Um lugar tranquilo no campo (1968)

por Elias Fontele Dourado

1De toda obra de Elio Petri, Un Tranquillo Posto Di Campagna é seu filme mais sobrenatural, um terror que dialoga perfeitamente com o giallo e o drama metafísico.Como todo bom filme de Petri, também não deixa de ter aspecto político, mas este é mais envolvido com a estética e a burocracia que envolve a arte.

Obra-prima de Petri que precisa ser redescoberta. Misterioso, visceral, metafórico, belo e inovador. O roteiro de Tonino Guerra é marcado pela loucura e insanidade de um artista perturbado, uma história avançada para o ano de 1968, principalmente em aspectos sexuais e suas influências aterradoras. Pornografia e arte confundem-se, um filme de sinceridade incomum, assim como os planos insólitos.

Música do mestre Ennio Morricone, dialogando mais com o dodecafonismo e atonalismo, com cores mais escuras e intervalos distantes da tônica. As armaduras em clave de sol, fá e dó, os intervalos que nunca descansam na tônica e as síncopes e contratempos sabiamente calculados  são formas de mostrar em outra linguagem, a mais universal talvez – a música, a inquietude e inconstância dos personagens do filme.

Muitos dos enquadramentos parecem pinturas, atemporais, como as grandes, que atravessam as eras, pois o filme propõe uma sobreposição de vários momentos diferentes e concomitantes, uma montagem que lembra a dialética, que seria como um menear pelos séculos.

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Desde o uso de espelhos até cortes secos normais, dimensões diferentes imiscuem-se na realidade e no sonho, tudo muito incerto, mas com diversas interpretações profundas, e também rasas, mesmo nas primeiras ondas encontra-se vida, e este filme é um oceano, rico em sua vagueza.

Todas as elucubrações realizadas do início até o fim do filme parecem tentar analisar uma mente perturbada, mas não só a de um realmente considerado como “louco”, e sim vários “normais” com seus fetiches e morbidez. Talvez, no fim, tudo seja uma conspiração dos usurpadores de arte que tentam enlouquecer um artista para que este, encarcerando o corpo, liberte a criatividade.

Há vários objetos de cena macabros, o lugar que os abriga, como um determinismo psicológico, uma insanidade já expressa mesmo em cenas de aparente felicidade. Imagens de guerra e de sexo se aglutinam, como duas loucuras parecidas, onde o que muda é o campo de “batalha”, bem dizia Bataille, sobre a descontinuidade do sexo.

Algumas vezes, o pintor Ferri aparece em uma cadeira de rodas sendo carregado por uma mulher, parece demonstrar que é escravo do sexo, da perversão. A fachada de boa pessoa também não é poupada, quando Ferri vai até a banca e transparece estar procurando por revistas jornalísticas, mas, na verdade, está pensando em pegar as revistas pornográficas.

Um filme não apenas sobre espírito sobrenatural, mas do espírito humano, do sadismo, de uma filosofia da alcova, onde até mesmo vivos e mortos sentem ciúmes e outros sentimentos complexos da noção ontológica de pessoa.

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No fim, a arte parece ser trocada pela pornografia. Ao mesmo tempo satisfaz o impulso e o raciocínio de um artista que pode ser realmente doente, mas também escravo de mercadores corruptos, que talvez sejam os doentes de verdade. Um filme ousado e inigualável, excelente.