O exercício do caos (2013)

por Thiago Campelo

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Ao longo das últimas décadas, muito pouco se falou do estado do Maranhão para além das más administrações dos governos que por lá se perpetuaram ou tiveram breve passagem. Atentou-se basicamente para a condição estabelecida, no que tange à capital São Luís, de grande museu, arquitetônico, folclórico, literário… Sobre o interior do estado, bem menos foi dito.

Vive-se ainda, apesar de certo aquecimento contemporâneo, de um passado cada vez mais distante, de um imaginário de alta cultura proveniente do século XVIII e XIX, fruto de espasmos econômicos que a capital atravessou. A derrocada econômica na região durante praticamente todo o século XX, levou consigo a possibilidade de produção cinematográfica consistente. Diferente do Recife e de João Pessoa, que fizeram parte dos ciclos regionais cinematográficos do Brasil, São Luís e todo o estado do Maranhão, nas primeiras décadas, ainda não tão decadentes do século passado, não geraram nenhuma obra cinematográfica. As décadas subsequentes continuaram não favoráveis à produção de filmes em toda a região.

A míngua de fitas da terra é tão drástica que pouquíssimas informações da história do cinema do estado são de fácil acesso. As perguntas mais frequentes sobre esse assunto, via de regra, são: alguém já viu algum longa-metragem maranhense? Não um filme rodado no Maranhão, mas um filme de fato maranhense? Em 90% das vezes (ou mais) que essas perguntas forem feitas, até mesmo para um maranhense, a resposta será negativa.

No entanto, nos últimos 3 anos, algumas esparsas produções locais vem aparecendo, obviamente sem a mesma visibilidade da cena pernambucana ou cearense, mas, de qualquer maneira, há algo sendo feito na região e que, tirando os círculos de crítica especializada por onde os filmes circularam, ainda se mantém à revelia da maior parte do público. São os casos de O exercício do caos (Frederico Machado, 2013) e Luises: Solrealismo maranhense (Lucian Rosa, 2014).

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Desses dois exemplos, O exercício do caos é de fato o melhor acabado e mais complexo em termos de construção narrativa e, mesmo assim, não quer dizer que atinge certa perfeição. Pelo contrário, é um filme que não tenta esconder suas falhas, sejam elas técnicas, dramáticas ou narrativas. O que, de certa forma, torna-o mais atraente do que se fosse um filme regido pelas regras tradicionais cinematográficas. Em todo caso, é talvez uma obra que possa servir como primeira parte da construção de um alicerce para o cinema do Maranhão (e não restritamente ludovicense).

O filme de Frederico Machado trata da história de um pai (Auro Juriciê), e suas três filhas (Thalyta Sousa, Isabella Sousa e Thayná Sousa) que moram dentro de uma propriedade rural e subsistem da produção de farinha. Imersos nessa realidade, eles vivenciam um drama gerado pelas lembranças e aparições fantasmagóricas da mãe das três meninas, Dasdô (Elza Gonçalves).

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O enredo do filme é de fato esse e vai pouco além disso. Entretanto, é justamente nessa lacuna da falta de progressão narrativa tradicional que o ponto alto do filme se estabelece. O pai, ainda no primeiro terço do filme, conta às filhas a possível razão da ausência da mãe: um provável sequestro ou uma ida de vontade própria. É a partir disso que as personagens que vão se construindo austeras e fechadas, quase desprovidas de humanidade, entregues à condição do trabalho árduo, ganham, de certa forma, mais espaço para que o molde de atuação definido se encaixe melhor no fluxo da obra. O exercício do caos não se alinha com um padrão realista de narrativa e dramaturgia que ensaia nos seus primeiros minutos; sua regência se dá através de uma leitura do inconsciente dessas próprias personagens. É um limiar entre o real e o fantástico proporcionado pelo mergulho no imaginário do camponês.

Austeridade presente nos personagens é também refletida na própria composição do filme de Machado. Parece que toda a composição simples do filme, tanto no que se refere aos enquadramentos e movimentos quanto na composição dos próprios planos e também, é uma forma de eximir a película de qualquer pompa e utilizar o essencial tecnicamente e narrativamente para contar uma história basilar. Tanto é que o uso limitado dos diálogos não impede a fluidez da narrativa. A composição de cada quadro mostrado é dotada de força capaz de significar pontualmente os momentos do filme.

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Não é a toa que O exercício do caos é dedicado a Robert Bresson e a sua visão purista da arte cinematográfica é reflexo direto na constituição dessa película maranhense. Entretanto, abrindo concessão não sem justificativa, o uso da trilha extradiegética proporciona o devido adensamento da condição fantástica do filme. A música de Béla Bartok e Alfred Schnittke é essencial, juntamente com a ambientação noturna e a fotografia amarelada para a construção desse espaço capaz de comungar o real e o imaginário.

No entanto, o ponto menos trabalhado do filme e que dá realmente um pouco de desânimo é a forma como são conduzidas as atuações. Sobretudo a atuação das três meninas que vacila entre uma dureza absurda e momentos de leveza. Não é capaz de transpor maior profundidade às personagens que se desenham como de grade importância. A figura do capataz (Di Ramalho), que surge ao longo do segundo terço do filme é também pouco aproveitada – não que sua presença fosse requerida para dar mais explicações sobre a história.

Apesar disso, O exercício do caos é um filme de boa qualidade estética e, apesar de digestão não tão fácil, é instigante e tende a uma construção de significados abertos. Além disso, é uma obra capaz de abrir um espaço de grandes possibilidades por onde uma futura e incerta cinematografia maranhense pode se desenvolver.