Barton Fink (1991)

por Daniel Lukan

“Joel and Ethan had always been comfortable working with the same technical and creative crew. They might be loyal by nature, but it was also to their advantage to work with people who understood them and their methods. Not everyone liked directors/producers/writers who were as involved as the Coens.”

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Lançado em agosto do ano de 1991, Barton Fink era um projeto despretensioso e independente dos irmãos Coen. Feito com aproximadamente nove milhões de dólares, o filme não obteve como receita muito mais que dois terços disso. A história – deveras comum, porém, contada de maneira surpreendentemente inusitada – tem como premissa a trajetória de um dramaturgo que após seu meteórico sucesso de público e crítica é contratado como roteirista para trabalhar em Hollywood; contudo, perplexo com a perversidade que existe por trás das produções da indústria cinematográfica, Barton sofre com uma crise criativa que o impedirá de escrever (o que acaba por ser o mote de todo o filme).

Talvez uma das grandes ironias que circunda o processo de produção do filme se dê pelo fato de os irmãos Coen começarem a desenvolver o roteiro de Barton Fink em meio ao próprio bloqueio criativo que passavam enquanto escreviam Miller’s Crossing (1990). A história densa contada no filme de gangsters levou aproximadamente quatro meses para ser finalizada, no meio desse período, três semanas com bloqueio criativo foram suficientes para que os irmãos “limpassem suas mentes” escrevendo outro roteiro.

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Barton (John Turturro) é uma figura excêntrica, aparentemente fechada e introvertida, mas que, no entanto, revela-se extremamente falador nas determinadas situações em que é indagado a falar sobre sua arte. Ao chegar a Hollywood ele se instala no grandioso, lúgubre e abandonado Hotel Earle. Senão pela presença fantasmagórica de Chet (Steve Buscemi) que é o recepcionista, mas que na verdade é a única pessoa a tomar conta do gigantesco edifício, que parece completamente abandonado. Entretanto, após sua primeira reunião com o Jack Lipnick (Michael Lerner), seu chefe na Capitol Pictures, Barton tenta iniciar a escrita do roteiro que lhe foi designado e é atrapalhado pelo barulho de seu vizinho do quarto ao lado, Charlie Meadows (John Goodman), que logo se torna seu único amigo.

Todavia, vale fugir desse detalhamento mais prolongado dos fatos. Em resumo é isso: Barton Fink precisa escrever um roteiro de um filme de wrestling e não consegue. O filme em certo momento começa a tomar configurações extremamente enigmáticas e psicológicas que meio que correspondem a um devaneio dos próprios irmãos Coen projetados em Barton (não à toa recebe o subtítulo de “delírios de Hollywood” aqui no Brasil). Esse ambiente místico estabelecido nos induz a uma incredulidade nos próprios acontecimentos, até que no final, já completamente descrentes começamos a questionar se tudo que aconteceu foi um mero delírio, um sonho ou qualquer coisa da mente do próprio Barton em seu processo de criação. Essa resposta não é dada. Por isso um resumo mais detalhado não seria interessante, essa confusão é parte do absurdo que compõe o estilo do humor incomum que é uma marca da própria filmografia dos irmãos.

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Além da óbvia crítica que é feita ao sistema industrial de produção cinematográfica, sobretudo nos anos 30 e 40 (período em que o filme se passa), seja pelo tolhimento criativo a que os roteiristas são submetidos, pelos prazos minúsculos a serem cumpridos, a figura do grande literato arruinado e a evidente figura do grande literato ou dramaturgo que é convidado para escrever roteiros arquetípicos cheios de fórmulas; é interessante observar também o modo como o filme trabalha uma crítica ao comportamento criativo e as convicções de um artista. Barton Fink se vangloria de escrever peças que sejam o retrato do homem comum e seu dia a dia, público ao qual se dirige; no entanto, ao conhecer Charlie Meadows se empolga com sua amizade e faz um imenso discurso sobre o homem comum – grupo ao qual Charlie se enquadra – mas, além do fato de Charlie não entender nada do que Barton discursa, ele é ignorado pelo escritor quando diz que poderia contar-lhe algumas histórias. Ou seja, Barton que se diz grande representante do homem comum, não é capaz de ouvi-lo de saber quais histórias sua experiência de vida poderia proporcionar. Por outro lado, ao conhecer W.P. Mayhew (John Mahoney), um aclamado escritor, transformado em roteirista e alcoólatra, Barton vai atrás dele em busca de ajuda com o roteiro que precisa escrever. O que a narrativa acaba revelando é que Mayhew se tornou um beberrão barulhento, assim como o próprio Charlie; mas atitude de scholar de Barton o torna surdo aos apelos daquele o qual o diz defender e representar.

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Além disso, muito se fala sobre simbolismos por trás do filme, o papel de parede que fica descolando, o calor insuportável, os mosquitos que só perturbam a Barton, o quadro pregado na parede do quarto, o nome dos detetives que fazem uma referência a soldados nazistas, etc… são várias coisas que podem virar pontos de análise no filme, porém, são todos pequenos detalhes que muito além de criarem significados simbólicos servem para compor esteticamente a atmosfera subjetiva de aflição, de drama psicológico. Barton Fink é um grande pesadelo, as personagens vivem em função da mente de seu protagonista, o que acaba criando um clima kafkiano como poucas vezes se viu no cinema.

Se usarmos Charles como exemplo: no começo parece ser um vizinho grosseirão e rude que irá brigar com Barton pelo fato dele ter se queixado para a recepção do hotel, entretanto, ele acabando se revelando um barulhento mas afetuoso amigo, até que no final é revelado que ele é um psicopata sanguinário. Ou seja, tais mudanças bruscas e absurdas de caráter podem acontecer onde senão num sonho?

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Barton Fink possui o tom trocista recorrente na filmografia dos irmãos Coen, além das inúmeras referências cinematográficas (The Shining, Repulsion, The Tenant, dentre outros menos evidentes) o filme preza pelo uso de arquétipos de diversos gêneros trabalhados – o filme nunca se prende a um único – e isso ajuda compor as várias brincadeiras e ironias. Assim como o próprio Miller’s Crossing, também foi outro fracasso de bilheteria da filmografia dos Irmãos Coen não rendendo nem o dinheiro gasto em sua produção, contudo, o reconhecimento crítico e os prêmios vencidos no festival de Cannes evidenciam o grande valor artístico que Barton Fink possui. E tanto quanto o drama vivido pelo protagonista da narrativa, o filme em si, seus produtores/diretores/roteiristas/editores e o fracasso de mercado, levantam um questão importante sobre o valor artístico de uma obra cinematográfica, sobre a quem ele tem que atender: anseios do grande público (da massa) ou o gênio criativo de seu(s) criador(es)?

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Barton quer representar e atingir o homem comum, mas, ironicamente, tem em mãos o trabalho de um roteiro sobre lutadores de wrestling. Enfim, ele não faz essa reflexão, mas o grande público do cinema não quer “se ver”, o interesse é pela identificação com super-homens, com a ilusão grandiosa daquilo que ele mesmo não é, daquilo que gostaria de ser.

Citação:

LEVINE, Josh. The Wallpaper Movie. In: The Coen Brothers: The story of two american filmmakers. Toronto: ECW Press, p. 81-102.