The Silence (2015) – IV BIFF

por Elias Fontele Dourado

            1_IFF2015_Spielfilm_TheSilence_Stills_web Os ruídos externos das cidades revelam o silêncio interno das pessoas. Caladas, passeiam pela arquitetura que conquistou o céu e arrasou a terra. O silêncio do outro reflete a mórbida ontologia que fez do bizarro um lugar comum. “The Silence” de Gajendra Ahire é um filme que, apesar de seu título, muito fala sobre a violência contra a mulher, em uma simples história, sendo um filme necessário para as reflexões atuais acerca do abuso.

O filme é sensível no tratamento das relações cotidianas de uma pequena família que luta por uma boa vida, ao menos em subsistência. Essa singela visão da infância de uma garota que vive com o pobre pai serve de antítese para o filme ganhar poder de impacto. “The Silence” não poupa na denúncia da violência abusiva contra a mulher, mesmo que com poucas imagens sugestivas.

Silêncio e omissão – que é pior? O vácuo do som no espaço ou o vazio coercitivo que instaura-se no ato daqueles que nada fazem? O filme é uma relação dos dois, o fatalismo das pessoas que admiram o sofrimento dos outros – amigos enquanto semelhantes em dor. Há também o calar da confissão, da denúncia: as pessoas não desejam sair da zona de conforto, permanecem na lastimável horda de sofredores, como voyeurs de um apocalipse interno.

Abuso, destruição, humilhação, destituição, perda, submissão – aspectos que ocorrem sobre os entes e são jogados por debaixo do tapete. Quando o pai descobre que sua filha foi violentada e tenta bater no estuprador, ele mesmo leva uma surra, e a comunidade, friamente, apenas assiste. O silêncio contra a opressão, as vítimas que gritam sem condições de serem ouvidas.

“The Silence” é simples e direto: as mulheres podem ser vítimas em qualquer lugar, em um estúdio de cinema, no meio da rua, em um metrô e até mesmo na própria casa. A violência doméstica, empresarial e cotidiana representadas através do medo de fortes mulheres que em silêncio aguentam o espectro milenar que ronda em suas mentes: a destituição de uma propriedade particular do ser roubada por um ente desconhecido. A escuridão paira sobre a razão e triunfa os sentimentos.

2_IFF2015_Spielfilm_TheSilence_Stills_web Quanto ao filme em si mesmo, às vezes peca pela pressa de certas passagens temporais, arrefecendo um pouco do impacto que poderia ser tratado ainda mais visceralmente. Com a exceção de uma caprichosa afobação na montagem, “The Silence” reserva em si uma bela fotografia que retrata bem a liberdade de uma casa do interior e o cárcere de um lar na cidade grande.

É dentro dessa liberdade, contudo, que o desespero aumenta. Quanto mais espaços abertos, mais possibilidades de ataques indesejados. A garota não consegue mais ter uma vida plena, o medo e a dúvida sempre a cerca. O pai aos poucos cai em profunda depressão por não ter ajudado a filha na hora do perigo.

3_IFF2015_Spielfilm_TheSilence_Stills_web“Está longe de ser simples mostrar a verdade, mas a verdade é simples”. Esta bela frase de Dziga Vertov representa bem “The Silence”, um filme de meios nada simplificados, mas que no fundo tratam de algo simples, evidências claras racionalmente e empiricamente.

Identificar momentos de silêncio é tarefa fácil, a questão é entender tais momentos. O filme é um questionamento e uma ponte para pensamentos mais cuidadosos. “The Silence” de Gajendra Ahire é um filme muito bom e necessário para propagar, aos poucos, esta verdade simples que dentro de cada percepção se faz complexa.

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