O Homem do Sputnik (1959)

por Victor Cruzeiro

O Homem do Sputnik é um daqueles filmes que prova, com uma doce crueldade, a veracidade nas falas de Paulo Emílio Sales Gomes:

O cinema é incapaz de encontrar dentro de si próprio energias que lhe permitam escapar à condenação de um subdesenvolvimento, mesmo quando uma conjuntura particularmente favorável suscita uma expansão na fabricação de filmes (1996, p. 85)

No entanto, a incapacidade presente nesta comédia de Carlos Manga não é aquela mesma das chanchadas do começo da Atlântida, que, para alguns #haters, representa a forma patética com a qual o cinema brasileiro copiava – e ainda copia – a indústria estadunidense. Naquelas, como Carnaval Atlântida (José Carlos Burle, 1953) e a famosa Carnaval no Fogo (Watson Macedo, 1949), as características eram outras.

Chanchadas como essas – que ficaram imortalizadas no imaginário do cinema – eram comédias musicais, com números de variedades que entravam abruptamente em uma narrativa feita aos moldes dos grandes sucessos de Hollywood. Era como se o elemento Carnaval fosse o que tornasse aquele filme genuinamente brasileiro. O principal era a apresentação de uma imagem plástica do Brasil, feita a partir dos itens culturais mais divulgados no exterior, ou seja, estereótipos. Os números musicais eram de samba – ou variações deste – apresentados por artistas que consubstanciassem o espírito brasileiro de maneira comercialmente aceitável – como o fazia, primorosamente, Carmen Miranda.

Mas O Homem do Sputnik não é assim. Essa chanchada apresenta uma outra fase da Atlântida. Uma fase em que ela conseguiu romper a barreira dos números musicais na narrativa, em que a estereotipação deixava de ser uma forma de subjugação, para ser uma forma de sublevação. [NOTA: aqui, troquei subversão por sublevação em respeito à noção que Paulo Emílio tem da primeira (1996, p. 101). Sublevação entra como uma forma mais ativa de combate, ainda que em desvantagem: um sub-levante contra uma força de dominação, ao invés de uma mais distante sub-versão ou sub-tradução de algo do estrangeiro.]

Portanto, a comédia em questão apresenta vários fatores que fazem romper com os elementos característicos da cultura tipo exportação que tentava-se impor. Ora, ao invés de copiar os elementos fílmicos estrangeiros, como os vilões, os motes e até mesmo as sequências de luta (como O Caçula do Barulho, de 1949), por que não evitá-los ou, se necessário e possível, fazer troça deles? Da mesma maneira, por que não colocar no protagonismo um brasileiro real, com suas contradições à flor da pele – como em todo povo – ao invés de priorizar uma figura europeia do brasileiro? E, mais ainda, por que não fazer chacota daqueles que tanto fizeram conosco, não somente nas telas, mas no mundo como um todo? É a tudo isso que O Homem do Sputnik se propõe.

A história gira em torno de um fazendeiro simples, Anastácio Fortuna (Oscarito), e a sofisticada esposa, Cleci (Zezé Macedo), que pensam que o satélite russo Sputnik 1, caiu na sua pequena propriedade.

De início – realmente de início, pois se trata da primeira cena – pode-se perceber como Anastácio e Cleci são diferentes. Ele, rústico mas simpático, preocupa-se quase unicamente com suas galinhas, enquanto ela, sofisticada mas ingênua, sonha com uma vida no rig sociéti, sua versão da high society.

Cleci e Anastácio fazem planos para o seu Sputnik

Cleci e Anastácio fazem planos para o seu Sputnik

Ambos são despertados em uma madrugada de tempestade com um forte estrondo na propriedade. Anastácio vê que algo caiu no galinheiro e vai prontamente checar, para acalmar as galinhas. Ele encontra seu galinheiro semi-destruído por um objeto redondo que despencou do céu, matando duas de “suas filhas”. Intrigado, ele leva o objeto para casa e, para sua surpresa, vê no jornal do dia seguinte que poderia ser o satélite Sputinik 1!

O jornal menciona que o Sputnik 1 era forrado de ouro. O bem-intencionado Anastácio e a fina Cleci começam, então, a fazer planos para o dinheiro obtido com a venda do satélite: ela quer mudar-se para Copacabana, ele, comprar uma chocadeira elétrica.

No entanto, não é a pitoresca dicotomia entre as duas personagens que chama tanto a atenção no filme, mas muito mais a forma como as outras personagens são retratadas. Desde o jornalista que se prontifica a ajudar Anastácio a esconder o seu Sputnik, até toda a seara de estrangeiros que vem em busca do satélite dourado, cada um apresenta características únicas que os destacam de uma representação realista, inserindo-os no mundo fantástico da chanchada.

O jornalista Nelson (interpretado pelo galã Cyll Farney, que também é diretor de produção do filme), tem um coração de ouro e está à procura do “grande furo”, que o provará como um jornalista de verdade e poderá tirá-lo da coluna social, que faz por decisão da redação, sob o pseudônimo de Jacinto Pouchard (sim, há um duplo sentido!).

Nelson ajuda Anastácio a manter o satélite em segurança, mas a notícia de sua suposta queda no Brasil se espalha rapidamente, trazendo grupos de todas as partes do mundo para as terras tupiniquins. O primeiro é uma comitiva soviética, composta por três homens carecas com o mesmo uniforme, cujo principal chama-se Karamázov – sim, é uma referência!

