Mostra Competitiva do Festival de Cinema de Brasília – Dia 2

por Gustavo Menezes

Tarântula

Nesse eficiente curta de suspense, uma mãe e suas duas filhas moram num casarão com tons de mal-assombrado. A filha mais nova surge na tela subindo a escada de costas e depois descobrimos que é porque lhe falta a perna direita. O namorado de sua mãe – invasor do lar -, por sua vez, não tem uma mão. A menina rejeita o uso de uma prótese, o namorado não. A essa incompletude física dos dois soma-se a lacuna da figura paterna, e o preenchimento de “vazios” nas pessoas com a religião (a mãe doutrina as filhas no catolicismo).

A situação física da menina também encontra repercussão nos planos que focam os corpos incompletos de suas bonecas.

O estilo dos planos (abertos, estáticos e longos) concebido pelos diretores Aly Muritiba e Marja Calafange é interessante, pois deixa com o espectador a decisão de onde se concentrar no quadro – todos compostos com rigor.

Há alguns lugares-comuns do gênero: a criança de ares inocentes mas assustadora, o ente sobrenatural (aqui na figura descaracterizada do Curupira), os tons sombrios na fotografia, o final.

Só o que incomoda é que, de certa forma, Tarântula não parece um filme feito no Brasil. Um pouco pelo estilo arquitetônico da casa, um pouco pela atriz-mirim ruiva, um pouco por sua desconsideração pela mitologia do folclore nacional.

Rapsódia Para o Homem Negro

O irmão de Odé (Sérgio Pererê) foi assassinado. Partindo dessa premissa, o diretor Gabriel Martins constrói uma espécie de mosaico da situação do negro no Brasil, centrando-se na mitologia do candomblé. Transcorre em três níveis de representação: o filme abre com um sonho em que Odé, com algemas de escravo, se encontra na mira de um policial; o assassinato é representado como uma peça de teatro (de onde bebe a cantoria que introduz a questão mitológica no início) e o final, num plano alegórico, opera uma atualização do mito de Oxóssi para o Brasil moderno. Também é interessante notar como a representação dos personagens brancos surge estereotipada, caricata, o que ainda hoje é costume fazer com personagens negros no cinema mainstream.

Fome

O longa de Cristiano Burlan se centra na figura atípica de um morador de rua interpretado por Jean-Claude Bernardet, e acompanha seus dias vagando pela grande São Paulo. Na tradição do que o próprio protagonista definiu como “filmes de deambulação”, há longos planos-sequência que seguem o mendigo central para mostrar sua relação com a metrópole – e é nesse âmbito que a obra tem sua maior força. A fotografia em preto-e-branco trabalha com extremos, de modo que, nas cenas diurnas, a luz do sol surge forte e imponente castigando o protagonista e, nas noturnas, a escuridão o circunda constantemente, cortada ocasionalmente pela iluminação pública. Por vezes, o desenho de som surge opressor, com ruídos de motor e buzinas sobrepondo-se aos diálogos ou compondo um ambiente ensurdecedor.

Também espanta a veracidade cruel de diálogos que soam estranhíssimos a quem nunca teve contato próximo com a miséria. Quando encontra um companheiro mendigo, Bernardet lhe faz duas perguntas-chave em tom absolutamente cotidiano: “você comeu hoje?” e “você tem onde dormir?”

O maior problema, no entanto, está na postura contraditória que a obra toma. Por um lado, retrata moradores de rua em situações que lhes são comuns, e até traz curtos depoimentos de mendigos reais. Por outro, sua figura central é um pedinte totalmente atípico, já pela escolha do intérprete. Além de francófono, descobre-se que é também ex-professor universitário, autor de teses e livros sobre o cinema brasileiro, e que está na rua por opção. Uma plateia conhecedora de cinema brasileiro certamente simpatiza com Bernardet logo de cara, e identifica os paralelos explícitos entre personagem e ator.

Tudo isso se agrava numa cena mais ao final em que uma universitária (Ana Carolina Marinho) que entrevista Bernardet no início faz um discurso em sala de aula reconhecendo que apenas se aproveitou dele para se promover e depois se sentir bem consigo mesma, sem verdadeiramente se preocupar com ele. O que poderia ser encarado como um mea culpa do filme frustra justamente porque este não faz nada a respeito. Não muda seu discurso, não dedica o restante de seu tempo de duração a tratar de mendigos reais, mas sim continua seguindo Bernardet e a universitária.

Mas longe de tomar o lado das classes abastadas que “se preocupam” com os mais pobres, o longa também as ataca. Em uma cena que soa falsa e desnecessária, um casal oferece comida a Bernardet, que, por orgulho, recusa. O casal insiste e ele, violentamente, os acusa de falsa bondade, de auto-indulgência, e atira o prato no chão. Então, o casal deixa cair as máscaras: revolta-se, xinga-o de “lixo”, “merda”, etc.

No entanto, a postura do próprio filme é também uma de desrespeito com relação ao tema e às pessoas que o inspiraram. Assim, seu discurso soa vazio e hipócrita.