Dois córregos – verdades submersas no tempo (1999)

por Elias Fontele Dourado

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Carlos Reichenbach sempre foi um grande conhecedor do cinema, aspecto que também o fez ótimo diretor. Dois Córregos é um de muitos excelentes filmes do consagrado Carlão. Com uma direção exemplar, planos sofisticados e movimentos deslumbrantes, Reichenbach consegue criar um dos mais marcantes filmes dos anos noventa no Brasil, uma obra que bebe na fonte de “dois córregos”: o da poesia e o da música.

Um belo flashback nos apresenta à trama principal do filme que, aparentemente, é bem simples, mas é o tipo de obra que esconde toda sua amplitude nos detalhes, nos cortes bem pensados, nas atuações, nas falas e, principalmente, na música. Do início ao fim Dois Córregos suscita um ambiente nostálgico, percebemos bem cedo que trata-se de um filme entusiasta e carregado de poesia.

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Ana chora ao lembrar o passado.

Somos inseridos no Brasil do final dos anos sessenta, ou seja, a ditadura estava no auge, e é justamente um homem na clandestinidade, Hermes, o militante e apreciador das artes que vai movimentar toda a trama. Ele é tio de uma jovem chamada Ana Paula, que é filha de uma aristocrata de Campos do Jordão. Os dois nunca haviam se encontrado, pois Hermes vivia perdido pelo mundo, devido ao seu envolvimento com a política esquerdista e os perigos que poderia sofrer pela ideologia que pregava.

Quando Hermes resolve passar uma temporada no sítio de sua irmã já achando que poderia se restabelecer no país, Ana e Lydia, sendo esta uma velha amiga da primeira, também vão passear por lá. As duas chegam de trem e encontram-se com Teresa, a governanta do sítio, uma personagem que dá maior profundidade à história. O filme todo é muito bonito, os palavrões são quase nulos, coisa rara de se ver nos filmes brasileiros, principalmente da década de oitenta para cá.

O encontro entre o tio e a sobrinha é frio, Hermes ainda guarda ressentimento da irmã que, por ser uma burguesa apoiadora da ditadura, condenou o irmão por todos os seus pensamentos, fazendo-o sofrer demasiadamente. Somente depois de um pequeno tempo para pensar, Hermes consegue dissociar sua sobrinha da mãe e fala com ela normalmente. Todos esses momentos são memoravelmente capturados pelo diretor de fotografia Pedro Farkas, o mesmo de A Ostra e o Vento, fator que acrescenta muitos detalhes visuais ao filme, sendo um dos grandes charmes de Dois Córregos.

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Hermes, músico frustrado, vê Lydia ao piano.

Dois Córregos é uma pequena cidade no interior de São Paulo, mas na película de Reichenbach também evoca em nós a metáfora de duas correntes diferentes, como se Hermes fosse um dos córregos e sua irmã um outro, águas que jamais se encontrarão em harmonia. Ana percebe que esses apanágios políticos não são bons fundamentos para detestar ou deixar de falar com uma pessoa, por isso mesmo consegue conviver muito bem com o tio, mesmo que por poucos dias.

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Hermes em tempos de militância.

Os principais pontos no enredo do filme são: os questionamentos de Hermes sobre a política e sua nostalgia da pátria, principalmente do Rio Grande do Sul, onde deixou dois filhos. As relações amorosas de Teresa e seu trabalho como governanta no sítio que acaba por unir, brevemente, ela e Hermes. A música de Lydia, que é interpretada pela atriz Luciana Brasil, uma autêntica pianista que consegue criar verdadeiros climas de nostalgia e paixão durante todo o filme com peças de Alexander Scriabin, Ferucio Busoni, Franz Schubert, Robert Schumann etc. Os sentimentos de Ana para com seu tio e suas tentativas de desvendar o misterioso militante e seu obscuro passado com sua mãe.

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Os filhos de Hermes, sempre vistos de costas.

A relação entre Hermes e a sobrinha acontece como se fosse um ritual de passagem, foi um curto momento, mas que persistiu marcado em toda sua adolescência e vida adulta. Ana fica muito mais madura após o contato com o tio, pois finalmente viu uma outra ótica de existência, saiu da burguesia de Campos do Jordão e foi até Dois Córregos que, apesar de ser um sítio, carrega em si um outro estilo de vida, de tempo.

O filme não é violento e muito menos panfletário, sequer há diálogos sobre posições políticas, apenas sugestões. Apesar da ausência desses aspectos, subjaz em cada plano, em cada olhar, a tristeza e a violência que a ditadura criou em todo o país, principalmente entre as famílias, com seus encontros e desencontros que, às vezes, sequer aconteciam. Está latente em todo o filme a tristeza do exílio e a nostalgia da pátria, não à toa ouvimos compositores românticos como Schumann e Schubert.

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Talvez o mais belo plano no filme.

Além das autênticas interpretações ao piano de Luciana Brasil, que constituem as músicas diegéticas do filme, também temos o show à parte de Ivan Lins, que compôs uma fantástica trilha sonora para a obra. A música é muito bem escrita em suas harmonias e reservam tempos que condizem muito bem com as imagens, transformando a película em uma experiência ainda mais profunda.

A decupagem toda é bem sofisticada, temos diversos travellings, tilts, filmagem em helicóptero, sem falar na composição dos planos, que são muito bem equilibrados e conseguem criar um labirinto visual por onde nossos olhos dançam devagar, uma sensação muito rica que filmes bem construídos proporcionam.

Dois Córregos é um filme que assistimos e apreciamos por completo devido a sua singeleza e modo que trata a nostalgia e os amores, além das belas técnicas cinematográficas. Obra de poesia, romance e música, algo que não se viu com frequência depois do cinema novo na década de sessenta. Excelente filme.