O Segredo da Múmia (1982)

por Victor Cruzeiro

Quem é Ivan Cardoso? E o que é O Segredo da Múmia? São perguntas como essas que mostram o desconhecimento do nosso cinema, cujo amplo leque vai muito além das chanchadas da Atlântida e dos filmes de favela.

Ivan Cardoso é fruto de uma geração atingida em cheio pelo AI-5, que já havia passado o Cinema Novo e havia consumido de tudo, do pop dos quadrinhos à vanguarda da nouvelle vague. Frente a isso, nada restava a ela a não ser absorver e recriar, e não mais criar do zero, como pode parecer sempre necessário a alguns olhos pedantes.

O jovem Ivan é fruto de uma época que viu o novo surgir como uma forma de protesto válido e poderoso. É também fruto de uma geração que viu, como poucas, a força de uma ditadura avassaladora e das forças culturais e armadas que a combateram. Pego nesse fogo cruzado, Ivan Cardoso é parte dessa geração que, segura pelo conforto financeiro, nada pode fazer a não ser assimilar, ainda que de maneira não ativa, tudo que lhe caía à cabeça.

Munido de uma Super 8, o jovem Ivan Cardoso passou a processar todas as suas referências nas suas próprias maneiras de fazer filme, bem como fizeram os cinemanovistas. Mas seu processo de assimilação não veio através de uma cinefilia, como se fez na nouvelle vague, mas como uma forma de digestão natural de todo o entretenimento que consumia – cinema, música, quadrinhos – que o ajudava a escapar daqueles tempos conturbados. Politicamente niilistas, Ivan e seus companheiros eram, acima de tudo, esteticamente blindados.

Eis a importância do jovem Ivan Cardoso e de seus contemporâneos, bem como de toda sua obra. A compreensão da existência de uma resistência artística naqueles anos de chumbo, que vai além dos intelectuais herdeiros do Cinema Novo e dos rebeldes da Boca do Lixo, é a compreensão de que restavam, resistiam e persistiam, entusiastas do cinema, da arte, e da experimentação.

Ivan Cardoso ficou registrado na história como um dos mestres – muitos dizem O mestre – do terrir, que ele próprio prefere chamar de terroriso. Uma forma de trazer o lúdico, à moda brasileira, ao terror que nos é enviado de fora. O terror surge como pano de fundo para a experimentação e confecção de um cinema próprio, nacional e ousado, que flerta tanto com a chanchada que acaba de passar, quanto com o Cinema Novo que acaba de deixar suas marcas indeléveis. Além disso, o terrir é uma das poucas experiências cinematográficas brasileiras a digerir, assumidamente, a influência do cinema norte americano e sua indústria monstruosa, levando-a até o limite do kitsch, do risível, e do adaptável.

É nesse contexto que nascem as primeiras produções de Ivan Cardoso, filmadas praticamente sem roteiro, com uma Super 8 e o mínimo possível para se fazer um filme. O agora clássico Nosferatu in Brazil (1970) é um deles. Um jovem, em roupas de vampiro – a saber, uma capa – anda pelas praias do Rio procurando moças para morder e sugar o sangue-ketchup. A irreverência, aliada à falta de meios é tanta que não se podia filmar à noite pela falta de equipamento necessário e, então, sem medo de ousar, o autor anuncia na primeira cena que onde se vê dia, deve-se imaginar que é noite.

Ivan Cardoso buscava, nas suas influências de seriados, cinema e literatura, tudo que pudesse adaptar à realidade brasileira, sem precisar tornar hermético demais nem explícito demais. Ele procurava um casamento perfeito entre o estilo do que ele absorvia, com o que ele precisava mostrar. Foi a partir daí que ele começou, como diz o próprio, a levar para seus filmes, referências diretas de seus ídolos, como Zé do Caixão e Boris Karloff.

O professor Expedito Vitus dorme ao lado de um busto egípcio e de um livro de Boris Karloff.

O professor Expedito Vitus dorme ao lado de um busto egípcio e de um livro sobre Boris Karloff.

Munido de sua Super 8 e da vontade de fazer um filme inspirado nos seus grandes clássicos, Ivan começa, no final da década de 70, um filme de múmia sem roteiro, o lendário O Lago Maldito. Reza a lenda que após meses fazendo um filme, conforme surgiam locações, com uma maquiagem dificílima de fazer no ator principal, Zeca Parente, e a ausência completa de roteiro, Ivan encontrou José Mojica Marins e lhe contou da dificuldade de filmar sem roteiro. Muito solícito, Mojica lhe disse que havia um roteirista que poderia ajudar com seu filme. Esse roteirista é Rubens Francisco Lucchetti, um dos maiores roteiristas do cinema brasileiro. A partir desse momento, nasceu uma das parcerias mais frutíferas e importantes do cinema nacional – ainda que quase ninguém saiba disso.

O Segredo da Múmia foi o primeiro fruto dessa parceria. O roteiro sensacional, construído sobre o argumento do próprio Ivan, alinhava as pontas soltas de O Lago Maldito e traz à vida o desejo de fazer um filme de múmia temperado com o swing brasileiro.

A história gira em torno de um cientista, Expedito Vitus – interpretado pelo antológico Wilson Grey – que rouba seis pedaços de um mapa que leva à tumba da múmia Runamb (Anselmo Vasconcelos). No entanto, o objetivo do professor Vitus não é o achado arqueológico, mas utilizar a múmia para provar que seu Elixir da Vida – motivo de chacota na comunidade científica – funciona. Além disso, num afã de cientista louco, Vitus pretende mostrar que há um lado absolutamente mal em cada pessoa, numa dicotomia absoluta à la Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Para tanto, ele utiliza a múmia para sequestrar mulheres, e transformá-las em feras humanas.

