Mostra Competitiva do Festival de Brasília – 6º dia

por Daniel Lukan

Em seu último dia de exibições e véspera da grande noite de premiações (segunda-feira, 21), o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro seguiu sua rotina de exibições de mostras paralelas, debates sobre os filmes exibidos na noite anterior, dentre outras atividades. No palco de suas atividades principais – o Cine Brasília – dentro da programação da Mostra Brasília foram reexibidos Afonso é uma Brazza e Santoro – O Homem e sua Música, que já haviam feito suas estreias pela Mostra Competitiva nas noites de sábado e domingo, respectivamente. À noite na sequência das apresentações dos curtas e do longa que concorrem aos principais prêmios foram exibidos O corpo e O Sinaleiro dois bons curtas competentemente executados; e o longa-metragem de qualidade duvidosa: Prova de Coragem.

Prova de Coragem

Último filme exibido pela Mostra Competitiva do Festival de Brasília, Prova de Coragem, do diretor Roberto Gervitz, conta a história de Hermano, um cirurgião enclausurado num conflito pessoal de superação de traumas ligados a sua personalidade covarde antes de definitivamente assumir a vida adulta, e sua esposa, Adri, uma artista plástica que vive a pressão e expectativa de conceber sua próxima exposição artística e seu desejo de ter um filho. O enredo baseado no romance Mãos de Cavalo, de Daniel Galera, estabelece a pretensão de focar narrativamente na construção de seus personagens; os fatos, sejam eles futuros ou passados, servem apenas como suas motivações, concretamente pouco acontece ao longo da diegese fílmica. Logo os personagens, sobretudo Hermano, vivem em conflitos relacionados ao que já aconteceu e ao que irá acontecer.

A proposta de condução narrativa estabelecida manifesta-se interessante, no entanto, a ideia da elaboração dos personagens é extremamente ineficaz. Pretende-se fazer um filme sobre os personagens e não sobre os acontecimentos que os envolvem, mas os personagens são fracos e seus conflitos desinteressantes o que ocasiona completa falta de empatia dos espectadores para com os actantes da narrativa. Hermano é um personagem covarde – o que por si só não é um defeito, já que a história propõe tal característica – mas, além disso, seu comportamento muitas vezes egoísta e forma infantil como lida com os conflitos de seu relacionamento com Adri o distancia de qualquer tipo de identificação ou compaixão por parte do público. Além do mais, todos os momentos que envolvem sua prova de coragem, que poderiam ser trabalhadas como grande mote da narrativa e importante alicerce para gerar pena por seus embates, na verdade revelam nada mais que o ensejo de Hermano de provar sua virilidade, e nada além disso. Adri, por sua parte, ganha um pouco mais em dramaticidade com seu conflito em relação a maternidade e a gravidez de risco que decide levar a diante; mas, em segundo plano em relação a Hermano, não ganha o aprofundamento merecido no desenrolar da história e por isso também acaba sendo um personagem raso e desinteressante.

Em meio ao desenvolvimento de protagonistas tão fracos e insossos o filme fica fadado a um mau desenvolvimento quase que completo e não se destaca por nenhum elemento estético e ou narrativo.

Visualmente não apresenta grandes falhas, mas também não mostra nada apreciável; calcado em clichês e no trabalho mais básico e seguro apresenta uma decupagem, um trabalho fotográfico de cor e uma montagem que não chega além de uma novela das oito bem executada poderia exibir.

Uma simplicidade em sua composição visual que poderia ser desconsiderada se o enredo funcionasse e impactasse, porém, além dos problemas já mencionados em relação aos personagens principais, de modo geral o roteiro – principalmente em relação aos seus diálogos – soa ridículo, seja com frases deliberadamente feitas com o objetivo de parecerem marcantes (quando, por exemplo, Hermano pergunta a Adri o que ela quer e ela responde que quer “tudo e muito mais”), quando as falas do personagem chileno soam caricatas e evidenciam uma despreocupação na representação do estrangeiro – e não servem como piadas uma vez que se trata de um drama no qual ele se envolve num dos acontecimentos possivelmente mais trágicos – e também quando os personagens apresentam falas desnecessárias e óbvias (como quando Naiara nota um escancarado corte sangrando nas pernas de Hermano e diz “Sua perna está sangrando” e, a partir dali, nada mais acontece em relação ao corte).

Enfim, num comentário reduzido resta dizer que Prova de Coragem é uma obra cinematográfica completamente desinteressante, com personagens rasos e uma estética banal, não conseguindo atingir seu público por nenhum mérito. Pelo contrário, apresenta sequências e sequências de falhas e deficiências, das quais a mais visível delas acaba sendo a atuação de seus protagonistas que desenvolvem diálogos forçados e antinaturais. Um filme fraco em essência que tenta se sustentar numa suposta profundidade apresentada por metáforas baratas e mau utilizadas. Sem dúvidas um filme que quebrou e fez questionar a lógica das escolhas dos filmes selecionados para a mostra competitiva do Festival de Brasília.

O Sinaleiro

O curta de diretor Daniel Augusto faz uma adaptação livre do conto homônimo de Charles Dickens que conta uma história que se passa numa paisagem ferroviária completamente deserta e medonha, focada na figura do sinaleiro responsável por aquele trecho de via férrea a narrativa se envereda pelo fantástico, rumo que apresentará dicotomicamente a figura do sinaleiro diante de seus próprios medos e transtornos psicológicos frente à solidão e à possibilidade de acontecimentos sobrenaturais que o circunda.

De forma geral, podemos dizer que o filme cumpre seus objetivos e fecha suas principais premissas, sobretudo o trabalho impactante do som e o da arte que consegue compor todo o clima macabro que envolve o desenvolvimento de uma inquietação (e consequentemente do suspense) frente à situação do inesperado. Contudo, uma leve impressão de que o filme ainda havia muita coisa a apresentar e a desenvolver deixa o sentimento de que a composição em forma de curta tenha limitado o potencial da história, tornando-o um produto bem executado, porém, “incompleto”.

O corpo

Um dos vencedores do Festival de Gramado deste ano, o curta de Lucas Cassales assim como O Sinaleiro aposta um pouco pelo caminho do hermetismo, no entanto, se o filme de Daniel Augusto utiliza dos efeitos sonoros para gerar suspense e sustos, O corpo preza sobretudo pelo silêncio. Um jovem garoto que vive no interior do Rio Grande do Sul com seu pai e sua mãe encontra uma bela jovem no meio do mato; essa menina fica hospedada na casa do menino, acolhida pelos pais dele. Logo, ela revela-se uma figura suspeita e fantasmagórica, completamente sem expressão aparente. Em meio a esse suspense, acontecimentos relacionados ao enaltecimento do machismo e a objetificação da mulher revelam um mundo desconhecido ao garoto de uma realidade tão pacata. Carregado de referências como, por exemplo, Pasollini e Lars von Trier o filme apresenta uma estética complexa e altamente funcional, o que resulta num belíssimo filme que cumpre sua proposta ao longo de todos os dezesseis minutos.