Insolação (2009)

por Gustavo Fontele Dourado

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“Introdução à literatura russa”, o livro que uma das personagens ganha no início do filme.

Uma forte e grande luz branca torna a cidade solitária, no meio de um deserto, murcha e com cores pálidas, mas cheia de amor. É uma história de trocas que não devem acontecer, um enredo de sentimentos incompletos. Mesmo que estas pessoas queiram muito que o seus sentimentos sejam transmitidos. Elas só podem manter essas emoções por um tempo minúsculo, ou são recusados ou guardar somente em seus próprios corpos.

Daniela Thomas e Felipe Hirsch dirigem o roteiro de Will Eno e Sam Lipsyte em Brasília-DF com inspiração nas atmosferas que os contos russos proporcionam nestes autores: a da impossibilidade do amor com outra pessoa. A escrita e o arranjo de ideias foi feita em ambiente internacional e com muitas colaborações entre o quarteto de autores – o roteiro foi feito sob encomenda de Daniela e Felipe e sua direção teve como local a cidade da utopia infeliz, uma cidade muito recente com períodos de seca e de chuva.

É curioso revisitar Insolação (2009) depois de meia década de sua estreia e depois do cinema do Distrito Federal ter rendido bastante debate com a ironia e a desconstrução de paradigmas com filmes importantes e fundamentais do Coletivo Ceicine como A cidade é uma só? (2011) e Branco sai, preto fica (2014) que trouxeram um novo olhar sob o cinema da região.

Com recepções mistas da crítica na época e bastante questionado pelo público, o filme de Daniela e Felipe propõe uma visão diferente em como fazer um cinema em uma cidade já viciada em se encarar e em ser o centro narrativo, contudo não é um filme que fala da cidade e sim sobre os desencontros do amor (como o contador de histórias e apresentador do filme coloca).

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Paulo José interpreta o contador de histórias, o apresentador Andrei.

Insolação (2009) é iniciado por um pacto que Andrei faz com o espectador, uma apresentação poética do que está por vir e depois cria um dispositivo narrativo: Andrei distribui papeis para as suas personagens dentro de uma lanchonete – o único local em que as personagens principais se encontram e se reencontram. E dali viverem suas histórias para depois compartilharem as experiências de um jeito muito sutil para Andrei, tudo é vivido e não dito. O vivido não é falado, é traduzido.

O filme tem sua grande força na fragmentação de várias histórias que compartilham a carência como algo em comum, algumas personagens transitam entre as outras histórias, outras se dão por satisfeitas em seus papéis ou em seus próprios mundos. O que parece ser bem segmentado em três núcleos narrativos, depois se torna mais fragmentado ainda e podemos vivenciar 5 ou 6 histórias diferentes para depois serem diminuídas em um número mais compacto no clímax dos desentendimentos e das frustrações. Personagens que transitam muito são Vladimir e Lucia (nomes russos), já os que ficam focados em sua própria trama são Leo e o homem errante sem nome.

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Lucia, interpretada por Simone Spoladore.

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Vladimir, interpretado por Antonio Medeiros.

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O homem errante.

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Leo, interpretado por Leonardo Medeiros.

No entanto, alguns dos defeitos do filme também são gerados pela condução desta fragmentação. Ao longo da trama, a linha narrativa do homem errante é a menos interessante em alguns momentos e depois faz todo o sentido para o desfecho da obra. Ela é mais importante para pensar a estrutura da obra, serve como bons labirintos reflexivos e também como um contraste de vivência em relação às outras linhas narrativas da obra. Seu percurso algumas vezes é mais tedioso e em certas partes picos de conflito faz nos interessarmos novamente pela sua história e pelo mistério latente para depois cair em alguns momentos menos significantes.

O homem errante é o único que morre e mostra que o dispositivo do criador Andrei é destruído – suas personagens precisam viver, elas não suportam a prisão e precisam sair daquela cidade de infinitas ilhas ou não se importar com os tabus de relacionamento como o da relação de um homem com uma criança ou entre um irmão e uma irmã. A angústia é o que prevalece para os que não querem ultrapassar estas barreiras.