Expedito Vitus não é, portanto, um cientista louco qualquer, mas uma mente criminosa bastante perversa. E, como tal, tem um fiel assistente que o ajuda em todos os seus planos. Igor (Felipe Falcão), foi feito imortal graças ao elixir do professor. Ele tem uma devoção completa por Vitus, completando a dupla perfeita de cientista louco-assistente, típica de filmes de terror.

O antagonismo fica por conta do repórter Everton Soares, interpretado por Evandro Mesquita, na época ator de teatro. Everton está certo que o professor Vitus é responsável pelo sequestro das moças, que aconteceram nas imediações de sua mansão. Há, nos arredores, uma lagoa, onde se dá o desfecho do filme. A lagoa, por sua vez, é uma referência ao próprio Lago Maldito.

Há ainda uma série de outros personagens que permeiam a trama, mostrando a riqueza do roteiro. A mulher do professor, Gilda (Clarice Piovesan), faz o tipo loira sedutora, mas indefesa, com um quê de Jayne Mansfield, ainda que seu nome seja inspirado em Rita Hayworth. A governanta do professor, e amante de Igor, é Regina, interpretada por uma incrível Regina Casé. Há, finalmente, o melhor amigo e seguidor do professor, o doutor Rodolfo, interpretado por Júlio Medaglia, maestro e compositor da trilha do filme.

O roteiro tem várias referências a uma bagagem cultural ampla, que dialogam e convivem muito bem com os escrachos da brasilidade, e é essa combinação das duas que torna O Segredo da Múmia tão primoroso.

Em dado momento, Igor canta a primeira estrofe da ária Vesti la giubba, da ópera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo, numa referência direta ao adultério de Gilda com Rodolfo. Mas Igor também aparece em uma cena de quase sexo oral com Regina Casé, no típico espírito das chanchadas, improvisado e despreocupado. São dois universos que coexistem: o requinte de uma cultura dita intelectual, e a desenvoltura omissa de um filme que sabe a que veio: ser genuinamente tupiniquim.

E se o roteiro é tão rico, a direção não deixa por menos! Ivan Cardoso mostra toda a sua irreverência, bem como suas referências, ao construir sequências tipicamente terroríficas, como a sequência inicial de pés que caminham calmamente enquanto assassinatos ocorrem. Há também planos bastante inventivos, como pontos de vista de Runamb, feitos com a simples colocação de uma fina gaze na câmera, e planos metalinguísticos fenomenais, como a cena de um cine jornal em que o professor Vitus apresenta a múmia a convidados, apontando e olhando diretamente para a câmera, como se o espectador fosse aquela grande atração.

O inventivo plano de ponto de vista da múmia.

O inventivo plano de ponto de vista da múmia.

"A benevolência das nossas autoridades governamentais para com a ciência", anuncia o cine jornal.

“A benevolência das nossas autoridades governamentais para com a ciência”, anuncia o cine jornal.

O toque dos cine jornais – há dois, sendo um da Atlântida Cinematográfica! – mostra o peso das referências do jovem consumidor Ivan Cardoso. Bebendo diretamente do grande legado de Orson Welles e da RKO, do início de Cidadão Kane, Ivan Cardoso usa os cine jornais para introduzir fatos que tomariam muito tempo para serem narrados no tempo normal da história, ou que não são absolutamente necessários para o andar da trama. Nesse ponto, Ivan Cardoso flerta com Brecht, com sua noção de drama épico, onde a narrativa facit saltus – dá pulinhos – mantendo-se no estritamente necessário.

Há muito o que falar sobre Ivan Cardoso e seu estilo, como sua habilidade de unir um elenco de diversas searas, desde a música popular do momento – como Leo Jaime e Sidney Magal – à herança das chanchadas – como Zezé Macedo e Colé Santana – para agradar o máximo possível de gregos e troianos.

Esses são apenas alguns dos grandes trunfos do nosso terrir, não só de Ivan Cardoso, mas também de Zé do Caixão e todos os outros mestres do gênero. O terror não é um gênero restrito à produção estrangeira – leia-se hollywoodiana – e, bem verdade, nenhum gênero é! Se o terror pertence a alguém, ele pertence à origem do cinema, lembrando que o expressionismo alemão já andava de mãos dadas com ele. Por isso, sempre surgirá alguém novo com uma ideia nova para reviver o gênero. E Ivan Cardoso foi um desses, com um toque francamente brasileiro, e uma boa dose de sorte!

A hilária cena entre Regina e Igor. Regina Casé pediu que a cena fosse retirada, sem sucesso. Ivan Cardoso a considera uma das melhores do filme.

A hilária cena entre Regina e Igor. Regina Casé pediu que a cena fosse retirada, sem sucesso. Ivan Cardoso a considera uma das melhores do filme.

P.S. – Há cada vez mais material sobre Ivan Cardoso, visto que ele foi levado ao status de mestre do terrir. Ele dirigiu uma cinebiografia, A Marca do Terrir (2005), mas também Eduardo Calvet dirigiu o documentário A Hora do Terrir (2007). Há também o livro Ivan Cardoso (2008), de Remier, parte da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, no qual 518 páginas contam toda a trajetória no diretor. O livro está disponível gratuitamente aqui.