O começo do tempo (2015) – IV BIFF

por Não são as imagens

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Sinopse: Antônio e Bertha  são um casal de idosos com problemas financeiros, por consequência da retirada da pensão pelo governo mexicano devido à crise financeira do país. Diante da necessidade de pagar as contas, sem notícias dos filhos, que não o vem há muitos anos, são obrigados a vender os seus pertences e vender comida de rua para sobreviver. A vida desse casal é modificada com a chegada do neto e do filho ausente por mais de dez anos.

Sobre o Diretor: Bernado Arellano é diretor e roteirista mexicano. O Começo do Tempo é um dos seus mais premiados trabalhos. Destaque para o Festival de Beijing em 2015, onde ganhou o prêmio de melhor filme.

A câmera na mão flutua pelo interior de uma residência. O mundo está desfocado e aos poucos a atmosfera de moveis antigos, desgastados nos apresenta os protagonistas de O Começa do Tempo. Esses são Antônio e Bertha, um casal de idosos que vivem sozinhos. Tem sua rotina modificada com a retirada do direito de pensão pelo governo mexicano devido à crise financeira do país. A inflação e o desemprego se tornam companheiras, há alguns anos, dos países latinos americanos. A população busca ter esperança em algo, mas a discrepância se une a descrença diante à árdua realidade.

Antônio e Bertha são não-atores e seguem uma tendência do Novo Cinema Mexicano ao trazer a crítica social pelos olhos de quem realmente a vivencia. A vida dos personagens é pontuada pelo tempo. O relógio, os caracóis presente no banheiro do casal, a loja de consertos, todos se tornam símbolos para representar o ciclo da vida. O tempo pode ser a espera da morte, um reencontro familiar, uma boa notícia, um novo amor ou mesmo uma mudança. Fuga de uma possível letargia e uma busca por uma esperança.

O rádio se torna um amigo, um companheiro à vida solitária deste casal. O som diegético é a crença em uma mudança do governo. E como não se apaixonar pela delicadeza do amor entre um casal de idosos? Bertha prepara as refeições para Antônio como se fosse à primeira vez. O encanto do manusear das mãos, a voz suave e fraca pelos anos vividos se une ao companheirismo do casal.

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Em meio a ameaças de um agiota, que cobra a dívida deixada pelo seu filho, Jonas. Bertha e Antônio são obrigados a realizar um furto para sobreviver. A ideia é pegar alguns alimentos para fazer pamonhas e vender na rua. O que o desespero faz com o ser humano? Não são respeitadas idade, nem classe social, apenas cobranças. Os objetos da família começam a ser vendidos como uma garantia de pagamento. Percebe-se a riqueza dos detalhes da foto do filho sumido, a simplicidade de uma casa desgastada pela ação do tempo e o relógio pulsando, sendo quase um respiro ainda de vida.

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Os conflitos familiares são à base de toda a narrativa. O patriarca Antônio sonha em ver o retorno do filho, o pagamento da dívida e a união da família. Bertha não acredita nessas atitudes, pois conhece a natureza do filho A chegada do neto, um ar jovial, naquele espaço desgastado reflete o abandono, a desesperança de uma sociedade jovem no México. O desinteresse pela política, pelo desemprego, é um enorme incomodo. Em meio à fragilidade de um casal de idosos, vemos um jovem folgado, um explorador e sem ao mínimo com o bom senso de respeito. É reflexo de um pai desestruturado, sem carinho e amor. Conviver com sua família é um resgate de educação e valores para se viver.

O filme mescla situações cômicas à narrativa ao conhecermos os personagens coadjuvantes como o Barbeiro, que faz um livro de poesia para a sua amada namorada dos tempos de juventude. Antônio e Bertha estão sempre próximos de amigos também idosos. Juntos buscam o carinho de uma boa conversa e o cuidado de querer o bem de uma pessoa querida. É encantador assistir o Barbeiro cuidando dos cabelos de Antônio. Uma maneira de diminuir o sofrimento pela falta de dinheiro para pagar às contas e mostrar a solidariedade, que se existe em pequenos gestos.

Em suma, o Começo do Tempo é um drama triste, mas verdadeiro. Retoma a crítica à política, ao governo, apresenta o sincretismo religioso da cultura mexicana como uma busca por algo melhor. Uma esperança diante às complicações e problemas da vida. A efemeridade das coisas e das atitudes, o ciclo da vida seguindo para um fim.

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Lorena Figueiredo é cineasta do Distrito Federal, formada em Comunicação Social – Audiovisual e também em Publicidade e Propaganda pela UnB. É diretora e produtora, terminou recentemente o seu documentário Intervenções Urbanas, patrocinado por um edital de audiovisual do Estado de São Paulo e já atuou em diversos curtas e longas de Brasília.

Nota: O filme foi exibido no primeiro dia de mostra competitiva no IV BIFF em 2015 (Brasília International Film Festival), 07/11 às 15h. Além de duas exibições no Cine Cultura no Liberty Mall: uma na última segunda (09/11) às 14h e outra programada para a próximo sexta (13/11) às 18h.