Persona (1966)

por Não são as imagens

Persona ou “Quando duas mulheres pecam”

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Que mulher é essa? Impalpável, a mãe, talvez?

 

É um desafio escolher um único caminho para analisar Persona (1966) ou “Quando duas mulheres pecam”, título em português do filme de Ingmar Bergman. Difícil porque assim como as personagens, a narrativa é complexa e fragmentada.  É uma obra que contém aspectos da psicanálise, da arte, da filosofia – do intangível. Persona é mais do que um filme psicológico,  ele transcende a temática e reflete na estética perspectivas do subconsciente humano.

A sequência inicial remete aos primórdios do surrealismo no cinema, cenas e planos aparentemente sem conexão trazem o que está oculto na mente para a tela: luzes que se tocam,  um pênis ereto, uma aranha, um animal morto, dilacerado, com as vísceras a mostra.  Seria o cinema uma janela para outros mundos? Um menino coloca o óculos para enxergar algo melhor, ele estende a mão e toca a tela. Existe um rosto de mulher. O palpável aí ganha outra conotação, os olhos já não são mais suficientes. Eles enganam. O toque é verdadeiro ou seria também apenas outra dissimulação sensorial? Nesta última cena antes da entrada dos créditos, já se pode ter uma ideia da assombrosa e angustiante narrativa que envolve Alma e Elisabeth, as duas protagonistas dessa história.

 

O mito e a questão da feminilidade

Com fotografia em  preto e branco, contrastante e cheia de sombras, fica evidente a ambiguidade entre Alma (Bibi Andersson) e Elisabeth (Liv Ullmann). A primeira, uma jovem enfermeira, prestes a casar com a vida encaminhada. A segunda, uma atriz que surtou após atuar como Electra. Ao escolher a peça grega Electra, Bergman não agiu por aleatoriedade.

Nessa história mitológica, Electra mata a mãe em vingança a morte do pai. Para a psicanálise de Carl Jung, uma espécie de analogia ao mito de Édipo dando origem ao complexo de Electra. No entanto, as duas versões são motivadas por aspectos distintos. Enquanto Édipo mata o pai sem mesmo saber quem é, sem nunca tê-lo conhecido, por mera vontade dos deuses ou do destino; Electra cultiva mágoa pela mãe durante anos e planeja o assassinato da genitora.

Ao escrever Electra em V a.C., Eurípides, influenciado pelos filósofos pré-socráticos, nega o aspecto divino comum aos mitos da época e inaugura uma nova era nas narrativas trágicas gregas. Electra é motivada pelas emoções, possui escolha – nessa perspectiva, aproxima-se do existencialismo: o homem é livre,  “a existência precede a essência” (Sartre). De outra forma, o mito de Electra remete a construção da feminilidade quando coloca junto a identidade da mulher as pulsões sentimentais.  O mito de Electra discute o problema do desenvolvimento feminino mal sucedido, marcado por ciúmes, masoquismo, dramatização, rejeição da feminilidade e sexualidade freada (Halberstadt-Freud).

Assim, a ambivalência presente nas personagens de Bibi Andersson e Liv Ullmann faz todo o sentido. Presa em uma espécie de determinismo, Alma acredita que a vida é destino e não escolha, já Elisabeth começa a descontruir tal ideia e é esta desconstrução que a perturba de maneira sombria.

Jung versus Stanislavski

A atriz é encaminhada a um hospital por sofrer de mudez consciente. Colocada frente a Elisabeth, Alma teme não conseguir tratá-la. A enfermeira conversa com a médica e sugere trocar de paciente. A médica nega o pedido. Nesta cena, percebe-se recurso muito utilizado por Bergman em vários filmes, mas especialmente em Persona: a ausência de contra-plano. A conversa entre a enfermeira e a médica é marcada apenas pela a presença do rosto de Alma, percebe-se o medo através do olhar da personagem, divinamente interpretada por Bibi Andersson.

Elisabeth está completamente perdida em relação a identidade. Afinal, quem é Elisabeth Vogler após interpretar tantos papéis? Ela não se reconhece. A palavra Persona vem do latim, e significa máscara, Jung, mais tarde iria utilizá-la como sinônimo para “papel social”. A persona varia de acordo com o momento, com a condição, com a necessidade do indivíduo. Uma persona pode encobrir o indivíduo, pode haver também tamanha identificação com uma persona que a pessoa fica determinada a se ver superficialmente diante dos papéis sociais. Segundo Jung, o fenômeno persona é um arquétipo, por isso intrínseco a condição e mente humana – desta forma Bergman consegue brincar com os conceitos dicotômicos da psicologia, do teatro e da filosofia.

