Disparos (2012)

por Victor Cruzeiro

É difícil escolher um filme da Retomada para comentar. Admito que foi mais fácil escolher filmes característicos dos períodos anteriores, seja por seu destaque estético ou temático – como foi o caso de São Paulo – Sinfonia da Metrópole e de O Segredo da Múmia – seja por sua importância dentro de algum contexto ou evento específico – como O Homem do Sputnik foi para a Atlântida Cinematográfica. No entanto, a Retomada, a recuperação do cinema nacional após a derrocada da Embrafilme sob o governo Collor, apresenta uma variação tão abrangente, e ainda tão pouco explorada, de possibilidades ainda desabrochantes, que se torna um desafio doloroso fazer um recorte.

O plano inicial era analisar um dos grandes sucessos do nosso cinema recente. Uma comédia, seguindo a linha dos últimos filmes que apresentei. Pensei em A Partilha (Daniel Filho, 2001), que começaria a analisar com uma declaração bastante polêmica: “A Partilha é o Deus da Carnificina do cinema brasileiro”. Mas, não…

Não quero estigmatizar meu pequeno panorama do cinema brasileiro (muito menos o próprio cinema brasileiro) como um apanhado de comédias ou filmes pré-moldados. Antes de mais nada, quero mostrar o cinema brasileiro como um reflexo de um momento… Como o é todo cinema, toda forma de arte.

Sem mais delongas, o momento atual não é um momento fácil. E ainda que O Segredo da Múmia, uma comédia, tenha sido feito em plena Ditadura, recaía sobre ele uma coisa que não temos hoje: a censura. E, portanto, fazia-se mister a exposição velada sob outro gênero. Agora, a possibilidade de expor e fazer pensar é livre. Sem mais delongas, não será uma comédia.

Disparos é o longa de estreia da diretora Juliana Reis, e começa com a simples ideia de “Tem dias que nada dá certo”. Esse é, basicamente, o mote, o norte, e quase o argumento do longa. Um fotógrafo está sendo roubado, na saída de um trabalho na noite carioca, quando assiste, estupefato, ao atropelamento dos assaltantes. Enquanto tenta pegar de volta o cartão de memória de sua câmera, que jaz no asfalto na mão de um dos ladrões, é detido por omissão de socorro.

O fotógrafo Henrique, interpretado por Gustavo Machado, se vê em uma delegacia com policiais sarcásticos que não compreendem sua condição dúbia de vítima de assalto e acusado de omissão. Começa então uma longa noite, de idas e vindas a cenas de crime e hospitais, na esperança de esclarecer o caso o mais rápido possível.

O reflexo de Henrique no sangue do outro.

O reflexo de Henrique no sangue do outro.

Não há grandes sequências de ação (inclusive, não há nenhum disparo, apesar do nome do filme). Não há grandes reviravoltas. Não há cenas de tensão. São trechos do cotidiano, retirados de vivências da própria diretora – e também roteirista! Não há nada de novo nesse front. Há apenas o pesado fluir de uma noite em que um bandido foi morto por alguém que tentava fazer justiça com as próprias mãos.

Sim, justiça com as próprias mãos. Quem atropela os assaltantes de Henrique é uma mulher que, em sua possante caminhonete branca, vê o crime e pensa que poderia ajudar, acelerando em direção aos ladrões. Neste ponto, o filme de 2012 é tão atual que parece ter saído do noticiário da semana passada. E isso o torna único – mas não atemporal, espero.

A atualidade de uma temática como a justiça cega dos “cidadãos de bem”, cada vez mais pulsante em nosso meio, e o modo cru, limpo e doloroso com que o filme a retrata, fazem de Disparos um excelente retrato de uma época, do tipo que pode ser investigado no futuro, sem medo de cair em estereotipações como em uma chanchada (vou deixar essa frase polêmica aqui…)

A clareza e inventividade do filme já se inicia na primeira sequência, com um trecho de um programa de vida animal sobre predadores, mostrando hienas e leoas atacando suas presas, no ambiente monocromático da savana africana. É uma analogia perfeita, nos moldes do construtivismo russo, como as cenas que comparam o primeiro-ministro provisório Alexandre Kerensky a um pavão mecânico e a Napoleão, no Outubro de Eisenstein.

Infelizmente, não é tão bonito perceber que os predadores do início do filme são uma analogia aos predadores da savana brasileira, vítimas de uma insaciável fome de justiça. Mas, pensando melhor, deve-se lembrar que tampouco era bonito o momento – de fracasso da Revolução – no qual Eisenstein fazia seu filme… Talvez seja esse um dos maiores trunfos do cinema – da arte! – poder cristalizar um momento ruim de uma forma bela ou, ao menos, reflexiva.

"Só tem um detalhe. Para esse banquete, há convidados demais. A competição é dura, e cada diz mais feroz.”

“Só tem um detalhe. Para esse banquete, há convidados demais. A competição é dura, e cada diz mais feroz.”

O tom do filme é sempre escuro, sem luzes ou cores fortes. Os momentos com mais luz são dentro do hospital. É um filme de/em uma noite. A jornada de Henrique só termina na manhã seguinte, após sair da delegacia com o sol já nascendo. E, curiosamente, sua última cena é de outro assalto, quando lhe roubam o celular. O ciclo não termina na terrível noite que acabou.

