Mostra Brasília e Mostra Competitiva do Festival de Brasília – 5º dia

por Gustavo Fontele Dourado

MOSTRA BRASÍLIA

Johan

Johan

Neste dia de Mostra Brasília de muitos curtas, os dois melhores filmes estão no início e no fim da sessão. Johan é um deles e é inclusive um dos melhores filmes da edição do festival e a única animação exibida se contarmos as duas mostras principais, a Brasília e a Competitiva. À primeira vista pode parecer uma animação muito modesta e com qualidade precária, mas não é nada disso – as texturas e o formato utilizado criam um mundo que causa um transe como poucos filmes da atual edição provocam. Muitos falam que a maioria dos curtas já feitos ao redor do mundo ou pelo menos os que mais ficam na nossa memória são as animações, talvez pela sua grande maleabilidade e adaptação com o pouco tempo para se realizar uma experiência ou uma narrativa. É um trabalho de conclusão de curso da UnB, porém já bastante maduro e é um dos filmes que merecia entrar na Mostra Competitiva no dia do curta “O Sinaleiro” (Johan é melhor que Cidade Nova, o representante do DF na Mostra Competitiva). Fico na expectativa por outras obras do diretor Rayk e destaco o desenho de som. A obra usa muito bem seus símbolos e não há muletas na direção da animação, talvez o único clichê seja a escolha pela galáxia já exibida em muitas outras obras audiovisuais como o videoclipe Toxicity da banda System of a Down, com bilhões de galáxias no universo, uma outra poderia ser escolhida. Porém, o resultado não é depreciado por isso e alia uma boa diversão com a narrativa de temas interessantes como o perigo pela busca do conhecimento, enfrentar o caos para olhar para os nossos ancestrais: os cosmos.

O melhor fotógrafo do mundo

O melhor fotógrafo do mundo

O diretor é um dos mais produtivos de Brasília, porém há uma curiosidade para assistirmos o seu primeiro longa-metragem ou talvez Fáuston será um Norman McLaren de Brasília e assim focará seu trabalho nos curtas e o que não faz dele um cineasta menor. Seu melhor filme é sem dúvidas “Meu Amigo Nietzsche” e os outros seguem uma regularidade de estilo e de escolhas. Há sempre a figura da criança em confronto com os mais velhos através de uma irreverência, seja em buscar um desejo ou usar certas ferramentas como a de instigar a compra de uma máquina fotográfica.  O conjunto do elenco está bom e a direção dos atores consegue uma qualidade satisfatória com os seus não-atores, entretanto em momentos críticos eles não chegam na melhor das conjunturas possíveis para a interpretação. É um dos filmes mais populares do festival, mas deixa um gosto de que Fáuston pode fazer mais e mostra que ele consegue fazer bem com pouco orçamento.

João Brandão adere ao punk

João brandão adere ao punk

Adaptado da crônica de Carlos Drummond de Andrade, o curta usa de um estilo com pouca coesão estética e questões que variam do clichê ao interessante. Os personagens estão lá com muita fibra, mas a condução do conteúdo falta um aprofundamento do punk, mesmo que elementos históricos relevantes estejam lá como a banda Invasores de Cérebros e Restos de Nada. O mérito da obra é o espírito anárquico que a crônica de Drummond tem com uma análise contundente e sem preconceitos. As imagens de arquivo são bem selecionadas, mas as filmagens em live-action poderiam ser equilibradas às boas escolhas do curta.

Dias de Azar

Dias de Azar

É um dos filmes com mais recursos da mostra, bem realizado – mas ao se aproximar da sequência final ele se torna um pouco piegas. A atuação de seu protagonista tem alguns momentos de queda na qualidade de sua interpretação e o recurso da voz over da criança no início poderia ser transformado em uma situação concreta. A qualidade está nas tensões e conflitos dos repórteres com os bandidos e por escolhas acertadas na direção e na montagem. Mas, faltou um pouco mais de maturidade na condução de certos personagens para combinar no clima de suspense. Destaca-se a fuga dos repórteres por carro da zona perigosa e ameaçadora dos bandidos e para um trecho que poderia ser melhorado é a inserção do flashback do bandido sendo filmado na delegacia e talvez colocar em sua introdução alguma situação bastante ameaçadora ou efetivamente agressiva para corroborar com a homenagem aos repórteres que não puderam contar a sua história.

Faz seu corre

Faz seu corre

Certamente é o filme mais caseiro do dia, porém ele tem sequências boas como a da competição do rap, mesmo que alguns raps, sem ser o do protagonista Marquinho, deixem a desejar. O desafio não é tão imponente no momento da competição, mas há uma expectativa por tal. A cena do Marquinho sendo assaltado é um dos pontos fortes do filme e como um todo ele não traz ares de artificialidade. Talvez como um todo, o elenco poderia ter sido melhor preparado e na primeira metade os obstáculos do protagonista fossem delineados com um pouco mais de objetividade como a dita na sinopse da obra, apesar de nos interessarmos por Marquinho devido à sua presença de tela.

