Um Guia para Famílias Curiosas (2015) – IV BIFF

por Victor Cruzeiro

Um festival existe para mostrar o que vem se produzindo pelo mundo fora dos grilhões oficiais. Não necessariamente underground, ou mesmo não­-mainstream – as rotulações cabem ao escopo de cada festival – mas algo que se julgue novo, um afeto, uma temática, um horizonte, que a curadoria, responsável pelo recorte, julgue importante.

Não cabe a um festival, portanto, apresentar apenas filmes bons ou ruins. Desde o velho Kant nos lembramos que a beleza, e o prazer ou desprazer que dela advêm, são fruto do sujeito. Cabe a um festival, como o BIFF, mostrar e revelar, com o acender da luz na tela branca, algo que pode ser, porventura, belo, ruim ou, com sorte, incômodo.

Um Guia Para Famílias Curiosas, exibido nos dias 7, 8, 9 e 11, não se encaixa aí. Construído como um diário de viagem totalmente subjetivo de uma família de classe média alta italiana, o filme confronta os valores tradicionais de uma família no topo da cadeia alimentar do capitalismo urbano, “questionando os hábitos do passado e buscando se adequar à nova vida”, como enfatiza a sinopse.

No entanto, os 73 minutos não são suficientes para que esse “confronto” vá além do confronto espacial entre os espectadores que olham para a tela e a tela que os olha de volta.

O casal Lucio e Anna Basadonne decide, após a constatação que sua filha Gaia está muito fechada na sua bolha de classe média, abandonar tudo e levá-la para conhecer o mundo a Itália por 180 dias, descobrindo as várias formas de viver a vida fora do sistema. O objetivo é que a família – e por quê não os espectadores? – desaprendam o que parece já cristalizado em suas mentes.

Um frame do teaser, que é tão motivacional quanto as imagens que o seu gerente de área te manda após as reuniões bimestrais.

Um frame do teaser, que é tão motivacional quanto as imagens que o seu gerente de área te manda após as reuniões bimestrais.

Como Lucio é diretor de TV e Anna é professora de marketing, me parece claro que ambos são bastante pragmáticos e voltados para resultados diretos. Portanto, me proponho, ao invés de cair no discurso intelectualizado da crítica cinematográfica, realizar uma rápida análise SWOT do projeto, focando no aspecto interno e contrapondo pontos fortes e pontos fracos:

  • Conteúdo x Tempo: A proposta de conhecer outras formas de viver “fora da bolha” é realmente interessante – ouvi ótimas críticas na saída da sala – mas o tempo é insuficiente. Cada família que os personagens encontram lhes apresenta um questionamento diferente sobre o sistema: produção e consumo de alimentos; estabilidade financeira; relacionamentos afetivos; maternidade. Mas se limitam a flashes de perguntas e rápidos comentários. Ao mesmo tempo que se coloca o gosto de “quero mais”, o tema se esfumaça com as rápidas mudanças de lugar ou as longas tomadas das diferentes paisagens;
  • Ideia x Realidade: O questionamento da sobrevivência além do sistema é ótimo na medida em que apresenta opções para aqueles que transcenderam o limiar das esferas do labor e do trabalho – como lembraria uma pouco entusiasmada espectadora Hannah Arendt. Todos os personagens que os Basadonne encontram são italianos, austríacos, australianos etc. confortavelmente estabelecidos desde antes da decisão de abandonar o “mundo real”. Nenhum deles se aventurou sem ter antes os meios para tal. É o grande e recorrente engodo do empreendedorismo, onde se diz que qualquer um pode, a qualquer momento, liberar-se do sistema, tornar-se patrão e não funcionário. De fato, é louvável a tentativa do filme de apresentar maneiras colaborativas – couchsurfing, crowdfunding, job swapping – de viver (e inclusive realizar um filme) mas o incentivo se esgota tão rápido quanto as discussões.
  • Proposta x Objetivo: A estética do documentário é extremamente adequada à proposta. Por ser um diário de viagem, Um Guia para Famílias Curiosas é muito bem gravado com câmeras portáteis, que os personagens carregam consigo todo o tempo. Com isso, podemos ver várias tomadas longas de Lucio ou Gaia, de baixo para cima, além de panorâmicas despreocupadas com a estabilidade. Mas a que preço alcançamos a experiência subjetiva da família Basadonne? A edição não colabora. A jornada de 180 dias se reduz a praticamente 2,5 dias por minuto, e grande parte das tomadas se limitam a conversas nos carros em que a família pega carona e nos espaços fechados onde as rápidas – e insuficientes – conversas acontecem.

Fim da apresentação. Acendem-se as luzes. Um Guia para Famílias Curiosas se encerra precocemente como uma loja de guarda-chuvas no Saara. E não porque seja um documentário ruim (ainda que eu o classifique como tal), mas por sua ansiedade em contar um evento sem a preocupação de retirar dele suas possibilidades. Não seria impossível que uma família abastada que percorresse redutos anti-capitalistas de outras famílias abastadas pudesse fazer um documentário crítico. O cinema, graças à fluidez da câmera e a incerteza da montagem, possibilita que muitas visões sejam escritas a partir da mesma fonte. Infelizmente, este filme em questão acaba tão bidimensional quanto a telona.

Há, no entanto, momentos que merecem lembrança e que sejam, quiçá, propositais para uma reflexão. Enquanto instruem seus amigos que cuidarão de seu apartamento, ressaltando o cuidado que devem ter com seus vinis, o patriarca Basadonne ouve: “Você não consegue se desapegar das coisas. Você está carregando uma câmera. Você vai fazer um filme utilitário”. Premonitória, ainda que ignorando a função documental da proposta, essa frase traz um bom lembrete dos efeitos nefastos de uma GoPro na mão e uma parca ideia na cabeça.

Em outro momento, uma das entrevistadas, uma criadora de cabras isolada da comunidade, diz que não queria se aposentar e ter que se dedicar a jantares beneficentes e ao “senso cívico” (indicando já sua bem-nascida condição). “Eu não sou assim! Eu quero a minha vida!”, diz a pastora neo-hippie, expondo seu desprendimento – ou seria desaprendizagem? – da noção de coletivo.

A desaprendizagem é o lema do filme, o ethos, e a falha...

A desaprendizagem é o lema do filme, o ethos, e a falha…

A família Basadonne cumpre seu objetivo de conhecer novas maneiras de viver “fora da bolha”, mas não consegue sair dela. A volta para casa é inevitável e, de volta ao seu confortável apartamento, a pequena Gaia profere o saldo da sua jornada de desaprendizagem: “quero que a casa continue assim, mas com um balanço na sala e, quando eu abrir a porta, um grande gramado”.

Unlearning [Desaprendendo], é um projeto ambicioso, mas breve, com o pretensioso subtítulo de Um Guia para Famílias que mudam o Mundo, reduzido em português para Um Guia para Famílias Curiosas. Vê-lo é uma boa maneira de perceber como a facilidade de produção está tornando o cinema algo próximo da biblioteca labiríntica de Borges, uma videoteca infinita, onde pode-se encontrar, com o devido afinco e sorte, um pouco de tudo, tudo mesmo, quer goste ou não.

No mais, não deixe de contribuir com financiamento do filme e garantir suas recompensas, entre camisetas e marca-páginas do Guia para Famílias que mudam o Mundo. Essa será essa sua marca na mudança.

Finalizando a análise SWOT, uma oportunidade: o filme está pronto para ser exibido no FOX LIFE.

Finalizando a análise SWOT, uma oportunidade: o filme está pronto para ser exibido no FOX LIFE.