O beijo da mulher aranha (1985)

por Daniel Lukan

O beijo da mulher-aranha – adaptação do romance homônimo (El beso de la mujer araña) do escritor argentino Manuel Puig – conta a história de dois presidiários que dividem uma cela no período da ditadura militar no Brasil. Valentin Arregui, que é um prisioneiro político de esquerda, e Luís Molina, um homosseuxual condenado por corrupção de menor. O filme do diretor argentino-brasileiro, Héctor Babenco, foi realizado logo após o auge da repressão política comandada pelas ditaduras militares em vários países da América Latina.

Vários pontos podem ser discutidos com base nessa grande obra de Babenco, tanto a abordagem aberta a questões tabus em relação à homossexualidade, o discurso político carregado vigoroso e o próprio trabalho metalinguístico exposto. No entanto, é possível observar como esses três grandes eixos temáticos são inteligente e fortemente interligados à luz do processo da adaptação literária.

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O filme começa com a narração de uma voz off screen que conta fragmentos e memórias do que possivelmente se trata de um filme noir da década de quarenta, enquanto isso a câmera nos apresenta em detalhes o que aos poucos se revela uma carceragem. Logo, estamos quase que completamente ambientados: estamos numa melancólica e lúgubre cela de uma prisão de um país sul-americano e o narrador é um dos presos, que usa o “poder” da ficção e da imaginação para escapar daquele ambiente.

Essa é apenas a primeira passagem do tipo, ao longo de todo o filme Molina narra as cenas de filmes ao seu parceiro de cela e descobrimos que não se trata apenas de um modo de tranquilizar-se e fugir daquele lugar, mas também de se aproximar de Valentin. Diferentemente do romance – no qual o personagem narra cinco filmes diferentes –, na adaptação cinematográfica Molina conta apenas duas histórias, Her Real Glory, um filme que teria sido produzido pela Alemanha nazista ao longo da segunda guerra, que o personagem conta pequenos fragmentos ao longo de quase todo o filme, e outro, já um pouco antes de ser libertado, em que brevemente conta a história da mulher-aranha.

No romance de Puig, são contadas as histórias de cinco filmes que possuem um efeito incrível de destituir o papel do narrador da história. O romance é quase que completamente composto pelos diálogos entre Molina e Valentin, sem nenhuma indicação de quem diz cada fala além do travessão para indicar a troca do enunciador; portanto, o romance é representado pelo próprios personagens e suas falas – o que pode, de certo modo, lembrar a leitura de uma peça teatral – dessa maneira, o papel do narrador mais comum que vemos num romance “desaparece” e dá lugar a um novo narrador, um dos próprio personagem, que conta diversas histórias, que possuem pouca ou nenhuma relação com a narrativa que “de fato” está acontecendo, além de sua própria vontade e de seus próprios objetivos em ‘narrá-las’.

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No contexto fílmico, a mudança (leia-se: perca) das atribuições do narrador clássico e esse ganho de força de um novo narrador não pareceria tão evidente, e aí aparece uma das mudanças mais perspicazes nesse trabalho de adaptação para o cinema: os filmes contados por Molina ganham um impressionante peso metalinguístico num processo de “story within story”, ou no caso, melhor dizendo, “film within a film”. A mulher que protagoniza Her Real Glory e a história da mulher-aranha e também a Marta, que figura a vida de Valentin, são todas interpretadas por Sônia Braga; é quando o “campo imaginativo” se torna um grande limbo, pois, não sabemos se as imagens que vemos são composições da mente de Molina ou de Valentin, visto que nenhuma das histórias interpretadas por Sônia Braga de fato ocorrem, todas elas são apenas fatos oralmente contados por um dos dois personagens ou, como na cena final, um delírio de Valentin, que está entre a vida e a morte.

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Essa pequena “confusão” de consciências que tanto o livro quanto o filme fazem constrói uma grande teia que consegue ligar dois personagens, a princípio, completamente distintos (Molina, um homessexual que lamenta as desilusões amorosas de sua vida e preocupado com ficções devaneadoras de sua mente e Valentin, um heterossexual com preocupações reais, racionais e políticas), mas também consegue ligar histórias de ficção e “realidade”, de modo que vemos como os filmes narrados por Molina à Valentin fazem uma total alusão ao relacionamento amoroso que vai sendo estabelecido entre eles, assim como as desavenças e relações políticas que concernem à vida de Valentin.

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Ou seja, o filme de Hector Babenco consegue expandir o contexto político da obra de Manuel Puig, pois, por mais que seja visível que a história se passa no Brasil, tenta-se desambientar esse local e, inclusive, como o idioma falado ao longo de todo o filme é o inglês, o romance argentino adaptado no Brasil vira uma grande narrativa sobre o contexto político de regimes ditatoriais que afligia quase que todos os países da América do Sul. E, além disso, consegue criar ótimos personagens que vivem num mundo fictício criado por artificiosos recursos de habilidade narrativa que torna O beijo da mulher-aranha uma grande obra de arte cinematográfica, independente do contexto ou do discurso político adotado.