Casa Grande (2014)

por Daniel Lukan

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Uma enorme casa aparece no centro da tela. Exageradamente iluminada, exibe em primeiro plano um opulento jardim que cerca uma piscina e uma jacuzzi. Dentro dessa jacuzzi, um homem (muito provavelmente dono desse casarão) toma alguma bebida e escuta música clássica. Os créditos iniciais vão sendo apresentados nessa sequência em que o homem se levanta da jacuzzi, coloca seu roupão e caminhando lentamente apaga as luzes do jardim, entra na casa, desliga o som e, com perfeito sincronismo, fecha as portas e desliga uma por uma as luzes da casa até chegar à última, no alto da casa, certamente de seu quarto. Quase simultâneo ao apagar dessa última luz, aparece o título do filme: Casa Grande.

O que parece ser uma simples introdução para inserção dos créditos iniciais, no fundo resguarda todo o clima de solitude, incomunicação e hipocrisia adornada pelo luxo, riqueza e esplendor ostentado pela aparência magnificente daquela casa. A música clássica que toca lembra Speak softly, Love – tema inesquecível do primeiro Godfather – e, sem dúvidas, ajuda a criar essa atmosfera. Isso acontece, pois, ao contrário do clássico de Coppola, no qual as figuras centrais da estrutura familiar patriarcal estão cercadas de amigos (e também inimigos) e onde as relações são baseadas num rígido sistema de favores, respeito e fidelidade, a sequência inicial do filme do diretor estreante Fellipe Barbosa utiliza uma trilha sonora com o mesmo tom decadente, contudo, a imagem faz essa contraposição: o patriarca dessa família está só, não há quaisquer sinais da presença de sua família, não há amigos e, como se contata no decorrer do filme, a proximidade e as relações familiares estão extremamente abaladas e frágeis.

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No entanto, o enredo do filme passa longe de parecer com o da trilogia sobre a máfia italiana, seu maior suporte é uma recontextualização das discussões em Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. O sociólogo brasileiro surge como uma grande referência que permeia os conflitos da relação entre patrões e empregados. A alusão feita no título nos mostra que, embora se tenha eliminado a existência de uma senzala, o entendimento e a autoridade de uma casa-grande não está completamente suprimido da cultura brasileira que continua a reproduzir comportamentos que demonstram uma hierarquização e consequente dominação feita com base no poderio financeiro de cada um, além de um isolamento e uma categorização entre classes e grupos étnicos que, querendo ou não, hora ou outra irá ‘estourar’ em razão do acumulo dos mais diversos atritos.

Ou seja, o casal Sônia (Suzana Pires) e Hugo (Marcello Novaes) tenta esconder o inevitável declínio financeiro que a família enfrenta e, porém, apenas amansam e escondem a dor lenta e angustiante da iminente falência; semelhantemente, no Brasil, tenta-se dar como superada a terrível e perversa relação entre a casa grande e a senzala, contudo, esta é apenas uma ferida encoberta e ignorada que revela no dia-a-dia pequenos vestígios e sequelas do seu tapado (mas não estancado) sangramento.

Todavia, o que pode se notar como uma das grandes virtudes do filme é o fato dessas questões sociais serem abordadas intrinsicamente em sua bem elaborada narrativa, de modo que não urge no filme como um resmungo moralista ou um discurso ideológico. Isso em pelo menos boa parte do filme. O único vacilo mais evidente ocorre na cena em que Jean – protagonista imerso em todas as questões que se desenvolvem no filme – filho do casal Sônia e Hugo, leva sua namorada, Luíza (Bruna Amaya), negra e moradora da periferia, para um almoço de final de semana em sua casa. Hugo e Luiza começam a ter uma discussão sobre o sistema de cotas. O diálogo que se desenrola obviamente é articulado para ridicularizar a postura meritocrática de Hugo, mas os argumentos pré-moldados e os ataques clichês que compõem as falas das personagens tornam ambas caricatas e vazias.

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Jean (Thales Cavalcanti) é o reconhecido filhinho do papai superprotegido, sua angústia e motivação ao longo da história consiste em seguir seus sonhos, sua vocação e atender seus impulsos do auge da adolescência, ou obedecer aos conselhos, as ordens e as decisões de seus pais, que visa mantê-lo numa bolha superprotetora até que ele tenha se tornado uma réplica de seu pai. Ela tenta sair, mas o choque com a realidade mostra que sua identidade não é completamente formada, muito pelo contrário, seu discurso, quase sempre, está preso a uma repetição das opiniões de seu pai.

Sem dúvidas, Casa Grande possui uma história com grande profundidade e bons personagens e aponta, na estréia de Fellipe Barbosa, a aparição de mais um nome promissor no cenário atual do cinema brasileiro. É carregado de um drama bem elaborado, peca apenas na construção das personagens que compõem as classes mais pobres, todas carregadas de exagerada bondade e inquietante passividade… parecem entrar na história como instrumentos que dão vazão às atitudes e aos comportamentos e desejos dos personagens centrais – apenas meros artifícios narrativos.

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Na escolha do elenco, Marcello Novaes e Suzana Pires dão segurança e maturidade aos respectivos personagens e Thales Cavalcanti, talvez na sua inexperiência, torne completamente crível a personalidade lerda e fraca de Jean. E a grande surpresa seja, talvez, Bruna Amaya, que consegue transitar entre intensa sensualidade e meiguice, sem quebrar a personalidade forte e decidida de Luíza.

Casa Grande é um bom e eficiente filme, que mostra que tanto a relação entre uma personagem rica e outra que mora na periferia, quanto os problemas sociais como desigualdade, violência, etc., tão recorrentes na nossa filmografia mais recente, não precisam ser abandonados, mas que podem receber outras abordagens.