Em busca da identidade (2014) – IV BIFF

por Gustavo Menezes

Em todo o continente americano, o conquistador europeu empreendeu um processo sistemático de escravização, aculturação e eliminação dos povos indígenas. Nos países onde alguns desses povos sobrevivem até hoje, ainda lutam para preservar suas terras e suas culturas por conta do que os “civilizadores” fizeram e continuam fazendo.

Relegados à resistência pacífica em comunidades e reservas indígenas designadas pelo Estado, na América Latina cada vez mais esses povos vão se afastando de suas raízes culturais, abandonadas em prol do convívio na civilização europeizada e globalizada – silenciosamente imposta como a única ou a melhor forma de organização social.

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Este documentário do geógrafo e documentarista francês Lionel Rossini se centra em dois membros de uma comunidade indígena na Colômbia que, após a morte do último cacique, decidem viajar até o local de origem de sua etnia, uitoto. É uma viagem de auto-conhecimento, mas também uma de resgate de sua história enquanto povo.

Walter e Arnold são dois homens totalmente conscientes de sua situação à margem, do precarismo com que a questão indígena é tratada. E seus próprios nomes denotam o processo de aculturação de que foram vítimas. Também o nome da tribo como é chamada hoje, “uitoto”, foi dado por antropólogos e não corresponde à identidade original do povo. Assim, os dois protagonistas se orgulham de conhecer a história do genocídio feito pelos brancos, de falar sua língua original e cultivar suas tradições, mantidas e repassadas oralmente pelos anciões, os “Abuelos”.

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Não se trata de um orgulho vazio, mas de uma tentativa desesperada de sobrevivência, de resistência. A globalização homogeneiza os hábitos e as preferências das pessoas, deixando as culturas que não lhe interessam (pois não vendem) cada vez mais à margem. É daí surgem que ideias torpes nas mentes dos que afirmam que, por usar calças jeans ou celulares, índios “deixam de ser índios” e deslegitimam sua causa. Bem, este filme deixa claro que é uma questão de etnia e tradição cultural muito mais do que de vestimentas ou tecnologias.

Em determinado momento, enquanto visitam uma aldeia e se deparam com uma grande oca caindo aos pedaços, os índios protagonistas afirmam: “nós [os uitoto] estamos como esta casa”. A comparação pode ser lida com otimismo ou pessimismo: ao mesmo tempo em que parecem prestes a desmoronar, têm ainda as bases sobre as quais foram construídos e com elas podem se reerguer.

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Como é costume nos filmes sobre indígenas, a trilha instrumental repete temas característicos (ou seja, que soam genericamente indígenas), e visualmente o documentário está recheado de planos abertos que seguem remadores de canoas por rios imensos e caminhadas pelo verde de matas densas. Acrescentam-se, no entanto, alguns detalhes, como o boné de Che Guevara na cabeça do remador. Será que ele tem consciência da simbologia que sua busca adquire quando associada a essa figura histórica? De qualquer forma, é mais riqueza para o filme.

O maior defeito é que, embora seu tempo de duração não chegue nem a completar uma hora e o tema seja urgente e interessante, boa parte de Em busca da identidade se arrasta e cansa, tamanha a monotonia de sua construção rítmica.