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Lucia encontra uma criança na praça, o encontro é muito contemplativo e parece tão importante quanto a vitória de uma batalha.

As atuações são pesadas e na maior parte do tempo as personagens são estagnadas, porém tudo é expresso com uma técnica e motivos bem conduzidos, o que não torna um resultado pobre – a mescla de um motivo teatral e cinematográfico foi bem sucedido. Mas o estilo rústico pode afastar certas plateias acostumadas com o reino das interpretações naturalistas no cinema. As personagens são travadas e independentemente de ser algo bem forjado remete à estranheza e ao desconforto de assistir uma obra.

Outro possível ponto negativo é uma repetição um pouco mecânica de certos trechos de falas, não nas atuações e sim no roteiro. Criam coesão, porém o significado das emoções e de certas situações já são o suficiente. Porém, isso deve ter sido feito para demonstrar que onde não há troca de sentimentos, a continuidade do parado e da permanência são regras – mesmo assim se torna repetitivo por já existir outros elementos que demonstram essas ideias – torna-se um floreio narrativo. Um exemplo de outro elemento é a chuva curta que as personagens recebem, mostra um momento de renovação diante de tanta secura na comunicação de sentimentos. Há emoções demais para uma pessoa, porém o movimento faz com que estas pessoas continuem no mundo, mesmo que inertes.

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A chuva revive Lucia.

Outro desconforto é o vazio massacrante que é retratado no espaço da cidade e que é absolutamente belo. Essa escolha lembra a de Terra Tranquila (1985), filme da Nova Zelândia, onde quase todos os seres humanos desapareceram do planeta, só restaram 3. A solidão e falta de pessoas nas duas obras faz com que cada encontro seja único e cada vez mais necessário, ver uma pessoa não é um acontecimento corriqueiro. Em Insolação (2009), mesmo que os encontros são muito relevantes, as pessoas são tímidas e são acostumadas a interagir dessa forma, ou contemplativos ou cheios de proibição. Talvez eles não saibam quem amar ou realmente não há quem amar.

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Um lugar inusitado para andar de bicicleta, os brasilienses sabem. Há espaço demais e apenas sombras para interação. Sombras demais e pessoas de menos.

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Mais vazios.

Não é um filme realista e nem se propõe a isso, a plateia de Brasília talvez se acostumou por um retrato preso demais à sua arquitetura e a uma representação rígida da própria cidade que é repetida infinitamente, talvez Insolação seja encarado como um filme de pouca verossimilhança e que não corresponda ao cotidiano. Esse filme foi uma tentativa instigante e que merece ser revisitado para futuros filmes e peças feitos por aqui. Vive-se um forte crescimento do eixo estético da ironia e da crítica periférica à geopolítica representada por obras do Ceicine, outro eixo é a estagnação e visão tradicional da cidade só como único tema possível (Brasília ainda não teria história o suficiente ou não tem narrativas maduras).

E um eixo esquecido e pouco bem-sucedido que Insolação nos traz, obras íntimas que se propõem como enigmáticas, impressionistas e provavelmente filmes de apartamento com um desenvolvimento fraco tenham contribuído para o enfraquecimento dessa inspiração estética a ser considerado como referência importante.

Agora como momento catártico marcante é a elipse reflexiva que Andrei nos proporciona, com base nas suas personagens ele se analisa com saudosismo. Um dia ele foi assim, mas não se sabe se seu amor foi completo ou preso nos infinitos espaços e fantasmas. Andrei se divide em múltiplas personalidades e conhecemos os seus passados, as suas dores e as suas projeções.

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É obrigatório que cineastas e cinéfilos de Brasília assistam a esse filme e com certeza deve ser revisitado como fonte de inspiração. É um daqueles filmes experimentais que em certas escolhas ousadas tem avaliações ambíguas em relação à composição da obra, um elemento contribuiu de forma positiva – porém pode trazer certas particularidades negativas, entretanto deve ser mais lembrado por suas conquistas. 4 estrelas de 5.

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