Memórias do cárcere (1984)

por Gustavo Fontele Dourado

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Louis Moreau Gottschalk, compositor dos Estados Unidos e do século XIX, abre Memórias do cárcere (1984) com a sua magnum opus: Marcha solene brasileira (1869), uma releitura e invenção sobre um dos nossos temas musicais mais conhecidos e um dos símbolos nacionais de reconhecimento mais imediato: o hino nacional brasileiro. Uma obra feita por um compositor de trajetória inusitada e com um olhar de eterno estrangeiro, porém infiltrado de maneira bem-sucedida no Brasil com uma bela mistura de um olhar vindo de fora e uma visão vinda de dentro.

Esta adaptação do livro de Graciliano Ramos, uma composição artística de excelência é sobretudo a respeito das ambivalências intrínsecas do nacionalismo, do patriotismo, dos comportamentos e do controle ideológico. Temas abordados através da forma autobiográfica que Graciliano se coloca como pessoa e personagem preso por conflitos políticos e por filiação pelas ideias de esquerda durante a Era Vargas (1930 – 1945). Graciliano passa muitos anos em prisões diferentes e lá conheceu seus compatriotas e, claro, começou o elemento substancial que foram os seus manuscritos sobre as cadeias – o seu tesouro em tempos de cárcere.

Ramos não está em uma casa e tão pouco em um lar, ele é um estrangeiro em processo de desilusão e foi preso por motivos bastante duvidosos. Sua origem associada à cultura e à literatura de nicho comunista e o seu emprego como funcionário público em Alagoas numa função também suspeita pelo governo Vargas direcionam Ramos para o início de suas memórias nos lugares que aprisionam o seu espírito: os cárceres. Ramos estava em dois mundos e os seus manuscritos aglutinavam seus olhares tal qual a arte de Gottschalk, uma arte de vários mundos.

Nelson Pereira dos Santos quis adaptar este livro desde que ficou internacionalmente conhecido e premiado por Vidas Secas (1963), outra adaptação de um livro de Graciliano Ramos. Porém a ascensão da ditadura militar (1964 – 1985) obscureceu a viabilidade e a segurança para Nelson criar seu monumental filme. O nosso Rosselini se sentia impedido por mais de 20 anos para o cumprimento de seu desejo e felizmente a realização nos trouxe uma película que é considerada um dos maiores cânones já feitos no cinema brasileiro.

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O ator Carlos Vereza interpreta Graciliano Ramos.

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Gloria Pires interpreta a esposa de Graciliano Ramos.

O filme serve como uma teoria da história da opressão no Brasil, entender o nosso presente com memórias de um passado aparentemente distante. O cineasta quis entender a ditadura militar por meio dos anos 30 e 40, período de outra ditadura importante na constituição da história do Brasil no século XX. Inclusive uma das músicas de Gottschalk foi proibida na época da ditadura militar, uma outra releitura do hino nacional brasileiro – a escolha de Nelson por esse compositor não deve ter sido em vão. Essas semelhanças e associações não são por coincidência ou por um acidente das ações dos homens e sim como um enigma a ser decifrado e uma vontade cheia de força, talvez até um pouco romântica. Respectivamente o enigma é a ditadura militar como um mistério perigoso e violento (um presente vivo, nos anos 80, cheio de lacunas, uma história e verdades ocultadas pelo autoritarismo) e a vontade de tornar o Brasil um lugar melhor, visando um futuro com uma realidade distinta – uma outra possibilidade de Brasil.

Estas inquietações fazem parte da condição de Graciliano Ramos no filme e não é à toa que Nelson quis tanto fazer um filme como este, usar o cinema como o entendimento dos problemas que nos cercam. Nelson pode ser considerado uma espécie de estudioso do Brasil, um teórico que usa os filmes como uma câmara, como uma abóbada cheia de imagens, que nos põe em frente ao nosso imaginário e aos nossos conflitos históricos. E o cinema brasileiro não foge a isso, pois procuramos os caminhos que podem ou pretendem tornar o cinema brasileiro melhor.

Seja buscar um futuro idealizado por inquietações com objetivos de uma indústria ou de um cinema de “arte” como nunca feito na história do mundo. No entanto, a consideração por certas memórias de nossa situação temporal nos lembra que podemos ser esquecidos em algum momento. É preciso ter a função de um eterno resgate às nossas lembranças, certas obras podem ser melhor conservadas.

