Esse mundo é meu (1964)

por Elias Fontele Dourado

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Pôster do filme.

Sérgio Ricardo, o artista multifacetado, cantor, compositor, diretor de cinema, ator, artista plástico e escritor tem o seu ápice nas telas em primeiro de abril de 1964, o dia do golpe militar no Brasil. Esse mundo é meu foi um total fracasso de bilheteria, justamente pelo dia em que foi lançado, todos queriam ficar em casa e sentiam medo do que estava por vir, razão que ofuscou essa grande obra de Ricardo, que também é conhecido como compositor de Deus e o Diabo na Terra do Sol.

Sendo músico nato, a trilha sonora de Esse mundo é meu é primorosa, com tons de samba, bossa nova, mpb e música erudita. O som, porém, muitas vezes é infeliz. Não conseguimos compreender muito bem algumas falas e acabamos por perder a riqueza semântica que a obra tem, mas nada que uma legenda não resolva, como no meu caso.  Os filmes dessa época, geralmente, sofrem graves problemas sonoros.

Esse mundo é meu é composto por uma singela história fictícia e deixa latente em suas belas imagens a denúncia social e as contradições daquilo que seria tristeza e felicidade. Quando somos apresentados aos personagens, achamos que serão marginalizados por todo o percusso, e não deixam de ser, de certo modo. Contudo, o modo como eles observam a vida e se preocupam, principalmente o engraxate Toninho, interpretado por Antonio Pitanga, expressa como sua sina é difícil e, mesmo assim, pode ter o mundo aos seus pés, pelo menos por um momento.

Sérgio Ricardo também atua em seu primeiro longa-metragem, fazendo o papel de Pedro, trabalhador em uma fábrica de metalurgia e namorado de Luzia, mulher que, mais tarde no filme, vemos que vem dos confins do sertão, com um triste passado. O início da obra é quase documental, somos apresentados aos dois trabalhadores, o engraxate e o metalúrgico, no meio de uma multidão, à procura de um pouco de sossego. De começo, a preocupação dos dois é muito pequena. Pedro deseja dar um presente de aniversário para sua mulher e Toninho gostaria de ter uma bicicleta para poder sair com a mulata Zuleica que, por já andar muito tempo na favela do Esqueleto, exige como mínimo necessário uma bicicleta para poder passear.

Ao menos no início, os personagens parecem estar animados e felizes mesmo em seus limites, Toninho tenta engraxar o maior número de sapatos para conseguir uma bicicleta e Pedro leva Luzia para passear no parque o dia todo como presente, uma vez que não tem dinheiro para comprar algo luxuoso. Esse bem estar é representado em uma cômica cena teatral, onde os atores enaltecem um certo patrão e Pedro está presente na representação.

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Toninho procurando alguém que queira engraxar o sapato.

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Pedro sendo apresentado na fábrica.

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Toninho sonhando com a bicicleta.

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Os atores cantando a glória do patrão.

Os grandes problemas começam a acontecer quando Luzia deseja ter um filho e finalmente consegue engravidar. Tomada por um acesso de ilusão, porém, Luzia percebe que será muito difícil tratar bem da criança e acaba voltando atrás, ela tenta fazer um aborto. No momento em que Luzia diz as razões de não poder criar o filho, temos, talvez, a segunda parte do filme onde a montagem é mais sofisticada. Escutamos os motivos da mulher em voz off e, concomitantemente, vemos as imagens de Toninho correndo em uma bicicleta como quem foge do destino, pois a mulher diz que não quer ver o seu filho sendo um engraxate ou algo do tipo, e é justamente isso que observamos em tela, como se Toninho fosse seu filho no futuro, constituindo uma sofisticada montagem dialética. Isso, porém, é apenas uma abstração, não fica claro se isso de fato é real, mas ao menos transparece e parece válido. Também percebemos que as coisas pioram, e muito, quando os atores começam a xingar o patrão, como se tivessem percebido que eram explorados.

Já a cena do aborto que, para mim, é a melhor do filme, parece uma cena de terror, a montagem, certamente, é a melhor em Esse mundo é meu. A casa onde realizam tal coisa é escura, sombria, e constantemente tem uma janela batendo ao vento como um prenúncio de mau agouro. Enquanto Luzia faz o aborto, observamos cenas de meninos descendo a escadaria da favela, sorrindo, gritando, como se ela estivesse matando tudo aquilo. Certamente que é a cena mais forte do filme, mas não a mais antológica.

A cena, talvez, mais antológica, é a que Ziraldo faz o papel de um padre que tem uma bicicleta. Toninho segue esse padre e cria várias contradições, como o dizer de que deve-se ajudar o próximo como pretexto para tomar a bicicleta e constantes invocações do ente divino. No final, Toninho acaba roubando a bicicleta e o padre fica sem ação.

O final de Pedro é convocatório. Diz que não adianta ficar parado, todos devem se juntar e dar o máximo de si. Não sabemos se é um chamado para uma greve ou para trabalharem o melhor que podem para conseguirem sair da miséria. É um final feliz, contudo, não-fatalista, com os trabalhadores montando uma orquestra de “metais” que confundem-se e imiscuem-se ao som da música não-diegética, da bossa. Toninho é visto dançando com Zuleica, sua meta finalmente foi atingida, mesmo depois de ter roubado um padre. Não mostrava remorso, contudo. “Cada um serve seu pai como pode”, é uma das frases de Toninho, que serve a Deus, infelizmente, através de tal ato. O sorriso e a clara felicidade expressa nos corpos dançantes de Toninho e Zuleica mostram, definitivamente, que o mundo é deles.

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Pedro(o próprio Sérgio Ricardo) convocando os colegas.

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Toninho e Zuleica dançando.