Vagabunda de meia tigela

Vagabunda de meia tigela

Ao lado do Fáuston, Otávio é o realizador mais experiente do dia. É evidente seu potencial criativo para a comédia e o uso de mescla de recursos audiovisuais, suas personagens principais, secundárias e de apoio são muito importantes e demonstra uma boa pesquisa e um aprofundamento nas interações entre suas personagens desde o roteiro. Entretanto, por haver muitas histórias, em raros momentos o curso do filme fica acelerado demais para ser encaixado em 24 minutos, mesmo que o contexto e as situações são compreensíveis e comunicáveis. É um dos filmes mais criativos desta edição, muito bem conduzido e traz uma reversão de papeis e de valores que não caem no repetitivo e rompe com estereótipos. Também espera-se com ansiedade pelo seu primeiro longa. A direção de arte é impecável e o talento de Otávio para a comédia não deve ser subestimado.

 

MOSTRA COMPETITIVA

A outra margem

A outra margem

Um retrato da solidão noturna feito com uma boa estrutura, mas mal resolvido. O uso do carro como dispositivo estético é o auge do filme, assim como a dança do casal em um terreno descampado. O uso musical nos conduz às emoções escondidas do protagonista e a obsessão de procurar um outro que está perdido, os outros que necessitam de alguém. O ritmo é o triunfo da direção e a sua decupagem aproveita o distanciamento noturno e frio das ruas, enquanto a voz aveludada de um programa de rádio conforta os ouvintes cheios de introspecção e sentimentos ansiosos.

História de uma pena

História de uma pena

Com um tempo maior que os demais curtas do dia (considerado média pelo festival e pelo Brasil), este filme mostra a mediocridade e a autoridade paternalista de professores sem inspiração e a passividade de estudantes em relação a esses conteúdos. As reações dos alunos são tímidas e tentam ser respeitáveis, apenas o absurdo consegue romper com aquela rotina maçante e que os professores cismam em executar sem questioná-la. Um filme apropriado para o festival, rende discussões e reviravoltas no pensar. Precisamos de mais filmes de ficção sobre a problematização da educação no país.

Santoro

Santoro – O homem e sua música

O longa de John Howard encanta pela figura de Claudio Santoro, um gênio esquecido e pouco valorizado. A eficiência do documentário está no uso transparente de suas informações e para comunicar com facilidade recortes da obra do compositor, todavia não há nenhuma ousadia estética. É como se fosse um documentário bem feito sobre uma faceta de Shostakovich e dessa vez sobre Claudio Santoro. Sem dúvidas é o melhor longa-metragem da Mostra Brasília e faz bem em resgatar lembranças de Claudio e da sua estética. Não é um filme pretensioso e está acima da média de vários documentários produzidos no Distrito Federal, apreciar a sua música é o mais proveitoso. Talvez uma falha seja a de não problematizar outras facetas de Santoro, talvez a de elevar ele em demasia – mas a intensão é divulgá-lo e isso é feito com eficácia. Seria também uma oportunidade de fazer paralelismos com outros gênios musicais como Schnittke e Xenakis, compositores de alto grau de experimentação e que Santoro não deve nada de qualidade a eles.

Um dos problemas se refere ao vício da seleção de documentários ou filmes que dialogam com a linguagem documental do DF à mostra competitiva, pois nos últimos anos raramente vemos uma ficção concorrendo ao candango principal. Ainda estamos na fase de encontrar os nossos grandes ídolos ou talvez apenas relembrá-los por esquecermos facilmente eles na nossa memória cotidiana. A música de Santoro merece ser ouvida completamente e o documentário cumpre o seu papel de ser uma introdução ao seu mundo. Muitas sinfonias, experiências eletroacústicas, sonatas…

O longa não esbanja também uma grande fotografia de John Howard, é um filme modesto com intenções muito boas e nos prende pela história de Santoro. O recurso mais interessante do documentário é a narração do próprio compositor e algumas experimentações com ilustração na obra de Santoro e as filmagens vibrantes da orquestra. O documentário não quer deixar dúvidas da genialidade do músico. Dizem um discurso parecido em relação ao Glauber (se o cineasta tivesse nascido nos Estados Unidos ele seria um John Ford), com Santoro dizem que se ele tivesse nascido na Alemanha ele teria sido um Beethoven, portanto temos que estar mais atentos aos nossos criadores e valorizá-los mais para tal independentemente do país. É fato que precisa ter uma divulgação melhor lá fora e aqui dentro no país dos gênios fragmentados e esquecidos.