Memórias do cárcere (1984) sobreviverá aos muitos momentos históricos que podem se repetir, pois este enclave entre literatura e cinema foi um acontecimento marcante, um filme histórico, autobiográfico, uma adaptação que bate o clichê analítico de que o livro é sempre melhor que o filme. A direção de Nelson Pereira proporciona uma atmosfera áspera e ainda mais que isso, contemplativa, seu filme passa um ar artesanal com um encadeamento técnico de profissional e que foge do estilo repetitivo que muitos filmes biográficos e históricos exibem os acontecimentos.

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A transferência de uma prisão para uma prisão mais violenta e agressiva. A transformação de Graciliano Ramos, ele fez muitas greves de fome na última prisão.

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Nelson Pereira dos Santos no centro da imagem e atrás da câmera.

Não há complexos movimentos de câmera, já em compensação cada enquadramento nos proporciona uma substância rica de encenação e atuação impecáveis através do posicionamento e movimentação do elenco. Não é preciso que todos os elementos de um filme sejam totalmente inovadores ou desafiadores às convenções, uma cena montada de forma tradicional pela articulação de um plano master, um plano mais próximo e o seu correspondente contra-plano pode compor uma cena inovadora por meio de um diálogo memorável, de uma atuação que desafia alguma regra e os enquadramentos, em contraposição, serem bastante tradicionais. Exemplo é no Poderoso chefão, parte II (1974), onde o filme tem uma montagem desafiadora e com o uso de fusões que desafia um uso corriqueiro e banal, todavia várias cenas são resolvidas individualmente por uma escolha tradicional de planos: um master, contraplano… Talvez um ponto negativo da obra seja poucas interpretações de personagens menores estarem deslocadas da dosagem geral do filme, talvez desconjuntadas do tom da obra: a partir de certo ângulo são exageradas em situações de escândalo e em expressões faciais de nervosismo e conflito.

O elemento desafiador de Memórias do cárcere (1984) é a fotografia (o uso de estourados na luz e na textura de cor e da nitidez) e no retrato de uma época e das personagens com diálogos que como fundo há uma pesquisa histórica bem feita e o livro de Ramos. Talvez como sucessor espiritual no nosso cinema, Lavoura arcaica (2001) seja um representante de outra geração com uma tessitura próxima ao filme de Nelson e um antecessor pode ser o São Bernardo (1972), de Leon Hirszman – outra adaptação de um livro de Graciliano.

Carlos Vereza oferece uma interpretação muito digna e convence com o desgosto, o cansaço e a desilusão que o cárcere proporciona a uma pessoa. As primeiras prisões podem ser tediosas ou talvez sejam locais de novas tentativas de combate pelos detentos como fatos bastante frustrantes. E a prisão final é como a destruição das crenças de um indivíduo e por uma repressão maior que é sentida por agressões físicas. Ambas as prisões privam várias informações de certas coisas e acontecimentos, como a história paralela das mulheres presas, as memórias do ponto de vista masculino acompanham com muitas lacunas o que se passa com as mulheres confinadas no cárcere.

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O único canal de comunicação entre os homens e as mulheres na prisão, um buraco. Nota-se o enquadramento dentro do plano bastante original e com bela composição. Um quadro dentro de um quadro.

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A ajuda de um detento: Graciliano Ramos recebe papel e caneta para continuar escrevendo o livro, papéis são raros na prisão. José Dumont contracena com Carlos Vereza, uma das melhores interpretações da obra.

Outro ponto interessante é uma posição privilegiada que Ramos tem em relação aos outros detentos, por ser um artista ele é respeitado como um doutor e talvez o ar elegante com as palavras e o seu jeito de lidar com as pessoas reforce isso. Ramos já tinha publicado São Bernardo e Angústia. Entretanto, ele também sabe como evitar problemas e como combater infortúnios. Ele não é um escritor inocente e sabe combater a tempestade e certos momentos ridículos que os militares impõem, o combate de Ramos será pela literatura e não pelas armas. O livro precisa existir, as informações devem ser compartilhadas.

O que precisa ser feito é continuar vivo e manter vivas as nossas experiências. Viver e presenciar a história será mais importante que a confusão de algumas ideologias. Ramos comemora com a saída do cárcere com a jogada de seu chapéu para o alto, finalmente ele estará vivo e poderá contar o que se passou com os manuscritos sobreviventes. A sua literatura e Ramos só sobrevivem se os dois continuarem vivos juntos.

Vencedor do Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Cannes, 1984, o resultado do filme de Nelson é único.

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Graciliano Ramos.