Crônica da demolição (2015) – IV BIFF

por Não são as imagens

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Rio de Janeiro, 1976, governo militar de Geisel, o Palácio Monroe – antiga sede do Senado Federal – é demolido. Em seu lugar, constrói-se uma praça e um chafariz, onde, desde aquela época, não se coloca água para evitar que meninos de rua tomem banho. Uma história um tanto mal-contada, mas não única entre dezenas relacionadas com o descaso do patrimônio histórico e arquitetônico brasileiro.

A demolição do Palácio Monroe é ponto do documentário dirigido e roteirizado por Eduardo Ades. O longa discute temas relacionados a arquitetura, patrimônio histórico e vida pública. Com uma pesquisa substancial entre depoimentos, imagens de arquivo, notícias publicadas na época, Crônica da demolição faz uma viagem no tempo da arquitetura carioca. A começar pelo Rio de Janeiro no final do Império, quando a cidade se inspirava no modelo arquitetônico de Paris, cunhado nos preceitos da Belle Époque. A intenção era modernizar a capital brasileira, até então o Rio, com o objetivo de torná-la conhecida nos sistemas mundiais. Nesse contexto, o Palácio Monroe é construído. Grandes cúpulas e pilastras cilíndricas, colocadas de forma assimétrica para a sustentação da obra, davam ao Palácio um ar imponente. O projeto foi criado para um concurso de arquitetura internacional e mais tarde foi trazido para o Brasil. Serviu então como sede do Senado Federal. Era significativo por ser o primeiro prédio de grande porte no Rio de Janeiro construído após a República. Localizava-se em frente a Cinelândia, na Avenida Rio Branco.

Todas estas informações são dadas através de uma longa costura de depoimentos permeadas de imagens de arquivo, mostrando a forte pesquisa existente no processo de pré-produção do documentário. Nenhuma informação fica de fora. Durante os depoimentos de arquitetos brasileiros e ex-diretores do Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional (Iphan), somos remetidos a um passado carioca que até então era desconhecido, pelo menos para os nascidos após a década de 1970. O Rio de Janeiro transformou-se de uma forma inacreditável nos últimos cem anos. O que fica evidente nas falas dos entrevistados é a falta de preocupação com a história. Se primeiro a antiga capital brasileira se propunha seguir os cânones da arquitetura parisiense, com o advento da modernidade, os prédios em moldes europeus foram demolidos para a construção de arranha-céus nos modelos americanos, nova-iorquinos – sem nenhum tipo de preocupação.

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A montagem de Crônica da Demolição nos coloca diante de uma esquizofrenia de paisagens possíveis em um lugar tão peculiar que é a capital carioca. Uma sequência sobrepõe croquis arquitetônicos, imagens de arquivo e planos da cidade em nosso tempo, percebe-se o quanto o homem constrói, destrói, reconstrói. Crônica da demolição é também uma crônica sobre o livre-arbítrio e a arbitrariedade humana sob a paisagem. Durante os depoimentos, o que se nota é o extremo descaso em relação a história e a vida pública nas cidades – no entanto, a argumentação não é feita de forma maniqueísta e aí está o grande trunfo deste documentário, uma preocupação com a colocação das falas para criar um discurso narrativo condizente e instigante, não partindo de julgamentos, mas da reflexão.

O Palácio Monroe, nesse sentido, é colocado enquanto personagem no filme. Um personagem que não fala e nem mais existe. Para quem nunca tinha ouvido falar sobre ele, fica uma espécie de nostalgia e curiosidade. Em que tempo vivemos? Só podemos assim imaginá-lo a partir das memórias vivências de quem o conheceu. A pergunta é uma: por que o Palácio Monroe foi demolido? Diante de tanta histórias mal contadas, o filme busca encontrar explicações para essa dúvida.

Entre aqueles que eram a favor da demolição do prédio, estava Lúcio Costa, alegando questões estéticas. Outro argumento que surgiu foi a impossibilidade da construção da linha do metrô na Cinelândia, pois o prédio atrapalhava o caminho. No entanto, os trilhos acabaram sendo desviados do terreno. Após diversos depoimentos de arquitetos e longos planos da cidade, a dúvida permanece. Até que as falas se encontram em uma só: o interesse financeiro do Governo Federal seria o principal motivo para a demolição, no entanto, este motivo se caracterizava como arbitrário e jamais poderia ser colocado a público na época. Isto porque o terreno pertencia a amigos políticos dos representantes do executivo, estes estavam quebrados e precisavam vender o terreno de qualquer forma, a demolição seria o jeito mas rápido efetivo. E assim o prédio veio a baixo, mesmo após o tombamento estadual: “O poeta municipal discute com o poeta estadual qual deles é capaz de bater o poeta federal. Enquanto isso o poeta federal tira ouro do nariz”, diz um dos entrevistados parafraseando a Carlos Drummond de Andrade.

Apesar da incrível pesquisa documental e iconográfica presente neste documentário, para além dos imaginários que as falam suscitam, falta nesta narrativa algo inerente as cidades: o humano. No final do filme, o argumentação vai justamente para os questionamentos relacionados a ocupação e vida pública, a composição de praças nas cidades, etc. No entanto, o que vemos durante 1h29m de filme, são imagens imponentes e uma trilha igualmente majestosa. As imagens são sempre vistas de cima, plongés, em ângulos aéreos, colocando as pessoas como pequenos seres diante das paisagens magníficas – mas não são senão esses seres responsáveis pelas transformações nas cidades, e por que não pela demolição do Palácio Monroe? Quem foram essas pessoas que viveram na época do Palácio – para além dos arquitetos ou dos diretores do Iphan? O filme não conversa com a cidade. O filme quer falar sobre a cidade mas faz, na verdade, uma espécie de “jogo do detetive” entre especialistas a fim de descobrir quem matou Monroe.

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O flaneur que habita a cidade, que caminha e que se configura enquanto paisagem – quem eram os flaneurs em 1970, quem são os flaneurs de hoje? As cidades falam do humano e isso falta no filme de Ades. O que precisamos saber da cidade são as respostas sobre outras perguntas, como disse Ítalo Calvino em Cidades Invisíveis: “De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.”

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Bárbara Cabral – 24 anos –  recém-formada em Audiovisual pela Universidade de Brasília, flerta com o bom  jornalismo. Faz bico em produção cinematográfica e adora escrever. Autora do pouconormal.blogspot.com, onde publica micro-contos, poesia, crônicas e o que mais der na telha.