Mostra Brasília e Mostra Competitiva do Festival de Cinema de Brasília – 4º dia

por Elias Fontele Dourado

Ninguém nasce no paraíso

‘Ninguém nasce no paraíso’  foi o primeiro curta do quarto dia de Mostra Brasília. O filme possui uma premissa rica e interessante que poderia ser melhor aproveitada. Em Fernando de Noronha, as tartarugas marinhas estão quase extintas e ganham o apoio de várias políticas de preservação. O curta-documentário tem a finalidade de denunciar a extinção do genuíno povo da ilha de Fernando de Noronha com a proibição que foi realizada no local, onde as gestantes são expulsas de suas casas para irem até Recife ou Natal. Enquanto as pessoas muito se preocupam com o bem de uma raça de répteis, poucas ligam para o estado do ser humano na ilha. Premissa interessante, mas que não se sustenta devidamente em seus vinte e cinco minutos. As entrevistas não causam muito impacto, são contadas de maneira pouco emotiva ou dramática. Apesar de ser um assunto triste e sério, o curta não consegue te cativar com profundidade, faltou mais emoção e maior cuidado na direção.

 

Asfalto

Esse é o tipo de curta que você se pergunta: “O que diabos isso está fazendo aqui?”. Asfalto é um filme tão pequeno quanto a sua duração de quatro minutos. Realmente não dá para entender como selecionam um curta tão bobo para um dito festival de cinema sério. O filme inteiro são imagens de vários segmentos de asfalto e possui um narrador em voz over que fala sobre os males do trânsito e do poderio assustador que um carro tem.  “Parece até um comercial de carro”, fala o narrador em tom irônico sobre o filme. Certamente que não é, mas o diretor, em sua clara imaturidade, praticamente faz um comercial do Detran, uma mera publicidade. O conteúdo é mais do mesmo e talvez seja interessante como uma propaganda de trânsito, mas em um festival de cinema, definitivamente, não passa de porcaria publicitária.

 

O outro lado do Paraíso

É um filme muito bem realizado em seus aspectos técnicos – montagem, direção de arte, som, fotografia, os atores são competentes e conseguem levar o filme nas costas, transformando ‘O outro lado do Paraíso’ em um filme divertido e agradável de ser assistido. Em aspectos dramáticos, contudo, carrega problemas que impedem ele de ser um grande filme. No começo ele é muito bom e consegue se sustentar, somos introduzidos em uma história familiar com um certo clima de fantasia e busca por um mundo maravilhoso, utópico, no caso, Evilath. Quando a família resolve ir para Brasília, o suposto paraíso almejado pelo inocente pai, é onde começam os problemas. Enquanto no início do filme a direção se preocupa em fazer cenas fantásticas, como a do pai montado em seu cavalo em encontro com a serpente, do meio ao fim, ela negligencia muitas partes importantes, que mereciam maior amplitude e profundidade.

A história de amor do filho é a parte que mais dá certo, é bem contada e colocada nas situações do roteiro. O seu amor pela política, contudo, é um tanto boba e apressada. O jovem rapaz da família é o futuro escritor que contará a história de seus familiares. O filme não faz com muito sucesso a exibição de como ele virou um apaixonado pela literatura e pela política, é algo que fica por conta de nossa dedução e que se arrasta através dela. Os trabalhadores engajados também parecem ficar sempre em uma zona de conforto, não há grandes riscos, o filme é morno na apresentação do grande conflito e também em sua resolução.

O pai é preso, daí segue-se um pequeno sumiço de sua imagem até que ele se reencontre com a família e só aparece novamente no final, surgindo do meio do nada. Os problemas da ditadura não ficaram muito convincentes, faltou maior tensão, mais riscos, maiores conflitos morais, o problema todo é simplificado ao relacionamento bobo de alguns trabalhadores com a busca por melhores condições de trabalho e pela utopia esquerdista.

É um filme que parece querer preservar sua inocência, não conseguimos ver bem o amadurecimento do jovem escritor justamente pela falta de um conflito mais temeroso, o que poderia ser facilmente construído, pois a ditadura teve de sobra tais situações. Parece que o filme também não tem nenhum outro problema sério além da ditadura. Taguatinga é retratada como um lugar humilde, mas todas as pessoas parecem ser boazinhas e trabalham em prol de todos. Ficou um tanto inocente, seria mais interessante haver mais movimento em Taguatinga, algum conflito menor que pudesse se relacionar de modo epifânico ao conflito maior.

Às vezes o filme quer ser muito romântico com a relação dos trabalhadores com a esquerda, parece ter um tom saudosista, de nostalgia com o movimento, mas faltou maior penetração nessa característica, faltou vigor e talvez contradições internas. Apesar desses sérios problemas, é um filme regular e legal de assistir, não vira um peso morto com o passar dos minutos, mas poderia ser um grande filme.

 

Quintal

Quintal é uma comédia de ótimo gosto, com humor original e nada forçoso. Curto e simples, este filme conta a vida de dois idosos em suas vidas cotidianas. O curioso deste curta é que ele mistura situações fantásticas com a realidade comum. Às vezes usa do nonsense, como na cena em que uma grande ventania surge para secar as roupas da senhora e desaparece logo em seguida, como se fosse programado. A trama principal começa quando o senhor está mexendo em algumas coisas de seus filhos e encontra um dvd com um filme pornográfico.

Enquanto isso, um insólito portal aparece em seu quintal, sem explicação. Ele entra nesse portal e simplesmente some.  Durante o sumiço do homem, a mulher continua o seu dia-a-dia, fazendo exercícios físicos e cuidando de casa. O filme é uma mistura de nonsense com humor burlesco, uma peça rara de nosso cinema. Quando o homem chega do portal, ele simplesmente entra em casa e assiste televisão, sem nada dizer.

