Amnésia (2000)

por Não são as imagens

UMA REFLEXÃO SOBRE O TEMPO PRESENTE NO FILME: AMNÉSIA (2000), DE CHRISTOPHER NOLAN.

Texto por Artur Guimarães. 

Esse texto tem como objetivo o delinear de uma análise processual que perpassa pelos elementos fílmicos que compõem o movimento da narrativa deste filme. O ponto de partida será compreender sociologicamente a questão do tempo presente para o protagonista. Visto que é nesta noção de tempo presente que habitam as ideias fundamentais de síntese e integração nas relações humanas, ideias estas responsáveis por guiar os processos de pensamento, linguagem e conhecimento.  

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Amnésia (2000) Christopher Nolan

A história deste filme consiste numa saga de vingança em que Leonard Shelby (Lenny), protagonista do filme, segue em busca do estuprador e assassino de sua esposa. Para além dessas dificuldades, Leonard, na cena do assassinato, sofre um acidente e perde sua capacidade de registro das memórias recentes [1], tendo acesso somente às suas memórias até a momento do acidente; ou seja, o tempo numa perspectiva de longa duração, após o acidente, não lhe é mais cognoscível, pois não há o registro de novas memórias.

A alternativa encontrada pelo protagonista é estar sempre munido de uma câmera Polaroide e caneta, anotando em suas fotografias as informações importantes sobre os fatos. Porém, é no próprio corpo que ele tatua as informações chaves a respeito de sua investigação, visto que sua mente não é mais capaz de organizar as experiências vivenciadas. A alternativa que resta ao personagem é efetuar o registro de suas memórias no corpo. A genialidade está na montagem do filme, que segue a mesma linha temporal do personagem, ou seja, as cenas são dispostas de maneira não linear – não cronológica – e trazem os eventos do filme em duas narrativas distintas: uma em preto em branco, de maneira cronológica e a outra, colorida, com os eventos invertidos, ambas se atravessam ao longo das cenas do filme.  

Leonard, desarmado de seu registro de memória, vê-se completamente refém de seu presente. Para ele não há o nexo entre o passado, já esquecido, e os fatos presentes, afetando completamente sua maneira de estar no mundo. Esse seu aprisionamento no presente, atinge sua percepção de longa duração do tempo e, consequentemente, sua capacidade de criar novas memórias. Essa problemática específica também se insere no âmbito dos processos de síntese simbólica e integração/desintegração, dispondo o personagem a um perfil psíquico que traz uma nova balança de poder, de saber e conduta, frente à expressão de pensamento, linguagem e de conhecimento (ELIAS, 1994a).

Corpo e memória

O corpo tatuado de Leonard é uma ferramenta que deve dar conta da sua alteração de consciência depois do acidente. Aqui, o corpo é percebido como a conexão estruturada e estruturante do entrecruzamento das novas necessidades biopsíquicas que se impõem ao protagonista, junto às tramas histórico-sociais, e em forte relação de interdependência. (ELIAS, 1994a)

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O corpo, como a manifestação de uma subjetividade consciente, utiliza as tatuagens como uma linguagem capaz de reter memória; considera-se assim, diante da ideia de figuração [2], o corpo como elemento funcional capaz de fazer o conhecimento resistir às rupturas de tempo e memória do protagonista. Essa expressão de seu corpo é, na verdade, a maneira como Leonard dispõe de um instrumento conceitual mais adequado para a sua nova noção de realidade (ELIAS, 2006) e que o faz, de certa maneira, sentir-se ainda como parte de uma balança nós-eu [3] e não tornar-se um indivíduo isolado em grande nível da sociedade. A partir do trecho retirado de um  diálogo da cena em que Lenny está em uma ligação, tal afirmação pode ser compreendida: “Agora sei que, se você acha que deve reconhecer alguém, finge. Você blefa para animar os médicos. Pra parecer menos desajustado.”. Há uma performance em sua comunicação corporal que é indissociável de sua interioridade e o mundo externo.

