Internat – Além da fronteira (2014) – IV BIFF

por Gustavo Fontele Dourado

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Vê-se abaixo em vermelho o alfabeto usado na Geórgia.

O fim da História está muito distante e sequer nem aconteceu como era defendido nos anos 90 pelo sociólogo Francis Fukuyama após a queda do muro de Berlim e a derrocada da União Soviética, inclusive ele já jogou a toalha sobre essa ideia em 2011. Há muitas histórias da humanidade e nós, como ocidente, sequer temos acesso vivo e nem um encontro caloroso com certos acontecimentos que são considerados muito distantes ou irrelevantes para o nosso cânone cultural.

O IV BIFF seleciona Internat – Além da fronteira (2014) como uma proposta para ficar atento aos causos do mundo contemporâneo e das últimas notícias sobre os refugiados, imigrações e desterros (saída de sua própria terra) causados por guerras civis e conflitos armados. E nisso há muita história para contar e a Geórgia, país que o filme se localiza, pertence a essa problemática que não é tão recente quanto os problemas noticiados da Guerra da Síria.

A obra conta a história de uma família de refugiados que vivem dentro de uma escola abandonada depois de sofrerem graves golpes com a Guerra da Abecásia (1992-1993), conflito disputado entre a Geórgia e os separatistas que lutavam pela independência da região da Abecásia com o apoio político da Rússia e da Armênia. O conflito foi descrito como uma tentativa de limpeza étnica contra a Abecásia e desde então causa reverberações econômicas, políticas e sociais mesmo que não muito lembradas atualmente.

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“Os locais de sobrevivência, o mundo desolado”.

O diretor italiano Maurilio Mangano nos faz olhar para um presente de indivíduos ainda afetados por um acontecimento histórico marcante, a câmera ocupa a casa e nem sentimos artificialidades de um filme feito por um italiano sobre uma família nostálgica por um passado mais promissor e pelo desejo de viver no futuro: o presente não é o melhor dos tempos para esta família de um país tido como distante.

Vemos um documentário amadurecido e com uma convivência profunda entre o diretor e a família, as guerras aterrizam, passam e o que fica após isso? Sem dúvida esquecemos de muitas coisas depois destas guerras em regiões periféricas do globo aos olhos do ocidente. O diretor traz um documentário de urgência e que é importante para a memória dos moradores da região da Abecásia, que lida a memória e o lembrar como uma das ações mais importantes na vida de um indivíduo.

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A família cria muitas vacas como meio de sobrevivência.

 

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Parte da família.

Todos estão muito à vontade e vivem seus ciclos diários sem se importar com uma presença estrangeira na confecção do filme. Destaca-se os brindes com bebida que os homens da família fazem, as crianças brincando e o ritual do natal. Maurilio Mangano é um diretor que se desafia, tem talento e ao mesmo tempo tem algo a dizer. Sua conectividade com a história é importante para sua construção como diretor, lembramos que nos anos 90 a Geórgia e a Itália faziam parcerias para ajudar ambos em momentos sombrios, além de ter uma identificação e admiração por cineastas georgianos brilhantes como Sergei Paradjanov, também lembra da passagem de Tarkovski na cidade de Tbilisi e as referências ricas como Iosseliani, Giorgi Schengelaja, Abuladze e o filme Seule, Georgie (1995).

Com uma escolha que não é vaidosa e sim importante, Maurilio deixa a família falar mais no filme por meio da vivência em uma terra desolada,  e não é possível dissociar ela e encarar seu espaço de maneira fria. O mérito do filme é a cessão de uma autoridade suprema que é o diretor para que as personagens conversem, falem e nos mostre suas vidas cercadas de tanta violência histórica. A autoria do diretor está no cruzamento de suas referências, na forma como se oculta através da convivência com os indivíduos que ele interage e o filme-desafiante, que pode ser considerado como uma marca estilística. Ele diz algo por outras formas.

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Otar Iosseliani, diretor de Seule, Georgie. Importante documentário da Geórgia sobre as condições históricas do país. Ao lado de Paradjanov, é o cineasta mais conhecido do país.

Diante de um presente desolador em que não acontece muita coisa, só expectativas longínquas como o reconhecimento político internacional da Abecácia e o renascimento da Geórgia após tantas guerras com o fim da União Soviética, a família quer sobreviver e encontrar a sua nova identidade sem esquecer dos seus muitos passados, pois a conexão com a terra (o que já foi vivido, o que se vive e o que viverá) é uma das coisas mais importantes para os georgianos. Entretanto, eles precisam de uma passagem, precisam caminhar para ir para outra forma de vida, lutar para não continuar nessa vida para sempre – mesmo que seja muito difícil. No início do filme, as imagens de pessoas passando por uma montanha gelada representa essa vontade de travessia – muitos morreram tentando fugir das guerras na época – nas montanhas geladas do não-lar, do desterro.

Como Jean-Luc Godard diz em Je vous salue, Sarajevo (1993), “cultura é a regra e a arte – a exceção”: Maurilio faz arte para confrontar nossa memória hegemônica e demente para com a multiplicidade dos outros e desenterrar os indivíduos e os desejos perdidos na história recente. A arte dos que ainda lutam para morrer bem e viver.

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Maurilio Mangano.