O Último Cine Drive-in (2015)

por Victor Cruzeiro

Um homem está dormindo embaixo de uma árvore, roto e com a perna engessada, quando é despertado por uma receosa jovem. Ela diz que ele não pode dormir ali, tomando-o por um morador de rua. Ele retruca que não é, e pede para falar com o dono, se apresentando como Marlombrando. Ali, onde aqueles dois conversam, sob o sol forte do cerrado candango, está a raison d’être de uma das produções mais significativas do cinema brasiliense: o último cine drive-in.

O recém lançado O Último Cine Drive-In é um desses filmes surpreendentemente densos em sua simplicidade. Além de lançar mão de um dos cartões postais mais esquecidos de Brasília, sua narrativa clara e pura não se vale de nenhum clichê ou extremismo para conquistar o espectador. É uma história doce de encontros e despedidas, como definiu uma das muitas, muitas críticas positivas sobre o filme.

No início, conhecemos Marlombrando, um jovem operário que vive em Anápolis com sua mãe, Fátima. Quando esta fica doente, padecendo de um nefasto câncer cerebral, ele tem de levá-la a Brasília, onde seu único contato é o pai, Almeida, ausente por muitos anos e dono de um decadente Cine Drive-in. Lá, à parte do desconforto pela presença do pai, Marlombrando se aproxima dos dois únicos funcionários, a jovem Paula e o velho Zé, que se dispõem a ajudá-lo na quixotesca empreitada de trazer o cinema ao esplendor do passado para alegrar a mãe à beira da morte.

Esse é o mote principal. Vê-se aí, portanto, um filme que utiliza muito bem a estrutura da jornada do herói, visualizada pelo antropólogo Joseph Campbell nos grandes mitos da antiguidade, muito bem absorvida e aceita pelo cinema. Marlombrando é o herói que recebe um chamado, ao descobrir que a mãe está doente, e enfrenta provações, que vão desde a equipe do hospital até sua própria relação com o pai, para então ressurgir livre e renovado, assim como o próprio Cine Drive-in.

Um cartaz bastante épico.

Um cartaz bastante épico, não?

Aqui, então, o protagonismo se divide entre Marlombrando e o cinema, criando uma amálgama límpida, que mostra que o filme não é apenas uma história sobre o reencontro de pai e filho, é um filme sobre o Cinema.

É certo que o drama existe pela doença na cabeça da mãe, mas também é um filme sobre a doença na cabeça do cinema. Pois, afinal, o que aproxima mais Fátima do cinema, quanto o fato de ambos terem gerado um Marlombrando?

Mas este não é um filme sobre a nostalgia do cinema. Não se trata de uma elegia aos clássicos ou aos projetores antigos. O Último Cine Drive-in é, acima de tudo, um elogio ao fazer cinema. E, para tal, ele congrega uma série de referências que vão desde os ditos clássicos, como Cinema Paradiso e Um Bonde Chamado Desejo, passando pelos revolucionários Taxi Driver e O Poderoso Chefão, e fazendo referências inesperadas a Curtindo a Vida Adoidado, Operação Dragão e Pulp Fiction – na admirável sequência em que Almeida e seu amigo Amir abrem o porta-malas do carro e, ao invés de armas, retiram rolos de película.

Paula (Fernanda Rocha), com uma das muitas referências que aparecem ao longo do filme.

Paula (Fernanda Rocha), com uma das muitas referências que aparecem ao longo do filme.

Em apenas uma cena há uma reflexão, pontual, sobre os diferentes tipos de cinema. Almeida vê, com um par de desajeitados óculos 3D, um filme indistinto que não se vê, e do qual só se ouvem tiros e explosões. A esse filme, feito com olhos comerciais e mãos industriais, é que se tece essa única sutil alfinetada. O Último Cine Drive-in não é um filme de recalque, é um filme de revival, do fazer cinema, pelo cinema, e do próprio Cine Drive-in, por Marlombrando e os demais.

Trazer o Cine Drive-in de volta à vida, ao seu esplendor de antigamente, torna-se o objetivo principal de Marlombrando, do filme e dos espectadores, independente de qual será o filme veiculado ao final da empreitada – e cabe lembrar que no atual Cine Drive-in são exibidos os blockbusters do momento, o que não o torna um cinema menor.

Marlombrando (Breno Nina) e Almeida (Othon Bastos), nas arquibancadas do Cine Drive-in.

Marlombrando (Breno Nina) e Almeida (Othon Bastos), nas arquibancadas do Cine Drive-in.

É nesse processo de reconstrução do Cine Drive-in – também a reconstrução da relação entre Marlombrando e o pai – que Iberê Carvalho é tão feliz. Tudo no filme é feito em termos desse Cinema. Nada é pensado em termos de estética ou de narrativa apenas, mas em termos de colocar aquilo como uma peça a mais na construção de um filme sobre a construção de um cinema. A diegese – o externo, a tese – se funde com a poesia – o interno, a antítese – de uma forma tão orgânica que mal incomoda a cena em que o jovem e seu pai discutem sob o som de uma furadeira em primeiro plano que abafa completamente a conversa.

Iberê Carvalho pinta um quadro no qual cada pincelada é o trabalho árduo de uma equipe tão apaixonada pela ação do cinema quanto ele. Ele é o maestro de uma sinfonia de forças que só poderia soar com essa grandeza. E, por falar em maestro, uma nota à parte para a trilha original, que passeia fabulosa por variados temas do cinema tendo como leitmotiv o grande compositor Ennio Morricone.

Em tempo, O Último Cine Drive-in não é um filme de metalinguagem. Longe disso. O Último Cine Drive-in é um filme simples que consegue falar de paixão! É um filme que mostra como é possível pegar um cinema esquecido e reerguê-lo, pintá-lo e iluminá-lo, sem deixar, em momento algum, de amá-lo. Que lembra que é possível fazer-cinema-fazendo-cinema, e não somente dinheiro. Espero, no entanto, que faça muito dinheiro – pois ele é necessário para continuarmos vivos – e que também se torne um marco do cinema brasiliense e, oxalá, brasileiro. Em suma, esse filme ficará e, logo, todos vão falar do Último Cine Drive-in.