O tempo é capaz de pontuar as alterações dos esquemas simbólicos a longo prazo, sendo assim, Leonard não possui mais a consciência dos fatos nesta dinâmica processual-causal. O seu recurso de sobrevivência, para alcançar sua meta, é o de transformar seu corpo numa síntese simbólica das experiências vividas e tê-lo como mediador dos tempos que não lhe são mais cognoscíveis. Essas condições exigem do indivíduo um alto gabarito de autocontrole de suas expressões internas (ELIAS, 1994a), visto que sua nova estrutura psíquica se diferencia das estruturas sociais que lhe são impostas. Essa nova psique do protagonista é a síntese avançada das interdependências de tramas biopsíquicas e sócio-históricas. São visíveis, ao longo do percurso do personagem, seus cuidados em articular a diversidade dessas tramas sem que para isso haja uma distanciação de sua identidade ao galgar e manter o sentido ao alcance de sua meta.

Pensamento, linguagem e conhecimento

Refém do tempo presente, Lenny é incapaz de reter suas experiências para acessá-las depois, ou seja, sua conduta do presente não se recria frente ao passado. Seu saber fica completamente limitado e sua linguagem perde o caráter de modelar a continuidade. Cada uma das cenas coloridas do filme refletem a memória fragmentada do personagem e sua incapacidade de moldar e imputar sentidos a elas. Essa versão montada do filme, de cenas preto-e-branco atravessadas com as cenas coloridas, confrontam o/a espectador/a e o/a faz experimentar a limitação semântica, posta numa incapacidade de modulação longo-temporal, como acontece com Leonard em sua trajetória de rupturas durante o filme.

O tempo, junto às construções teóricas de Norbert Elias, é o fator norteador das experiências vividas de longa duração, sendo assim, ele também é responsável pelos procedimentos de síntese, integração e/ou desintegração do pensamento, da linguagem e do conhecimento, de modo interdependente. Assim, entender a ideia de consciência, neste âmbito processual  do tempo, é recorrer às ideias fenomenológicas de consciência enquanto corpo. Quanto a isso, o corpo/consciência de Leonard é a linguagem expressa da estrutura de um pensamento de curto prazo, do tempo presente ao qual o personagem está preso. A limitação da consciência dos fatos, tendo em vista a memória curta do protagonista, prejudica diretamente sua produção simbólica e de conhecimento; a problemática simbólica está representada nas cenas coloridas não-lineares – que provocam certo incômodo – e que são capazes de desorientar as causas que imputam sentido lógico às experiências.

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Haja vista que o próprio conceito de tempo é expresso como uma síntese de mudanças continuadas, (ELIAS, 1998) e que na trajetória de Leonard é reduzida a uma limitação temporal, verificam-se baixos níveis de integração/desintegração e baixos índices de síntese no tramado simbólico. A relação de interdependência entre conhecimento, linguagem e pensamento, caracteriza-se no filme de maneira desequilibrada e a teoria simbólica proposta por Elias, é posta em voga para corrigir esse desequilíbrio (ELIAS, 1994a) porém, ela não pode ser considerada, pois, as dificuldades enfrentadas por Lenny quanto a esse desequilíbrio são verificadas no monólogo final do filme, que se caracteriza pelo baixo nível de síntese avançada de símbolos na psicogênse[4] do protagonista:

Posso acreditar num mundo fora da minha mente. E que minhas ações ainda têm um significado. Mesmo que eu não me lembre delas. Eu posso acreditar que, ao fechar os olhos, o mundo continua aqui. Acredito que o mundo continua aqui? Continua a existir? Sim. Todos precisam de espelhos para se lembrarem de quem são. Não sou diferente. (Amnésia, 2000. Christopher Nolan)

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Esse monólogo é uma tentativa do personagem de se situar frente a uma continuidade à qual ele não pode mais apreender e, mais ainda, é a tentativa de se acomodar melhor frente ao seu desequilíbrio de poder na balança eu-nós, ao seu processo de diferenciação social/construção de sua autoimagem e ao delineamento de sua nova economia psíquica, porque, afinal:Todos precisam de espelhos para se lembrarem de quem são. Não sou diferente.”

