e não fica apenas nesse dispositivo e o desconstrói com o caos da festa de casamento e a moralidade do filme está nas sutilezas e não em um desfecho que serve como mensagem à lá Fausto (1926), de Murnau. O grande momento (1958) é altamente recomendado, merece ser resgatado e mais preservado.