Excitação (1976)

por Gustavo Menezes

A força da Boca do Lixo é inegável. Mesmo extinta há décadas, a “Bollywood tropical” continua sendo assunto mesmo entre brasileiros não-cinéfilos. Geralmente, faz as vezes de bode expiatório, responsabilizada pelo fracasso do cinema nacional ou tomada de exemplo máximo da má qualidade inerente aos nossos filmes. Meio como escudo argumentativo, tornou-se comum associar qualquer produção da Boca ao rótulo necessariamente pejorativo “pornochanchada”.

Fruto mais de preconceito que qualquer outra coisa, essa associação até hoje alimenta uma rejeição crônica ao cinema nacional e perpetua noções falsas a respeito das produções da Boca. Primeiro porque, se entendido ao pé da letra, o termo “pornochanchada” se refere a comédias com conteúdo erótico. E na Boca se produziam filmes dos mais variados gêneros: drama, ação, policial, ficção científica, suspense, terror, artes marciais, filme histórico… Além disso, filmes produzidos fora de lá como Xica da Silva (Cacá Diegues, 1976) ou Dona Flor e seus dois maridos (Bruno Barreto, 1976) caberiam no rótulo.

Se desconsiderado o gênero comédia e entendido como definidor de “pornochanchada” apenas o aspecto erótico, então filmes estrangeiros aclamados como O império dos sentidos (Nagisa Oshima, 1976) ou O último tango em Paris (Bernardo Bertolucci, 1976) também poderiam ser classificados assim.

vlcsnap-2015-07-20-10h50m23s182

Excitação, de Jean Garrett, é um bom exemplo para desconstruir a equação “Boca do Lixo = pornochanchada”.

A primeira cena do longa já chama atenção pela cuidadosa composição dos quadros e pelas relações imagético-temáticas estabelecidas. Um homem encara um laço de forca. Ele tira sua gravata – sua primeira forca -, para, então, entregar-se à segunda, subindo numa cadeira que mais parece um trono real. Até para se suicidar é preciso estilo.

Entram os créditos de abertura, de clara inspiração Hitchcockiana. Como filme de gênero, Excitação atende muito bem os requisitos: os efeitos práticos, a fotografia (a cargo de ninguém menos que Carlos Reichenbach) e a trilha sonora funcionam muito bem para realçar a tensão.

A história se concentra num casal que se muda para a casa onde o homem do prólogo se matou. O casal, Renato (Flávio Galvão) e Helena (Kate Hansen), se mudou porque a esposa vem sofrendo de uma série de crises nervosas. A vizinha e ex-proprietária da casa, Arlete (Betty Saddy) faz amizade e se prontifica a fazer companhia a Helena quando Renato estiver na capital a trabalho. Enquanto isso, ela e Renato iniciam um caso pelas costas de Helena.

vlcsnap-2015-07-20-12h44m11s119

Como era de se esperar – já pela sugestividade do título – , as cenas do caso extraconjugal (na praia, como é de costume para o diretor) servem para cumprir a cota de nudez e erotismo padrão aos filmes da Boca. Há também cenas em que Helena toma banho ou em que a prima de Arlete, Lu (Zilda Mayo), uma jovem libertina, se exibe com e sem biquíni.

Renato e Helena não poderiam ser mais opostos. Enquanto a própria natureza da mulher, tomada por crises e alucinações, já anuncia o sobrenatural que tomará conta do filme, o homem é frio e calculista ao extremo. E isso está expresso pela montagem num corte inteligente da cadeira do suicídio inicial (que atormenta as alucinações de Helena, cada vez mais frequentes) para um computador da firma de Renato. Ele faz um discurso – uma verdadeira ode ao computador -, que evidencia isso. “Nas decisões humanas, a margem de erro é sempre enorme (…) Nos computadores, existe apenas a neutralidade da ação.”

Nesse sentido, é interessante notar como a câmera encara as máquinas de forma tão similar para os dois personagens principais, que têm relações diametralmente opostas com elas.

vlcsnap-2015-07-20-12h37m55s198

vlcsnap-2015-07-20-13h05m34s142

Contrapõem-se, assim, cenas em que os eletrodomésticos da casa ganham vida, e em que pais-de-santo e rezas tentam resolver o conflito, com a mais racional de todas as soluções: Renato comprando um revólver para defesa pessoal e ensinando a esposa a usá-lo.

À moda dos primeiros filmes do Zé do Caixão, À meia-noite levarei tua alma e Esta noite encarnarei no teu cadáver (José Mojica Marins, 1964 e 1967), o racionalismo de Renato é derrotado pelo sobrenatural – que é real, no fim das contas. Lidar com coisas que são reais e fogem à compreensão racional é sempre mais assustador.

Jean Garrett e toda a geração da Boca do Lixo deixaram um legado para o cinema brasileiro, tanto em termos de produção e industrialização, como de temática e inventividade.

vlcsnap-2015-07-20-12h34m11s4