Tudo por amor ao cinema (2015)

por Gustavo Menezes

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O desenvolvimento acelerado dos recursos tecnológicos nos últimos anos deu aos cinéfilos a possibilidade de acesso imediato a um sem-número de filmes já produzidos (se devidamente preservados e difundidos, claro) desde o surgimento da sétima arte.

Numa questão de segundos, com o já corriqueiro Youtube, é possível conferir integralmente marcos como A chegada do trem na estação (Auguste e Louis Lumière, 1895), Viagem à lua (Georges Méliès, 1902), M – o vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang, 1931) ou Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964). Isso sem falar nas produções mais recentes de grandes estúdios – que, não raro, caem nos sites de compartilhamento antes mesmo de chegarem aos cinemas.

Para os cinéfilos das gerações mais jovens, que desde cedo se acostumaram a estar rodeados de uma infinidade de torrents, serviços de streaming, pay-per-view e afins, a importância de espaços como cineclubes e cinematecas pode passar despercebida.

Durante a maior parte da história do cinema, porém, o acesso às fitas cinematográficas dependeu de uma série de fatores: a possibilidade de deslocamento físico do espectador até um ambiente onde houvesse exibições, bem como a disponibilidade física de uma cópia do filme, um projetor e uma superfície onde projetá-lo. Assim, quando alguém assistia um filme naqueles tempos, era bem possível que o estivesse fazendo pela última vez. Daí o apelo inerente a centros como cinematecas e cineclubes, necessários ao cultivo da cinefilia e da educação cinematográfica.

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É numa figura central para o fomento à cinefilia no Brasil que o novo filme de Aurélio Michiles se foca. Cosme Alves Netto (1937-1996) esteve por décadas à frente da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio. Incondicionalmente apaixonado pelo cinema, ele se envolveu desde a juventude em cineclubes e, durante seus anos na Cinemateca, foi responsável pela preservação e difusão de centenas de filmes nacionais e internacionais.

Para isso, não media esforços. Filho de um deputado amazonense, Cosme gastou a fortuna da família promovendo a exibição de filmes raros como Alô alô carnaval (Adhemar Gonzaga, 1936), fomentando cineclubes e mostras, e viajando o mundo atrás de cópias de filmes considerados perdidos. Salvou várias fitas da extinção por meio de acordos secretos com donos de cinemas – que guardavam para ele uma cópia de cada filme a ser destruído após expirado o certificado da censura. Além disso, foi um dos responsáveis pela redescoberta de Silvino Santos, pioneiro documentarista autor de No paiz das amazonas (1922).

Desafiando a repressão, conservou escondidas as latas do que viria a ser o clássico Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho, 1985), interrompido em função do golpe militar de 1964. Teve problemas com a ditadura por guardar e difundir filmes considerados subversivos como O encouraçado Potemkin (Sergei Eisenstein, 1925), além de manter relações com Cuba e com grupos de esquerda. Foi preso e torturado. Teve que viver na clandestinidade.

Mais do que recontar a vida de Cosme, este longa – que conclui a “trilogia do cinema” de Michiles, composta de Que viva Glauber (1991) e O cineasta da selva (1997), sobre o supracitado Silvino Santos – vem jogar os holofotes sobre certas figuras que são tão fundamentais para a história do cinema como os diretores, roteiristas, produtores e atores, mas que ficam quase sempre nas sombras.

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Quantos filmes não teriam se perdido se não fosse por indivíduos como Cosme Alves Netto? Quantos cinéfilos, críticos e cineastas deixariam de sê-lo caso não tivessem uma educação cinematográfica de qualidade? Por isso mesmo, ele era contra deixar os filmes que preservava parados na estante. Acreditava que era necessário exibi-los sempre. Num país bombardeado pela colonização cultural, e que por isso mesmo tende a renegar sua própria história, pessoas com essa mentalidade são fundamentais.

Cosme defendia que filmes antigos estavam acima do juízo de valor; além de “bom” ou “ruim”. Cada filme, depois de um tempo, passa a ser uma espécie de guardião da memória coletiva de um povo. Assim, o apropriadíssimo slogan do cartaz, “ele fez dos filmes a história da sua vida”, é aplicado na prática pela montagem inteligente e curiosa, que usa trechos de filmes de várias épocas e nacionalidades para ilustrar as passagens da vida de Cosme.

Ao tratar de seu filme favorito, Cantando na chuva (Gene Kelly e Stanley Donen, 1956), a montagem insere um bailarino dançando frevo num toró ao som de “Tomara que Chova”, cena clássica de Aviso aos navegantes (Watson Macedo, 1950). Quando é discutida sua prisão durante a ditadura, surge Joel Barcellos sendo torturado em Jardim de guerra (Neville de Almeida, 1970).

Há espaço para o lirismo e a inventividade também no roteiro. Os créditos iniciais são lidos por um narrador, à moda de Fahrenheit 451 (François Truffaut, 1966); e as primeiras cenas mostram uma atriz representando uma divindade que coloca no mar uma lata de filme e um jornal em que se destacam duas manchetes: a da morte de Gene Kelly e a da morte de Cosme, no mesmo dia.

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Os depoimentos que compõem o longa são riquíssimos. Nomes como Cacá Diegues, Nelson Pereira dos Santos, Eduardo Coutinho, Silvio Tendler e José Carlos Avellar, além de familiares e amigos, ajudam a reconstruir a trajetória do biografado. Passam por seus trejeitos, suas ações significativas, sua consciência política e até mesmo seu apreço por charutos.

Encerrando com chave de ouro a trilogia de Michiles, Tudo por amor ao cinema emociona não só pela paixão que tem por seu protagonista (ele próprio um apaixonado), mas por saber utilizar tão bem o cinema para homenageá-lo. E chega num momento crucial, em que a cinefilia – ou nossa própria relação com a arte cinematográfica, melhor dizendo – passa por mudanças radicais.