Bar esperança (1983)

por Elias Fontele Dourado

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Bar Esperança é um filme brasileiro atípico, uma obra cheia de graça, no sentido do riso e do sublime, pois consegue capturar o inconsciente coletivo de uma época com veracidade e simplicidade. Às vezes até parece uma comédia meio boba, algo incomum nos filmes brasileiros do gênero, que costumam ser muito ácidos e pornográficos.

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As crianças dão tom mais singelo ao filme.

Apesar da famosa cena de nudez frontal da atriz Sylvia Bandeira, o filme passa muito longe daquilo que eram as comédias da pornochanchada, não quer ser apelativo e muito menos burlesco. Ao contrário, Bar Esperança parece querer ter a finalidade de mostrar o perfil dos cariocas de classe média/alta da época através de diálogos interessantes e de uma consciência política latente mesmo nos momentos de embriaguez.

A esperança é o álcool dos personagens, é aquilo que esquenta suas almas e seus profundos desejos de crescerem na vida, seja profissional ou pessoal, ambas bem retratadas no filme. Ana e Zeca, interpretados por Marília Pêra e Hugo Carvana, respectivamente, são os personagens principais que mostram que o filme não é apenas uma miscelânea de falas de vários personagens dentro de um bar.

Ana é uma atriz que faz muito sucesso na televisão e, apesar de gostar, acaba trabalhando demais, fator que desenvolve muito cansaço e desprazer pela ausência de outras práticas cotidianas. Zeca é um escritor que também trabalha para televisão, a mesma emissora de Ana, mas é totalmente frustrado, acha que novelas são um insulto ao seu grande intelecto e capacidade de escrever. Os dois são casados. É a partir do momento que Zeca perde o controle e pede demissão que o filme começa a engatar em uma trama mais requintada.

Bar Esperança guarda estampado em seu roteiro aquela velha história de escritor frustrado e que precisa de inspirações para realizar uma obra de alto valor artístico. Ao contrário de muitos filmes piegas que carregam consigo essa mesma ideia, Bar Esperança tenta fugir de toda aquela reflexão “existencial” (que convenhamos, é um rótulo que virou insulto aos famigerados e excelentes filósofos Kierkegaard e Miguel de Unamuno) e é muito mais pautado nas situações simples, dos romances, do passar do tempo, apanágios que tornam o filme muito agradável de ser visto. Somos atirados diante de emoções que lembram a naturalidade do riso de Mario Monicelli, só que menos absurdo, claro.

Bar Esperança não cai no enfadonho, ele consegue alternar entre cenas de romance, de crítica social, de comédia inocente, e também ácida. As cenas de conflito entre Ana e Zeca são cômicos e não ficam forçosos, a maior riqueza do filme é não colocar tempo demais para cada um desses assuntos, é como uma boa vida equilibrada, onde tudo tem seu horário reservado.

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Uma das tantas bebedeiras no Esperança.

Certamente que é o ponto mais positivo para transformar a obra em uma sessão divertida e envolvente, pois o filme é como um daqueles de Ozu, onde não sabemos quando exatamente começa a vida e a película termina.

Depois de ter feito filmes como Vai Trabalhar, Vagabundo e Se Segura, Malandro era natural esperar mais um filme simples e engraçado de Hugo Carvana, mas não com aquela simplicidade que atinge o universal de uma época, uma singeleza que “canta sua aldeia”, como afirmaria Tolstói.

Todo esse belo exercício estético e dramático de Carvana, porém, não deixa escapar alguns problemas evidentes do filme. Os personagens coadjuvantes são muitos e às vezes não são muito bem aprofundados, mas não é um grande problema, uma vez que eles não são fundamentalmente imprescindíveis, sentimos a falta, contudo.

No final do filme temos uma longa retomada de quase tudo o que aconteceu entre Ana e Zeca, com as mesmas imagens que já vimos, mas com um filtro azul e, obviamente, sem o áudio dos diálogos. Achei essa sequência extremamente desnecessária, é o tipo de coisa que faz cair muito o conceito de um filme que seria excelente, pois o filme tem um horário normal, duas horas, ainda temos bem guardadas em nossas mentes tudo aquilo que aconteceu entre eles, afinal, são os que mais aparecem.

Toda simplicidade e singeleza que praticamente passa onipresente durante o filme inteiro é tomada por uma óbice gigantesca de lembranças que poderiam muito bem ser trocadas por mais momentos da última festa no bar da dona Esperança. São imagens que não colam, é quase um flashback forçado, inclusive com cenas que acabamos de ver há somente alguns minutos. Seria razoável lembrar algumas cenas do início do filme, mas ressaltar novamente aquilo que aconteceu para depois das uma hora e vinte de película já é muito forçado.

Tirando esses e mais alguns pequenos problemas, a direção de Carvana é muito boa, contida, precisa, e que conta com a ajuda de um poderoso elenco, incluindo o próprio Hugo. Temos um rústico, mas interessante, plano-sequência de Ana andando por sua casa à procura do marido, que está no banheiro. É o melhor exemplo para mostrar como a encenação é sofisticada. Há uma bela cena, muito original, onde um dos personagens bebe um whisky e ele e a câmera sobem em um tilt up, algo que instiga nossa imaginação e nos faz questionar como levantaram o ator para fazerem tal movimento.

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O próprio Carvana em uma das mais engraçadas cenas.

Bar Esperança é um filme que dá muita nostalgia àqueles que viveram plenamente os anos 80 e também é uma grande homenagem aos boêmios. Portanto, uma obra que sempre encontrará apreciadores que, para além de vê-lo como um bom filme, também o verão de modo que identifiquem-se com a mensagem e o clima que ele cria.

Na última sequência percebemos que o bar e todo seu aspecto esperançoso perde para a propagação de Shopping Centers, mas, para abafar um pouco essa tristeza, a esperança entre Ana e Zeca é novamente revivida, fator que não dá um tom feliz ao final. O término da obra é exatamente como um bar: muitas vezes entramos tristes, com o intuito de esquecer alguma coisa e, no final, saímos dopados, aparentemente felizes, mas apenas dopados.

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“A última ceia” dos boêmios.