Mostra Brasília e Mostra Competitiva do Festival de Cinema de Brasília – 3° dia

por Thiago Campelo

Em seu terceiro dia de programação, sexta-feira, 18, o FBCB, desde as 9h30, contou com a exibição de curtas-metragens, debates dos filmes exibidos no dia anterior, o máster class de roteiro com Marcos Bernstein e, claro, com as principais mostras do Festival, a Mostra Brasília – Troféu Câmara Legislativa do DF e a Mostra Competitiva. Os filmes exibidos dentro de cada categoria de produções restritas ao Distrito Federal foram A culpa é da foto (André Dusek, Eraldo Peres e Joedson Alves, 15 min), O sal dos olhos (Letícia Bispo, 18 min), Escuro do Medo (João Gabriel Caffarelli, 17 min 40 s) e Félix, o herói da Barra (Edson Fogaça, 72 min). Na Competitiva os filmes foram Cidade Nova (Diego Hoefel, 14 min, DF/CE), Copyleft (Rodrigo Carneiro, 29 min 30 s, MG) e Para minha amada morta (Aly Muritiba, 113 min, PR).

A Mostra Brasília, na última sexta, demonstrou um pouco da agradável pluralidade do cinema produzido na capital federal, além de dar espaço para gente jovem, recém saída dos cursos de cinema e audiovisual da cidade. A seleção feita que contou com dois documentários (A culpa é da foto e Félix, o herói da Barra) foi intercalada pelos dois curtas ficcionais provenientes de trabalhos de conclusão dos cursos ( O sal do olhos e Escuro do Medo).

Já a Mostra Competitiva garantiu a boa surpresa do primeiro longa-metragem do baiano Aly Muritiba que dias antes também exibiu seu curta-metragem Tarântula Marja Calafange.

A culpa é da foto

O primeiro a ser exibido, A culpa é da foto, conta um pouco sobre a história de uma importante fotografia que registrou a ousadia dos fotógrafos em protestar, em meio o período da ditadura militar, contra a decisão do ex-presidente Figueiredo de não permitir a cobertura fotográfica das atividades do gabinete. O filme que consiste numa série de entrevistas justapostas no intuito tanto de contar a história por trás da foto quanto de revelar as nuances do período e dar maior relevância aos participantes daquele evento, foi pensado de maneira simples, um formato de documentário já consolidado. No entanto, não há perda de qualidade. A culpa é da foto se mantém simples e seguro quanto a sua estrutura e ganha densidade ao dar espaço de voz para as pessoas que consumaram um ato de resistência contra o regime da época. O filme realizado pelos três fotógrafos é capaz, em curtos 15 minutos, de envolver muito bem quem o assiste através dos relatos. Outro ponto forte do filme é a trilha composta por Eduardo Dusek que toma conta dos créditos finais; uma última sátira da figura do ex-presidente turrão.

O sal dos olhos

Em seguida, O sal dos olhos traz à tona Rafaela (Juliana Plasmo), uma jovem negra que saiu da periferia para a universidade e vive o embate entre duas realidades opostas que confluem nela mesma: o convívio com uma classe média que frequenta o ambiente universitário e a sua origem humilde, expressa na figura da mãe. O sal dos olhos debruça-se sobre um tema muito caro atualmente. Tanto a questão da ascensão socioeconômica das classes C e D no Brasil, quanto as noções de identidade fluida, de deslocamento e não pertencimento. O filme de fato usa essa maleabilidade identitária como leitmotiv para a movimentação da história e progressão da personagem. No entanto, não aponta para um não fechamento desse conflito, o que, de certa forma, poderia ser esperado na maioria dos filmes contemporâneos que tratam do tema; um possível ciclo de renovação que nunca chega ao fim. Nesse curta a percepção é talvez de um processo que termina gerando outro. Em 18 minutos de filme, Letícia Bispo consegue definir bem um problema e, de certa maneira, “solucioná-lo”.

Escuro do Medo

Ainda tratando das ficções de jovens diretores, Escuro do medo trás um diálogo direto com o cinema de gênero. Numa mistura de suspense e comédia vê-se a história de um homem que, por causa do medo de escuro da esposa, acaba por descobrir um grande perigo dentro de sua própria casa. O filme todo se dá de modo a emular um único plano sequência de pouco mais de 17 minutos, sendo uma clara referência ao Festim diabólico (Alfred Hitchcock, 1948). Escuro do medo trabalha bem os elementos característicos do suspense, sobretudo a inserção da trilha sonora e a criação de certas expectativas que fazem a trama funcionar. Entretanto, no que tange as nuances de humor que fazem parte do filme, que de fato não são tantas, há certo exagero, sobretudo na figura do personagem principal. João Gabriel Caffarelli mostrou de fato um filme bem articulado sobre os aspectos do gênero onde a complexidade da fotografia de Lelo Santos se destaca juntamente com o bom trabalho de mixagem de Bruno Sant’Ana.