No final, enfim, vemos que ele construiu uma tese de mestrado sobre ‘Bundas e Óleos’, afirmando ter achado o seu objeto de estudo nas tralhas de seus filhos. Os planos são simples, quase todos fixos e tem sua maior riqueza no roteiro, que não tenta explicar momentos que servem apenas como humor inexplicável. Muito engraçado e ótimo curta.

 

Afonso é uma Brazza

Em tempos de Festival de Brasília, nada melhor que rememorar Afonso Brazza, diretor genuinamente brasiliense, a maior figura trash de nossa capital. O filme tinha a pretensão de ser um making off de seu penúltimo filme: Tortura Selvagem – A grade, mas captura ótimos depoimentos de Brazza sobre o modo que fazia cinema e um pouco de sua história, de ter ido para a boca do lixo ainda jovem e ter se casado com a atriz que tanto admirava.

Somos introduzidos ao cinema de ação de Afonso e seu gosto peculiar pela violência. Em uma das entrevistas, ele mostra a sua vídeo locadora, local de sustento, segundo ele, e sua paixão por filmes de Stallone etc. Observamos de cara que foi um diretor muito honesto e trabalhador, que admitia veementemente seu amor por filmes de ação e não tinha vergonha em dizê-lo, uma vez que muitos acreditam que assumir tal gosto é algo menor e o que realmente importa são os ditos filmes ‘cult’.

Certamente que Brazza já é um cult do trash e, apesar de ter problemas gritantes em seus filmes, consegue ser engraçado e divertido. O curta faz muito bem em restaurar a memória desse diretor tão importante para Brasília e não muito lembrado. Quem foi ao festival com certeza riu e ficou curioso sobre o trabalho desse Rambo de nosso cerrado.

 

Big Jato

Apesar de parecer um filme simples sobre o rito de passagem de um jovem poeta e seus conflitos com a família, Big Jato é bem sofisticado nas circunstâncias que erige para avultar a trama e enriquecer o longa com uma série de contradições sutis. Devemos isso, claro, ao livro de Xico Sá e também à direção original de Assis. Somos introduzidos ao último filme de Cláudio com um lugar de nome engraçado: Peixe de Pedra. Como pode um peixe, em sua vasta liberdade, ter como categoria a imobilidade das pedras?

O jovem poeta vive coagido em dois polos opostos – o do trabalho laborioso, o de seu pai, que o pressiona para ser um homem que faz árduos trabalhos braçais, que tenta o convencer de que a poesia não serve para nada e que deve ser como seu irmão, atento aos números, admirador da matemática, pois é isso que dá dinheiro. O outro polo é ter uma liberdade maior, ser um bom poeta, ouvir boas músicas. O que temos aqui, praticamente, é uma luta entre classes, onde o pai é o mais humilde e o tio o mais emburguesado, apesar de que não é tão rico assim.

Para viver aos modos do tio, contudo, é evidente que ele precisa sair da cidade, pois um peixe imóvel, de pedra, nunca poderá se locomover. O pai é um limpador de fossas, o tio um radialista. A mãe do jovem vende perfumes, o que parece ser uma ironia, pois o pai mexe com os excrementos de todo ser humano, sua esposa parece capaz de deixá-lo cheiroso mesmo no meio de tanto dejeto.

Quando o jovem poeta vai limpar as fossas com seu pai, aos poucos ele vai extraindo de seu ser opiniões que assemelham-se aos excrementos. Sendo assim, tais visões de mundo também o fazem amadurecer, uma vez que os dejetos também servem como adubo e podem sanar problemas de determinada terra. A poesia é o adubo que o jovem encontra não para sanar uma terra, mas para melhorar a Terra, o planeta.

Ninguém nasce com as melhores opiniões, se é que existem, todos devem passar por um rito de crescimento e escolher aquilo que acha melhor. O poeta, evidentemente, escolheu aquilo que o descreve definidamente. Ele prefere o estilo de vida do tio, mas quando encontra este mesmo encarcerado por motivos nada bonitos, o jovem fica um pouco abalado.

O pai que limpa o excremento dos outros e o tio que por muito tempo evitou a labuta do corpo para, finalmente, ser empalado no cárcere. O trabalho mais laborioso talvez seja o de permanecer são atrás das grades. O tio consegue, fazendo amizade com o policial que o vigiava. O poeta percebe, depois de muito brigar com o pai e os irmãos, que deveria sair dali, seu tio foi a matriz inspiradora.

Big Jato é um filme muito bom de Cláudio Assis, com aspectos técnicos bons e a boa história de Xico Sá. O que parece não fazer dele um grande filme é o uso recorrente de expressões assertóricas quando alguns apanágios são claramente apodíticos, aspecto que deixa o roteiro transbordar um pouco em sua doxástica. Enquanto o tio e o pai esbanjam um milhão de opiniões em seus mundos cerrados, não temos muitas demonstrações claras da veracidade de tais crenças, ou seja, temos um punhado de diálogos que às vezes soam sem sentido, que estão ali para completar espaço, quando poderia haver, na realidade, belos planos acerca de tais dados. A apresentação de uma banda como Os Betos, uma ironia aos Beatles e a vida escolar do poeta e seus irmãos, contudo, deixam o filme ainda mais vivo e recheado do pulsar alegre e amargo da juventude.

“Quem não reage, rasteja”, uma frase irônica escrita na traseira do caminhão Big Jato, o limpa fossas. Ora, o caminhão estava condenado desde o início ao fogo que o encerra no final do filme, pois ele sempre rastejará ante a voz que ecoa por milênios na história, a voz do poeta, a voz que atinge o corpo e a alma de todas as pessoas que se sensibilizam para tal arte.