Outra significante cena da película é marcada  pelo desespero de Elisabeth ao presenciar o horror humano através de uma tela – outra paródia bem-sucedida ao inconsciente. A arte de Vogler não acrescenta e não pode salvar o mundo, então por quê continuar a fazê-la? Seria inconsequente continuar representando. Aliás, o problema do ator é justamente esse: o não representar, mas sim ser. Em um monólogo, a médica de Elisabeth diz:

“Pensa que não entendo? O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz uma mentira. Cada gesto falso. Cada sorriso, uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas deste gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silencio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar pra o mundo. Então, não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos. Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica. Seu esconderijo não é a prova d’água. A vida engana em todos os aspectos. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou não, se é sincera ou mentirosa. Isso só é importante no teatro. Talvez nem nele.”

Pergunto-me se talvez a crise existencial de Elisabeth, na verdade, não passaria de uma crise de ator profissional. Vogler não pode mais ser, esgotou-se como atriz e agora o máximo que consegue fazer é representar, falsear e agir de má-fé. Essa premissa seria verdadeira se não existisse o contraponto de Alma. A problemática do encontro entre duas mulheres transpassa o que poderia se tornar uma mera psicologia barata ou metalinguagem da arte e alcança outros níveis de discussão.

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Um monólogo para duas

A médica ao observar que o tratamento pode não ocorrer de boa forma se a paciente continuar no hospital, oferece a Alma e a Elisabeth a casa de praia para passarem uma temporada, é a partir daí que a história começa a ganhar novas perspectivas. Alma, incomodada com o silêncio da paciente, começa a conversar com o objetivo de atiçar a vontade de fala na companheira. No entanto, o desejo dela não é contemplado. Entre longos e delicados planos, a enfermeira passa a contar toda a vida e suas culpas à Elisabeth, que escuta tudo calada e pacientemente, sem julgamentos. Há uma inversão de papéis entre as duas. Agora, Vogler cuida de Alma. Alma parece confiar na desconhecida como nunca confiou em ninguém para contar os segredos mais íntimos, como por exemplo uma orgia que praticou mesmo estando noiva ou um aborto ao qual foi forçada a fazer. Ao falar, ela percebe que “suas percepções não condizem com suas ações”.

Embalada por uma trilha sonora que não apenas ambienta, mas também é personagem no filme, a vida das duas mulheres ganha outro sentido. Alma começa a questionar o determinismo. Elisabeth torna-se aparentemente tranquila. Alma nutre admiração e se espelha na atriz. Duas mulheres e os problemas existencialistas. A história segue de forma a pensarmos sobre a identidade confusa entre enfermeira e paciente.

A próxima virada da narrativa se dá quando Alma lê uma carta escrita por Vogler endereçada à médica. Nela, Elisabeth disserta sobre a experiência na casa de praia e conta como tem sido interessante analisar Alma – coloca a enfermeira no lugar de objeto de estudo e como um novo propósito de vida. Alma fica perplexa com os comentários da atriz e faz de tudo para que ela fale. A mudez de Elisabeth está essencialmente ligada com o medo da representação, da mentira – se não fala, não pode dizer inverdades. Mas e os pensamentos? Eles mentem. É justamente isso que a enfermeira questiona na paciente. Que bela interpretação para si mesma a atriz consegue manter! Em sequência, o marido cego da atriz resolve visitá-la na casa de praia, mas quem atende é Alma. Ela finge ser Elisabeth após recorrente insistência do homem. Alma também representa.

Irada com a atriz, a enfermeira passa a questionar sobre o passado de Vogler, que não diz uma palavra. Alma disserta sobre o problema da maternidade que a atriz enfrentou. Elisabeth não queria ter filhos, mas teve de representar este papel, por isso sempre o odiou. Neste ponto escutamos a mesma fala duas vezes, uma em que vê-se apenas o rosto de Alma e outra em que vê-se apenas o rosto de Elisabeth –  e nada é redundante. Os rostos se fundem. Alma é Elisabeth. Elisabeth é Alma.

Existem tantas outras análises possíveis para Persona, escolhi o caminho da narrativa pela interação que possui com as outras ciências humanas, as ciências inexatas – como é este filme: inexato, complexo, arrebatador. Persona é rico, uma obra-prima, criada a partir da crise existencial do próprio autor. Ao escrever o roteiro, Bergman se encontrava-se isolado, sofria de pneumonia. Ao se questionado sobre a obra, disse:  “Era necessário, por conseguinte, escrever qualquer coisa que apaziguasse a sensação de futilidade que sentia, a sensação de estar marcando passo.” Continuemos a fazer filmes para não mudar o mundo, mas talvez o homem.

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Bárbara Cabral – 24 anos –  recém-formada em Audiovisual pela Universidade de Brasília, flerta com o bom  jornalismo. Faz bico em produção cinematográfica e adora escrever. Autora do pouconormal.blogspot.com, onde publica micro-contos, poesia, crônicas e o que mais der na telha.

Referências bibliográficas

HALBERSTADT-FREUD,  Hendrika. Electra versus Édipo in Psyche (Sao Paulo) v.10 n.17 São Paulo jun. 2006. Link: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382006000100003#2

SÓFOCLES/EURÍPIDES. Electra(s). São Paulo: Ateliê Editorial, 2009.

Contra Campo, Revista de Cinema V.59 Link: http://www.contracampo.com.br/59/persona.htm