Que horas ela volta? (2015)

por Gustavo Menezes

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Nos últimos anos, tem saído uma leva muito boa de filmes sobre o Brasil moderno, como O som ao redor (Kléber Mendonça Filho, 2012), Eles voltam (Marcelo Lordello, 2012) e Casa grande (Fellipe Barbosa, 2014). São filmes que buscam enxergar a herança da escravidão na estruturação da sociedade contemporânea ao mesmo tempo em que analisam as relações entre as classes sociais afetadas por um processo de inclusão social e econômica inédito em nossa história.

Com as políticas sociais dos governos recentes, houve uma ampliação do horizonte de expectativas de uma parcela historicamente ignorada da sociedade brasileira. Essa nova geração das classes baixas não se vê mais forçada a suceder seus pais na ocupação de sub-empregos; mas sim tendo acesso ao ensino superior nos mesmos espaços que os mais ricos e, dessa forma, podendo ocupar espaços de prestígio anteriormente monopolizados pelas classes altas. O embate entre essas duas gerações e classes está no cerne do novo longa de Anna Muylaert.

Val (Regina Casé) foi de Pernambuco para São Paulo há mais de dez anos procurando melhores condições de vida e deixou a filha, Jéssica (Camila Márdila), aos cuidados de uma amiga. Esses dez anos, Val passou trabalhando de empregada doméstica na casa de uma família de classe alta composta por José Carlos (Lourenço Mutarelli), Bárbara (Karine Teles) e Fabinho (Michel Joelsas).

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Val é a subserviência em pessoa. Vive pedindo desculpa por qualquer coisa e abaixando a cabeça para os patrões – que, não raro, lhe tratam com grosseria – porque “sabe o seu lugar”, tanto na casa deles como na sociedade. Já Jéssica, que vai à capital paulista para prestar vestibular para arquitetura, vê a si própria e aos patrões de Val absolutamente como iguais. Ela não entende como a mãe pode se sujeitar a ter seu espaço na casa limitado e a viver constantemente humilhada sem revidar. Para Jéssica, o espaço da casa é seu tanto quanto de qualquer outra pessoa ali, independente de classe social. E o respeito lhe é devido por direito.

Os personagens encaram isso de formas diferentes. José Carlos e Fabinho se surpreendem positivamente com a curiosidade e a determinação da jovem, sentindo por ela uma atração que fica clara na forma como deixam que ela ocupe qualquer espaço da casa sem cerimônia. Quer ficar no quarto de hóspedes? Vá em frente. Quer comer o sorvete de Fabinho? Claro. Quer nadar na piscina? À vontade.

Essa atração dos dois pela menina – e a forma como ela lida com isso – também é bem esclarecedora do novo tipo de relação entre as classes. Se José Carlos em determinado momento de seus contidos avanços românticos parece se comportar como dono de Jéssica, ela defende sua dignidade em lugar de se rebaixar. Sua reação o desmonta, o deixa sem graça. Ele é quem sai humilhado.

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Já Val e Bárbara demonstram um incômodo gigantesco a cada avanço de Jéssica sobre o território da família. Ambas tentam, sem sucesso, fazê-la enxergar “seu lugar”. Quando a menina é apresentada à família e conta que pretende prestar vestibular na USP, Bárbara deixa subentendido que acredita que ela não teria condições de passar por conta da concorrência. Ao mesmo tempo, se esforça para passar a impressão de que as ambições de Jéssica não a incomodam.

É nessa cordialidade fingida que o longa tem um de seus maiores trunfos. “Você é praticamente da família”, diz Bárbara para Val justamente na cena em que esta pergunta se a filha poderia passar um tempo na casa dos patrões. As duas sabem que essa aparente gentileza é feita mais por “educação” que por qualquer outra coisa. Apesar de morar naquela casa, Val não possui nada ali. Isso fica explícito já no início.

Que horas ela volta? começa com uma cena na piscina da casa da família de classe alta (assim como Casa Grande). Quem entra na piscina é Fabinho ainda criança, vigiado por Val, que não pode entrar. Ela vive ali por mais de dez anos, cercada de espaços e objetos dos quais não pode usufruir. Está ali quase que mais uma posse da família, vive para servi-la, e não por acaso essa relação remete por vezes aos tempos da escravidão. Seu território ali limita-se ao seu quartinho e à cozinha. Por isso, é fundamental que o filme deixe claro que está ao seu lado.

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Quando os patrões são apresentados – cada um individualmente -, eles estão sentados à mesa de jantar chamando Val para servi-los. Ela sai e vai atendê-los. Os planos são estruturados com a câmera de dentro da cozinha, fazendo um sobre-enquadramento dos patrões pela porta da sala de jantar. Quer dizer, adota-se o ponto de vista da cozinha, com um distanciamento dos patrões.

Por isso, a câmera passa muito mais tempo dentro do quartinho quente e abafado de Val do que escada acima, no quarto do casal. Depois de certo tempo de projeção, o espectador já está acostumado a ver aquela residência como indo do quartinho de Val para o quintal e a cozinha, e parando na escada que leva ao andar de cima. Mesmo quando vai entrar no quarto de Fabinho ou do casal a câmera se demora no plano do corredor antes.

No decorrer da história, Val vai gradativamente sendo “subvertida” por Jéssica, apesar de toda a resistência que anos sofrendo preconceito e se enxergando como merecedora de sua condição lhe embutiram. O cúmulo dessa subversão é uma das cenas mais fortes do filme, em que Val finalmente entra na piscina.

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Este é também um filme sobre pais que não criaram seus filhos. A pergunta-título (que cai perfeitamente) é feita em dois momentos, por Fabinho e por Jéssica, e se refere à ausência da figura materna. Tanto Val quanto seus patrões abriram mão do convívio com os próprios filhos. Ela, porque migrou para São Paulo. Eles, porque estavam muito ocupados trabalhando (e o afastamento fica evidente na cena em que os três, sentados à mesa de jantar, ficam cada um teclando em seu smartphone sem sequer enxergar uns aos outros). Assim, Fabinho é muito mais próximo de Val do que da própria mãe, como explicitado por situações (Val esconde a maconha do menino) e diálogos (“A Val pode te abraçar e eu não?”, pergunta Bárbara) bem colocados.

Mas acima de tudo, este é um filme que olha com esperança para esse Brasil incipiente, para essa nova geração que está começando a não “saber qual é o seu lugar” e a exigir o espaço que lhe é devido, que historicamente lhe foi negado.