O segundo grupo é de norte-americanos, hilariamente ignorantes e arrogantes. Sem noção nenhuma de onde é o Brasil (“É a capital de Buenos Aires”) e chateados pela “desconsideração” do Sputnik em não cair nos EUA, três deles partem para obter o Sputnik de Anastácio.

Dentre os americanos está Jô Soares, fazendo seu primeiro filme. Sua personagem tem algumas frases antológicas, como a proposta de enviar ao Brasil, em troca do Sputnik, “um avião cheio de chicletes, cigarros, meias de náilon e muitas bugigangas de matéria plástica para enganar um bando de índios”.

O encontro das duas comitivas só mostra como O Homem do Sputnik se colocava em um outro espectro de filme, trazendo elementos quase de vanguarda. Os dois carros – soviético, preto, e estadunidense, branco – param, um em frente ao outro, na porta do Copacabana Palace. De um, sai um grupo de norte-americanos espalhafatosamente vestidos. Do outro, três burocratas soviéticos carecas com o mesmo uniforme. Nos planos dos norte-americanos toca um animado rock n’roll. Nos planos dos soviéticos, um tema dramático e tenebroso. Planos e contra planos se intercalam, com um olhando o outro de cima a baixo, até que as duas músicas são substituídas por barulhos de metralhadores, aviões voando e bombas caindo. A Guerra Fria se muda para o Rio.

Os norte americanos encontram os inimigos comunistas. Jô Soares é o da esquerda.

Os norte americanos encontram os inimigos comunistas. Jô Soares é o da esquerda.

Os soviéticos observam os inimigos capitalistas. Karamázov é o da extrema direita.

Os soviéticos observam os inimigos capitalistas. Karamázov é o da extrema direita.

A própria abertura do filme mostra como o filme é tecnicamente bem pensado e realizado. Trata-se de uma animação de inspiração construtivista, em que os nomes dos atores, inseridos em bolotas como o Sputnik, passeiam livremente pela tela, interagindo com garrafas de coca-cola, a foice soviética e uma coluna do Palácio do Planalto.

Voltando aos grupos de estrangeiros, a terceira comitiva é francesa, e é a mais curiosa quanto à caracterização de seus integrantes. Grijó Sobrinho interpreta Monsieur Rififi, cópia escarrada de Charles de Gaulle com um narigão e um pequeno bigode. Já Norma Bengell, também em seu primeiro filme, dá vida a uma celebrada sátira de Brigitte Bardot, a Bebê.

Bebê, a nossa Brigitte Bardot, por Norma Bengell

Bebê, a nossa Brigitte Bardot

O Homem do Sputnik é o tipo de filme com o qual se poderiam alongar páginas e páginas explorando a inventividade, em observar e caracterizar o mundo para o público brasileiro. E, por mundo, não se compreende apenas o que há lá fora, mas o que há aqui dentro, como o afã pela sofisticação estrangeira – mostrada nos constantes estrangeirismos usados erroneamente por Cleci – a futilidade da nossa elite – na figura das socialites no jornal – e até mesmo o racismo – na breve passagem com Nelson e um amigo negro.

Mas não é só no roteiro que o filme se destaca tão notoriamente. Já foi dito que sua abertura é bastante curiosa, e percebe-se como o filme representa um aprimoramento técnico do cinema nacional, que teria facilmente continuado, não houvesse a nossa Atlântida afundado, 3 anos depois desse filme, em 1962.

As chanchadas com Carlos Manga (e também Watson Macedo) progrediram tanto estética quanto tecnicamente. Desprenderam-se dos números musicais e saíram dos estúdios – O Homem do Sputnik usou o Automóvel Clube do Rio de Janeiro como locação. Evoluíram na finalização e na sutileza. Enfim, romperam com o grilhão daquele cinema visto como patético e ruim, de poucos anos antes.

Ora, a Atlântida foi o maior êxito do cinema nacional até então. Sua produção foi primorosa. O que deu errado então? Qual a força sabotadora? Pode-se pensar, assim como pensou Paulo Emílio, que nosso cinema é incapaz de buscar dentro de si energias que o façam escapar dessa condenação ao subdesenvolvimento. E é curioso pensar e perceber que, mesmo após encontrar forças dentro de si para romper com certas estruturas desse subdesenvolvimento – como mostra esse filme – nosso cinema sucumba de tal forma, tendo perdido até mesmo grande parte de seu acervo (como no incêndio de 1952).

A nossa Atlântida sucumbiu – doce ironia – a essa força que a engoliu como uma onda. Uma onda de subdesenvolvimento, mista de auto sabotagem e azar. No entanto, não é de se negar que filmes como O Homem do Sputnik e toda a história da Atlântida, sejam provas de que é possível esquecer isso que Paulo Emílio chamou de “nossa incompetência criativa em copiar” (1996, p. 90).

Este frame danificado do filme diz muito.

Este frame danificado do filme diz muito sobre onde a Atlântida poderia ter chegado e onde paramos.

Para conhecer melhor a Atlântida recomenda-se o documentário de Carlos Manga, em um tom saudosista e, em alguns momentos, até dolorosamente nostálgico: Assim Era a Atlântida, de 1975 (https://www.youtube.com/watch?v=J1X9PL_DY7o).