O contrate luz e sombra que não é bem um contraste. Os dois estão imersos na sombra.

Não há luz e sombra, mas a premência de sombra sobre tudo e todos. A direção de fotografia de Gustavo Habda foi premiada no Festival do Rio, em 2012, juntamente com melhor Montagem e melhor Ator Coadjuvante (Caco Ciocler)

Disparos é um daqueles filmes que consegue ser sintético a ponto de, em uma sequência ou em um diálogo, resumir uma era inteira. Quando é liberado pelo delegado, Henrique caminha para fora do hospital, onde encontra um médico plantonista. Este lhe conta de uma história semelhante à do fotógrafo, de um garoto que foi espancado por uma turba ignara que o confundiu com um assaltante, quando se aproximou de bicicleta de um carro e enfiou a cabeça dentro do vidro. O caso real era, no entanto, que o garoto se aproximara do carro da própria mãe, que havia saído e levado a chave por engano. O tropel espancador só percebeu que a mulher gritava pelo filho quando já haviam afundado-lhe o crânio. O garoto chegou morto ao hospital, e o médico teve de anunciar a morte para a mãe e o algoz, lado a lado.

Esses pequenos momentos duplos – a vítima que é acusada, o algoz e a mãe que recebem a notícia lado a lado – são a riqueza incontestável do roteiro de Disparos. São pequenas dicotomias, apanhadas no cotidiano de uma sociedade tão díspar como a nossa. Uma sociedade que exige mais educação, mas almeja diminuir a idade para prisão. Que brada contra a corrupção governamental, mas executa-a diariamente em pequenas doses. Que vê na violência extrema um meio para a paz perpétua. E, por falar em paz perpétua, houvesse uma epígrafe para o filme, poderia ser a citação de Kant: fiat justitia, et pereat mundus [Faça-se a justiça, ainda que o mundo pereça]. E, ainda que não caiba como epígrafe, o dito do alemão é com certeza um epitáfio justo para o Brasil de hoje, com o congresso mais conservador desde a redemocratização e, de algum modo, uma das mais frutíferas produções cinematográficas, desde o início do nosso cinema.

Merece destaque ainda a bonita sequência, próxima ao fim, na qual os vários núcleos que orbitam Henrique envolvem-se em atos de amor, incluindo sexo, no momento em que ele próprio, sozinho, começa a dar-se conta que seu desejo de vingança e reparação não é supremo. Sejamos pedantes como pede a crítica de cinema: é uma sequência incrível, nos moldes daquela final de Limite (Mário Peixoto, 1931), que mostra as ondas de um mar revolto quebrando ao som de um alegre e profundo piano, numa celebração à vida que persiste e ressurge, do mesmo lugar que a consome, o mar que engole as três personagens.

Disparos consegue, com a simplicidade de uma feliz união entre todos os seus componentes – roteiro, direção, fotografia, montagem etc. – quebrar um dos maiores tabus do cinema: o maniqueísmo mocinho/vilão. A vítima que omite socorro é um mocinho-vilão (mas não um anti-heroi). Sem grandes características, salvo sua arrogância, Henrique é uma pessoa comum que vive em um país comum, onde a violência parece cada vez mais comum. Mas não a violência do criminoso da mídia. A violência de uns contra todos. Em uma palavra: a barbárie… à la Brésil. Onde já não se diferenciam mais os mocinhos dos vilões, diferença que, bem verdade, nunca foi passível de ser feita.

“Os carnívoros dessa região nunca ficam com fome. Aqui é um paraíso para eles. Eles só tem um problema: uns aos outros” diz o narrador do programa de vida natural enquanto a justiceira se consome pela culpa.

“Os carnívoros dessa região nunca ficam com fome. Aqui é um paraíso para eles. Eles só tem um problema: uns aos outros” diz o narrador do programa de vida natural enquanto a justiceira se consome pela culpa.

Finalmente, é um daqueles filmes que traduzem pontos dolorosos do país de uma maneira realista, dura e não hollywoodramática, na seara de outros latinoamericanos como o argentino O Segredo dos Seus Olhos (Juan José Campanella, 2009). Mas, ao contrário do seu hermano, Disparos tropeça e cai na pedra da distribuição, assim como muitos dos excelentes filmes que estão sendo feitos todos os anos no Brasil. Temos muito a agradecer, nesse momento, à Ancine e suas medidas como a lei 12.485, que estabelece cotas de programação nacional em TV fechada, a lei 13.006, que coloca a exibição de filmes nacionais como componente curricular nas escolas, e o Decreto 8.386, que além de estabelecer o mínimo de dias e títulos de filmes nacionais a serem exibidos, impõe um limite para número de salas de um complexo exibindo um mesmo título, barrando o nefasto blockbuster.

 

P.S. – Disparos recebeu excelentes críticas do Hollywood Reporter, sob o título internacional de AE-AutoExposure (Auto Exposição, infelizmente perdendo o sentido múltiplo do título original). A revista diz que “o gênero de dramas de crime que expõe as falhas entre ricos e pobres tornou-se um clichê, mas o filme atinge um tom mais desenvolto e absurdo do que a maioria”. Quando uma crítica gringa chega nesse ponto, ou eles abriram as portas para compreender nosso cinema, ou nós conseguimos ensinar algo para eles com nossos filmes. Dos dois jeitos, nós ganhamos.