Félix, o herói da Barra

Felix, o herói da Barra, documentário de pouco mais de uma hora de duração finalizou a programação de sexta-feira da Mostra Brasília de maneira minimamente interessante, mas não teve o mesmo carisma que os três curtas anteriores. O filme trata da comunidade de Barra de Aroeira, no Tocantins. Félix José Rodrigues é, para essa comunidade quilombola, um herói presente até hoje em sua memória por ter sido um ex-escravo que lutou na guerra do Paraguai e, por recompensa, teria recebido terras na região norte do antigo Goiás das mãos do próprio imperador, D. Pedro II. Félix, o herói da Barra se detém sobre a comunidade de Barra de Aroeira e a analisa minuciosamente. Trata da história da sua origem, de seus mitos, de sua identidade e dos problemas pelos quais passou e ainda passa. Para além de se ater aos fatos de que Félix foi um vencedor e um herói de guerra, o destaque se dá sobre a construção da memória coletiva da comunidade da Barra. O filme acerta muito e cresce ao fazer esse movimento de entrada no tema da identidade e na busca de outros mitos constituintes daquele grupo. Porém, falha quanto ao uso do discurso de autoridade de alguns especialistas para tornar o filme de “mais fácil digestão”. A repetição das informações e a busca de legitimidade através da voz de alguém gabaritado, juntamente com as duas únicas posições de câmera usadas nas entrevistas, torna o documentário enfadonho.

Cidade Nova

Cidade Nova, curta de Pedro Hoefel, abriu a Mostra Competitiva do dia falando mais uma vez de um processo de construção identitária. João (João Campos) sai de Brasília rumo a cidade cearense em que nasceu, Jaguaribara. Acontece que a cidade está submersa pela construção do açude do Castanhão já há algum tempo e a cidade nova foi construída ao lado da antiga. Dessa forma, nesse regresso às origens, o personagem não se sente pertencente a esse lugar novo. Porém, o que acontece na tela deixa a desejar. Nos 14 minutos utilizados por Hoefel, não se vê muito além de ruínas e postes de energia parcialmente submersos e uma tentativa de estupro num bar da cidade. O drama silencioso que João deveria percorrer não sai do que parece ser um prólogo de uma história maior.

Copyleft

Copyleft, do mineiro Rodrigo Carneiro, por sua vez, assume o caráter de filme-manifesto um tanto formal demais. Pedro (André Nakau) é um rapaz imerso num conflito com sua própria sexualidade, numa busca interminável por uma identidade heteronormativa. De fato, Pedro é um personagem bem desenvolvido e o seu drama é tão incisiva quanto a sua atuação. Entretanto, as partes do filme em que de fato ele não está presente, os discursos proferidos demasiadamente por entidades que não parecem fazer muito sentido, não fazem o filme ganhar em dramaticidade. Pelo contrário, o filme perde muito em desenvolvimento narrativo e tenta forçar um lirismo político não muito bem acabado. O corretíssimo discurso de Rodrigo Carneiro que foi aplaudido de pé por quase toda a sala antes da exibição do filme foi mais bem sucedido que a realização do projeto.

Para minha amada morta

O longa-metragem de Aly Muritiba aborda a história de Fernando (Fernando Alves Pinto), um fotógrafo que trabalha para a polícia científica que vive o período de luto pela falecida esposa enquanto cuida do filho. Revisitando todos os objetos deixados pela mulher, numa clássica construção desse período de acomodação das coisas após a morte de alguém, Fernando remói sua dor e a saudade dia após dia. Tudo dentro da casa lembra a mulher e ele faz questão de passar por cada pedaço de memória tendo o filho com ele. Acontece que, se tratando de um suspense, só isso está bem longe de possibilitar uma trama digna para o gênero. Revisitando as inúmeras fitas de VHS da casa, Fernando estabelece um vínculo ainda mais forte com a imagem da imaculada esposa até encontrar, em uma fita, gravações das traições cometidas por ela. Usando seus conhecimentos de policial ele resolve investigar a situação e de alguma forma tirar a história a limpo.

O filme de Muritiba é de fato um thriller bem feito e em partes, bem diferente do costumeiro principalmente pela forma como o tempo é administrado e pela boa atuação de Fernando Alves Pinto. Muritiba constrói um suspense onde o decorrer do tempo é importantíssimo para a tensão do filme sobretudo na relação meio espinhosa entre o perseguidor (Fernando) e o perseguido (Salvador, interpretado por Lourinelson Vladimir). Tal característica combinada à atuação milimétrica e comedida de Alves Pinto, de voz branda, movimentos macios e expressões graves são primordiais para construção da expectativa do acerto de contas. Por vezes o filme parece se arrastar para além do necessário, mas é intrínseco ao filme cozinhar os desejos do espectador assim como Fernando brinca com a consciência de Salvador e da família.

Além disso, é interessante como a figura de intruso dentro do núcleo familiar é construída. Um completo estranho, por motivos de religião, é prontamente aceito dentro da casa da família de Salvador e mesmo assim não é visto como ameaça. Muito além da condição religiosa, é a apatia de Fernando que transparece tanta confiabilidade.

Entretanto, algumas coisas ficam meio vagas em Para minha amada morta. Algumas escolhas no roteiro de fato parecem meio fáceis e tornam a saga do personagem mais linear. Casos esses como o abandono da profissão (ao menos não se sabe se ele segue no emprego) e a conveniente retirada do filho de Fernando de cena, que vai passar uns dias com a tia. Apesar disso, o filme não falha em cumprir as expectativas de gerar tensão no público.

Formalmente, o filme é realizado com primor. A parte de maturação do luto da personagem, por exemplo, é constituída basicamente de uma contemplação dos ambientes, uma busca da câmera pelas minucias deixadas pela defunta. Mais pra frente, principalmente no período em que Fernando começa a perseguir Salvador, é a câmera colada ao protagonista que estabelece cada vez mais uma ideia de jogo entre os dois personagens.

Para um primeiro longa-metragem ficcional, Aly Muritiba apresentou uma obra de boa qualidade e que foi devidamente ovacionada ao final da sessão. Muritiba gera expectativas para os seus próximos trabalhos.