Organ (1965)

por Elias Fontele Dourado

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Stefan Uher é um diretor curioso de ser analisado, uma vez que nasceu na antiga Checoslováquia e era, em essência, um eslovaco. Em 1993, com a criação oficial da Eslováquia, os filmes de Uher finalmente puderam descansar sob o nome de sua verdadeira pátria. Mais curioso ainda foi o fato de Stefan Uher ter falecido três meses depois da criação de seu estado original. Seu cinema, portanto, foi importante para os dois lados, sendo um dos maiores nomes da Czech New Wave e, talvez, o maior nome do cinema eslovaco, ao lado de Juraj Jakubisko, Martin Sulík, Ján Kadár, Stanislav Barabas e Dusan Hanák.

A maestria de Stefan foi responsável por despertar o cinema eslovaco de seu “sono dogmático”. Desde Jánosík de Jaroslav Siakel em 1921, provavelmente o mais importante filme mudo eslovaco e Katka de Ján Kadár em 1949, não houveram notícias de grandes filmes desse povo que, na época, estava integrado com a Checoslováquia. Somente no início dos anos sessenta, com a chegada de Ján Lacko, Stanislav Barabas e principalmente Stefan Uher, que há uma grande retomada dos diretores eslovacos.

Organ é um dos melhores filmes de Uher. Complexo, simbólico, carregado de vastos conflitos políticos, é um filme para ser revisto várias vezes e estudado com minúcia juntamente com a história da Checoslováquia e sua posterior dissolução. Após o golpe de 1948 aplicado pela União Soviética, onde a Checoslováquia passou a ser altamente influenciada pelos soviéticos com o regime comunista, muitos dos checos e eslovacos começaram a se sentir em um mundo extremamente diferente, em uma ditadura.

É em meio ao caos da Segunda Guerra Mundial e toda essa tensão criada na Checoslováquia que é erigido o pano de fundo de Organ. Na época de lançamento do filme, 1965, o país ainda era Checoslováquia, mas é importante notar que a obra retrata o período entre 1939 e 1945, quando o líder fascista Jozef Tiso declarou-se independente da Checoslováquia, criando a Primeira República Eslovaca, que não passava de um fantoche dos nazistas alemães. O filme, portanto, ao mesmo tempo que tenta ser um crítico do nazismo, também é do comunismo, que era o regime adotado pelo país na década de sessenta.

Toda essa atmosfera política torna o filme muito denso, carregado de simbolismos e sutilezas nada fáceis de serem percebidas se você não é um conhecedor da história checa/eslovaca. Organ conta a fictícia história de um jovem soldado polonês que deserta do campo de batalha contra os nazistas e encontra seu refúgio em um pequeno monastério eslovaco de franciscanos. O soldado também é um exímio organista, apanágio que gera inveja em alguns dos franciscanos, pois ele consegue transmitir, como eles dizem, a perfeição da beleza divina através da música.

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O pessoal do monastério o acolhe de bom grado. O organista oficial deles, contudo, apesar de o receber bem primeiramente, posteriormente, mostra ser muito invejoso, razão que gera um trágico final para o jovem polonês. Ao mesmo tempo que o filme carrega o título de ‘órgão’ devido o instrumento, também leva, ao meu ver, pela metáfora dos órgãos biológicos, em especial, o coração. Pelo fato do roteiro ser situado em um monastério franciscano, é natural haver muitas demonstrações de fé e bondade, esta segunda, contudo, como vemos ao decorrer do filme, não é muito recorrente.

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Assim como o órgão é tocado com maestria pelo jovem soldado e organista polonês, ele também consegue tocar o coração dos ouvintes, com a mesma maestria, através da inveja. Além da tensão no monastério, o organista acaba sendo recebido com certa antipatia pelos moradores da pequena vila, onde todos conseguem ouvir muito bem a execução das melhores peças de Johann Sebastian Bach para o órgão.

Essa problemática criada na Primeira República Eslovaca, sob o jugo do nazismo, também serve de crítica para o comunismo da década de sessenta, e Uher faz muito bem, mostra a antipatia, tortura psicológica e todos os aspectos de uma, ao menos latente, ditadura nessa pequena vila. É um filme que pode parecer vazio, deveras simples, mas é uma obra que impressiona pelo número carregadíssimo de metáforas e simbolismos, uma película do mesmo porte denso de Diabel de Andrzej Zulawski.

Organ não é um filme para ser analisado rapidamente, precisa ser refletido, visto de um modo mais complexo, como se tivéssemos que ligar o infravermelho para podermos enxergar suas reais sutilezas. A fotografia de Stanislav Szomolányi, parceiro de Uher em quase todos os seus filmes, deixa o filme ainda mais enigmático, com a beleza do preto e branco e captura em belos planos gerais das pinturas do monastério. A música de Bach cai perfeitamente no filme, criando cenas em que som e cenário sincronizam-se, uma verdadeira experiência da suposta perfeição divina através da música que os franciscanos tanto dizem.

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Organ foi o primeiro filme eslovaco a ganhar um prêmio importante para além das agraciações comunistas fora do país. Ganhou um prêmio especial no Festival de Locarno, dando a Uher e ao cinema eslovaco maior visibilidade. O cinema checo na década de sessenta, e isso inclui Uher, foi riquíssimo, em especial na Czech New Wave, movimento que o próprio Stefan foi um dos fundadores. É importante reiterar, contudo, que Stefan era essencialmente eslovaco, assim como Ján Kadár, que dirigiu o famoso Obchod na korze, vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1966.

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Ao lado de diretores como Milos Forman, Frantisek Vlácil, Vera Chytilová, Jirí Menzel, Jaromil Jires e Vojtech Jasný também está o nome Stefan Uher. Stefan não é tão conhecido como os primeiros citados, mas faz um cinema de altíssima qualidade, que nada deve aos primeiros. Organ é uma daquelas obras que te intrigam e fazem você ir além do filme, para estudar história, música etc. Um filme que, certamente, quando for redescoberto, vai sofrer muito com a subestimação. Cabe aos cinéfilos tratar essa maravilha com os órgãos dos sentidos em sua plenitude.