Sábado (1994)

por Gustavo Menezes

vlcsnap-2015-07-26-06h26m05s153 Sábado de manhã. Dois veículos chegam simultaneamente a um edifício residencial na capital paulista. O primeiro é de uma equipe publicitária que veio filmar um comercial no saguão. O segundo, do Instituto Médico Legal, veio buscar um cadáver.

O prédio, apresentado pelo narrador como “Edifício das Américas” (na verdade, é o Martinelli) – “um marco na arquitetura da cidade” -, está caindo aos pedaços. As luzes não funcionam, há lixo entulhado pelos cantos, não há telefones (“O pessoal, quando fica duro, a primeira coisa que vende é o telefone”, explica um personagem). O elevador de serviço é o único disponível, já que o social – de ar clássico, construído nos anos 30 – foi interditado para ser usado na propaganda.

Para completar, está havendo um churrasco com samba de roda no terraço. E a movimentação causada pela gravação atrai cada vez mais gente para o saguão, de todas as classes sociais. Há moradores do prédio esperando para subir, um pastor evangélico que começa a rezar para o elevador funcionar, gente anunciando produtos, simples espectadores curiosos e até moradores de rua.

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O diretor e roteirista Ugo Giorgetti tirou a ideia central do filme de duas fontes: suas décadas de experiência como publicitário e seu curta-metragem Rua São Bento, 405 – Prédio Martinelli (1976).

A estrutura do roteiro foi pensada de forma que o “Edifício das Américas” funcionasse como um microcosmo do Brasil. Assim, a equipe do comercial representa a classe média/ média alta, que tem um pensamento tipicamente colonizado, aspira a viver no hemisfério norte, onde “é tudo limpinho, tudo funcionando”, “as pessoas dão valor [à cultura]” e acredita que o Sul é a única parte boa do país, por conta da “descendência europeia” (sic). Todas as suas referências culturais são estrangeiras: é a busca por um suposto vitral de Vittorio Gobbis no prédio que leva a diretora de arte, Magda Bloom (Maria Padilha), e seu assistente, Aymar (Wellington Nogueira), a subir ao nono andar; a maquiadora resolve se chamar Robin e a produtora de elenco grávida (Giulia Gam) vai dar o nome de um deus hindu ao bebê. vlcsnap-2015-07-25-18h37m47s132 Mas o que melhor expressa essa vontade de europeização é o próprio produto que vão anunciar: um perfume chamado Winter. A música-tema do comercial é em inglês; os atores são brancos e de olhos azuis; o figurino inclui blazer e echarpe (“Isso é um país tropical!”, diz o ator, desconfortável com o calor); e é sintomático que, quando tem que inesperadamente selecionar algum espectador curioso para ser figurante, a produtora de elenco recuse um homem negro de dentes tortos e escolha um homem simplório, mas que, por usar óculos, evoca erudição. O próprio nome do perfume remete a uma ideia de inverno que não existe no Brasil.

As classes sociais mais baixas ficam representadas pelos moradores, bem como pelos outros ocupantes momentâneos do prédio. vlcsnap-2015-07-26-06h12m31s205 Como mencionado, Magda e Aymar sobem os andares para procurar o tal vitral. Ela acaba presa no elevador de serviço enguiçado, junto com os dois funcionários do IML (Otávio Augusto, hilário, paulistano e gago; e Tom Zé, sorumbático e taciturno), o morto (Gianni Ratto) e um convidado do churrasco no terraço (André Abujamra), enquanto Aymar fica incumbido de arranjar um jeito de consertar o elevador, o que o acaba levando ao samba de roda.

Assim, nos três planos de ação em que o longa é estruturado – saguão, elevador e terraço – classes sociais diferentes são forçadas a conviver durante aquele dia. Essa alternância orgânica de situações deixa o filme bastante dinâmico.

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Evitando cair num discurso que soe militante ou “de denúncia”, Giorgetti cria acontecimentos absolutamente críveis no Brasil de 1994 (e, infelizmente, até hoje), onde uma sociedade permeada por altíssimos níveis de racismo e preconceitos de classe não se reconhece assim; onde comerciais de TV não representam a maioria do povo; onde o apartamento de um falecido é saqueado sem cerimônia; onde a classe média efetivamente sente pavor ao ter que conviver com as classes mais baixas; onde portar acessórios como walk-man, relógio ou tênis de marca é correr o risco de ser assaltado a qualquer momento.

Mas claro, apesar de toda a seriedade por trás de seus conceitos, Sábado ainda é uma comédia. E a experiência de Giorgetti como publicitário fica aparente em personagens hilários como o diretor do comercial, que fica no canto e nunca diz uma palavra, a senhora do cachorro, que ninguém sabe quando tem que entrar, o médico que traz a enfermeira para fazer um teste de cantora porque acredita que o assistente de direção tem contatos nesse meio e pode ajudá-la, e a mulher que exclama “Gente, eles não fizeram nada e já vão comer!” quando a equipe anuncia o almoço. vlcsnap-2015-07-25-18h11m35s37 Fora isso, a quantidade de seres absurdos que habita aquele prédio também garante algumas gargalhadas. O zelador, Tonhão (Wandi Doratiotto), que deveria estar se mexendo pra resolver os problemas, só quer saber de bebida. Há uma voz misteriosa no escuro escada abaixo (Cláudio Mamberti) que só ajuda Aymar se receber algo em troca. Por alguma razão, um homem (Jô Soares) mora na casa das máquinas. O enigmático Homem de Alcatraz (o poeta concretista Décio Pignatari) vive num apartamento transformado em poleiro, com sua mãe catatônica – um misto de Psicose e Os Pássaros (Alfred Hitchcock, 1960 e 1963).

(Uma curiosidade: o apartamento-poleiro existiu de verdade, no mesmo prédio, e está registrado no curta supracitado de Giorgetti)
vlcsnap-2015-07-25-18h33m25s75 Até o morto esconde seu absurdo, mais trágico e real que os outros: um uniforme da SS nazista e uma medalha de guerra, que o zelador vai descobrir e surrupiar, sem saber o que representam – e, provavelmente, sem consciência alguma do que tenha sido a Segunda Guerra. O tom absurdo atinge seu ápice quando ele, vestindo o uniforme, é recebido pelo povo com exclamações de admiração (“Que elegância, Tonhão!”).

Feito no início da Retomada do cinema nacional, Sábado tem um olhar tragicômico sobre a realidade, no estilo de Rede de intrigas (Sidney Lumet, 1976). Ele enuncia a tragédia, sem apontar culpados ou soluções. Se contenta com pintar um panorama e incitar uma reflexão: que Brasil era aquele de 1994? E será que, duas décadas depois, estamos muito diferentes?