Mostra Competitiva do Festival de Cinema de Brasília – Dia 1

por Victor Cruzeiro

O Festival de Brasília dispensa apresentações. Um dos grandes eventos do cinema brasileiro, que voltou a iluminar os palcos do Cine Brasília desde o último dia 15, já ocupa a cidade com sua série de oficinas, debates e mostras.

A Mostra Competitiva do Festival, iniciada na noite da quarta-feira, 16, trouxe, nas suas três exibições, uma mescla sutil entre a doçura e dureza, com três espectros construídos a partir de olhares infantis.

Em Command Action, de João Paulo Miranda, um garoto passeia por uma feira, cercado pela vida, pelos sons e pelos tipos daquele lugar. São vendedores que pechincham com clientes enquanto falam das tragédias do dia-a-dia. Moradores de rua que recontam suas dores ao vento. Crianças soltas à mercê de um futuro incerto.

O garoto anda pela feira com o rosto grave, fechado, mas jamais indiferente a tudo o que acontece ao seu redor. Há um formidável trabalho de som, que capta com precisão cada uma das conversas que cercam o garoto, num mosaico que vai se construindo com os passos errantes do garoto pela feira.

Ele, que anda procurando trocados para somar ao monte de notas pequenas e moedas que carrega no bolso, encontra outros garotos, que divertem-se vendo um vídeo de dois cadáveres expostos em um necrotério. São esses mesmos garotos que o convidam para realizar um assalto em uma das barracas da feira, que ele recusa.

Sua recusa é coroada com sua ida à barraca em questão e a compra de um robô command action, com todo o dinheiro que tinha. O robô, que repete algo ininteligível entre mil efeitos de tiros e lasers, olha diretamente para o garoto, que encara seu brinquedo com o mesmo olhar grave. E ele sai, caminhando, agora imerso na profusão de sons bélicos do robô, rumo aos créditos.

Command Action acerta na construção conjunta de som e fotografia para consubstanciar o zeitgeist de um garoto que, preso naquele espaço aberto, corre o risco de não chegar à idade adulta, vítima do abandono, como provavelmente ocorrerá com o bebê de sua irmã; do azar, em uma das investidas que seus amigos conseguirem lhe convencer a ir; da polícia; do command action que o atinge duramente assim que ele liga o brinquedo.

O segundo curta da noite, vai para o outro lado do espectro social. À parte do inferno, de Raul Arthuso, foi muito bem batizado por um amigo de Poltergeist ao redor. Uma mãe vive em uma casa de subúrbio com seu filho. Uma vida apática, baseada na venda de semi-jóias pela internet, nos serviços da empregada e em um romance às escondidas.

Nada incomoda essa versão demo do paraíso, a não ser um mendigo que vive do outro lado da calçada. E uma infiltração que vem da casa do vizinho, em reforma. Os dois problemas – dentro e fora – combinam-se em uma curiosa homage ao clássico terror de 1982 dirigido por Tobe Hooper.

O trunfo está na substituição do sobrenatural pelo mais banal. O portal para o outro plano no armário de Carol Anne vira uma infiltração no armário do garoto. A estática da televisão é substituída por um plácido programa de vida marinha – pois que vida mais tranquila e feliz não é a de um peixe em um aquário? E, no lugar do cemitério com espíritos irados, tem-se moradores de rua – vivos, mas também irados.

O garoto, assim como Carol Anne, funciona como uma ponte entre os “seres do mal” e a vida feliz da casa, abrindo o portão para que eles entrem e tomem conta. Mas, em À parte do inferno, não há redenção, não há médium salvador, não há mudança para outra casa, pois o sobrenatural e o mágico foram substituídos pelo cotidiano e pelo real.

O curta se encerra ao avesso da sua inspiração, com um vagaroso close em uma televisão sem sinal, e o garoto com a mão na tela – à maneira de Carol Anne que anuncia “Eles estão aqui” – dizendo que, ainda que aquela família já tenha sido consumida pelos espíritos vingativos dos enterrados socialmente, a invasão ainda não acabou.

O longa da noite, A Família Dionti, de Alan Minas, traz uma versão fantástica e regional do universal tema da descoberta do amor. Com diálogos bastante literários e interpretações teatrais, o filme é o que temos de mais próximo da possibilidade de Guimarães Rosa dirigir uma novela.

O jovem Kelton Dionti sofre do mesmo mal da mãe: ele tem o “coração encharcado”, e por isso é capaz de derreter de amor… fim que levou a pobre genitora, nunca mais vista. O roteiro ganha ao tornar isso uma condição tão natural como qualquer outra, sem justificar magicamente ou mantê-la na fantasia. Derreter é algo que pode acontecer com qualquer um, assim como secar, mazela que acomete Serino, irmão de Kelton, que chora terra de saudades da mãe.

O amor de Kelton é pela jovem Sofia, filha de um mágico de um circo que aporta por alguns dias na cidade. A iminência da sua partida dá à história maior possibilidade de desenrolar a condição do garoto sem precisar ater-se ao momento em que ela surpreenderá todos com a notícia de sua ida. A vida circense da garota também possibilita ao roteiro explorar o fantástico, adicionando ainda mais a um filme cuja ótica já é a de uma criança.

Sobre cores, a direção de arte de A Família Dionti é bastante feliz, pintando o cotidiano com as cores daquele imaginário. A paleta é muito bem construída, em roupas, cenário e objetos, variando nos tons dos matizes de terra e água.

É um longa delicado, pois conta uma história delicada e de uma forma ainda mais frágil. E, mesmo que ele se aproxime do melodrama – tanto com as atuações teatralizadas quanto com seu final feliz – ele sobressai por ignorar as consequências morais do seu final. O pai é autuado pelo Conselho Tutelar, e não há uma resolução feliz para isso. Kelton evapora de sua família e chove para Sofia, assim como a mãe dele fez, evaporando do pai, mas nunca voltando como chuva.

É um filme sobre a descoberta do amor, sobre o sutil amadurecer do amor, mas também é um filme sobre ir embora e deixar ir, sobre partir e sobre não voltar. Pois, à parte dos finais felizes em que todos ficam juntos, a vida pode nos levar para caminhos bem diferentes dos planejados.