Esta obra tem seu roteiro construído de forma a metaforizar os argumentos referentes à doença que ele aborda. Neste filme, o roteiro é apresentado por duas sequências diferentes: uma preto-e-branco, que traz as cenas de forma cronológica e, outra, colorida que traz as cenas de forma não-linear. Esse recurso aproxima fortemente o espectador aos problemas de uma mente que sofre de amnésia. Um recurso que, além de trazer as dificuldades dos índicies de síntese do personagem, desloca-os momentaneamente às/aos espectadoras/es. A câmera parece desenhar a atmosfera subjetiva do protagonista com atmosferas de rupturas, de deslocamentos bruscos e de movimentos rudes que, com um ritmo psicológico, se impõem a cada movimento de câmera.  Há vários recursos de direção de arte que servem como síntese simbólica do filme, como por exemplo: a câmera polaroide, caneta e as tatuagens pelo corpo ao da narrativa de Leonard em Amnésia.

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Por fim, há duas montagens distintas do filme Amnésia: na primeira delas as cenas preto-e-branco se entrecruzam com as cenas em cores, e na outra, há a exibição de, em primeiro momento, uma linha cronológica das cenas em preto-e-branco para que depois, as cenas coloridas possam seguir em tempos invertidos. Segundo os produtores do filme, essa última montagem possibilita a compreensão do filme a partir de um ponto de vista de quem não sofre de amnésia. Nas duas montagens, a transição da versão de preto e branco para a versão em cores se dá através da revelação de uma fotografia da câmera polaroide.  Essa fotografia é expressa como o nexo temporal entre as distintas sínteses de sentido do filme. Analogamente e a título de reflexão, é interessante pensar sobre quais seriam os nexos na história da humanidade que cumpririam função semelhante à da fotografia, considerando que a história da humanidade não dispõe de ferramentas suficientes para abarcar tais trânsitos simbólicos, assim como acontece na trama fílmica.  

Sobre o autor

Nosso convidado Artur Guimarães tem 23 anos e é estudante do curso de Sociologia da Universidade de Brasília. Também faz parte da equipe da revista Graduados, da UnB – Núcleo de Ciências Sociais. Já publicou sobre A Montanha Sagrada (1973) para o Não São as Imagens em 2015.

Notas

[1] Amnésia anterógrada: É a perda de memória para eventos que ocorrem posteriormente ao acometimento da doença, ou seja, é a deficiência em formar novas memórias, como ocorre na doença de Alzheimer.

[2] A ideia de figuração é o movimento de compreensão das dinâmicas das inclinações individuais que levam as pessoas a se unirem em formarem uma sociedade, ou seja, é basicamente uma relação funcional de interdependência mútua entre os indivíduos que os permitem viver em sociedade.

[3] A balança eu-nós diz sobre a compreensão do padrão da relação da identidade eu e a identidade nós que, em determinadas épocas, tem pesos distintos em relação aos processos individualizantes da identidade humana.

[4] A Psicogênese são transformações expressas nas estruturas de personalidade do indivíduo e que se expressam na estrutural social. Ambos os processos se atravessam e vão gerando uma teia de interdependências. Há também a noção de Sociogênese que são alterações expressas na estrutura social e que são responsáveis por gerar alterações nas estruturas de personalidade do indivíduo.

Referências bibliográficas

ELIAS, Norbert. Escritos e Ensaios: Estado, processo e opinião pública (“Conceitos sociológicos fundamentais”). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

ELIAS, Norbert. “A civilização dos pais”. IN: Dossiè: Reinventando Norbert Elias. Sociedade e Estado, vol.27 n.03, Brasília, set.-dez., 2012.

ELIAS, Norbert. Envolvimento e Alienação (“Introdução” e Parte III). Rio de Janeiro: Bertrand, 1998.

ELIAS, Norbert. Teoria Simbólica Oeiras: Celta, 1994a.

ELIAS, Norbert. A Sociedade dos Indivíduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994b.

ELIAS, Norbert. Sobre o Tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.

FARIAS, E. Horizontes de uma Sociologia das Expressões a partir de Norbert Elias. Comunicação à mesa redonda “Teorias, Símbolos e expressões em Sociologia do Conhecimento.” XIV Simpósio Internacional Processos Civilizadores: Civilidade, Fonteiras e Diversidade. CAPES, 2012.