O Sorriso Verdadeiro (2015) – IV BIFF

por Victor Cruzeiro

A quarta edição do BIFF esmerou-se, com sua seleção de documentários, a discutir o ato de peregrinar. Dos deslocamentos geográficos de imigrantes, como no atencioso espanhol Uma História Aprisionada e no primoroso italiano Internat, aos trajetos temáticos pelo mundo, como A Felicidade não está no biscoito da sorte, da Áustria, e o belo O Sentido da Criação, que procura analisar a força criativa nascida em indivíduos com sentidos comprometidos.

É neste escopo que vem, se aprofunda e triunfa o documentário espanhol O Sorriso Verdadeiro. Ao registrar, de maneira esforçada e honesta, a jornada de um homem autista e cego da Espanha ao Marrocos, o filme toca em um ponto muito delicado do fazer-filme: qual o valor das imagens ou, mais ainda, da linguagem a qual estamos acostumados, quando lidamos com alguém que não as compreende?

O diretor, Juan Rayos, já inicia o filme mostrando a que veio. A primeira sequência nos ensina qual será o itinerário de Sergio e seu irmão Juan Manuel, saindo da cidade espanhola de Cuenca até Tinerhir, no Marrocos. Vemos close-ups de um mapa repleto de tachinhas que formam um trajeto com um barbante. Nas cidades, vemos etiquetas em braile que indicam seus nomes e, ao canto, uma cordilheira de massinha de modelar se eleva no papel.

Ouvimos a voz de Juan Manuel explicando como será a travessia, incentivando o irmão a se lembrar dos nomes das cidades. Ao mesmo tempo, vemos as mãos de Sergio, que passeiam pelo mapa tateando, sentido e fruindo, daquela maneira única – e impossível para nossa compreensão – toda uma aventura que se abre com os créditos iniciais.

Fosse apenas o impossível da tradução cinematográfica da cegueira de Sergio, o filme já seria hercúleo. Mas, soma-se ainda a isso o autismo do protagonista, que o dota de uma percepção e interação totalmente distinta do mundo. É impossível traduzi-la, mesmo com o maior zelo acadêmico. O que dizer então da tradução visual, através do filme?

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A viagem, as cidades, as montanhas.

Rayos, que além de diretor também opera a câmera, se dedicou com afinco à tradução da sensorialidade tão particular de Sergio. Ele constrói o filme trazendo mais ênfase àquilo que apreende a sua personagem-chave, em detrimento do que poderia ser mais atrativo para os espectadores. Não há tomadas majestosas dos lugares por onde eles passam, por mais belas que possam ser. Ainda que se trate de um diário de viagem – à guisa do famigerado Um Guia para Famílias CuriosasO Sorriso Verdadeiro não se presta a documentar a viagem em si, mas as sensações dela. As paisagens não servem como um guia preciso de onde estão os irmãos, mas do que Sérgio experimenta naquele lugar.

Assim como a noção espacial, a temporal também é incompleta. Sabemos que dia é pela narração de Sergio em uma carta para a mãe ou em uma gravação para o pai. No entanto, assim como o mapa do início nos ofereceu uma visão privilegiada do trajeto, também nos é oferecida um conhecimento maior do tempo, de tudo que Sergio vivera até ali. Fora da viagem dos irmãos, estrutura-se um segundo momento do documentário, que pontua, ao longo do filme, uma descrição do nascimento e desenvolvimento de Sergio. Nascido com um microftalmia – “os globos oculares eram do tamanho de cabeças de alfinete”, conta a mãe – e diagnosticado autista aos seis, Sérgio apresentou um desafio principalmente à sua mãe, a personagem principal desse “documentário dentro do documentário”.

É digno de nota também o afinco de Rayos em balancear a imagem que pinta de Sergio. Para não correr o risco de construir um documentário-piedade e mostrar seu protagonista como um fardo, o diretor faz questão de mostra-lo executando as mais triviais – e perigosas – atividades cotidianas, totalmente sozinho. Em uma bonita sequência, assim que chegam em um hotel, Sergio toma banho, seca o chão e depois se barbeia com uma máquina elétrica. Só.

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Ei-los: Juan Manuel e Sergio.

O filme trabalha para romper com o estigma da impossibilidade que muitas vezes cabe ao autista. A viagem de Sergio é uma prova de capacidade, ainda que não de independência. Seu maior desafio é estabelecer um contato efetivo com o mundo, dado a série de entraves que lhe botou a natureza. Mas isso não quer dizer que ele não tenha uma conexão com o mundo, nem tampouco uma vontade e meios próprios para tal. Mais ainda, O Sorriso Verdadeiro mostra que, a cegueira e o autismo não são deficiências, mas outras configurações, formas de apreender e significar o mundo.

Um exemplo: Sergio é extremamente habilidoso com música, e isso é mostrado em diversos momentos, tanto nos relatos de suas aulas de piano, quando criança, como quando ele canta ou toca instrumentos em mais de uma passagem. Quando Juan Manuel pede que ele cante algo, ele canta uma canção em latim. E, quando estão no Marrocos, Sergio toca com desenvoltura um tambor em uma roda de música.

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Sergio se diverte em um dos seus vários momentos com a música.

Uma terceira vitória do filme merece ser notada. Rayos enfatiza os deslizes que se cometem ao lidar com alguém privado de sentido. Os irmãos realizam um trecho da viagem a bordo de um grande caminhão. Juan Manuel olha para o lado de fora e fala de um gigantesco caminhão que passa por eles. No entanto, Sergio não o vê.

Nós, como espectadores, vemos tudo. Vemos a paisagem de trigo por onde eles passam e o céu estrelado do Marrocos que encerra o filme. Nesse ponto, não está então o diretor chamando a atenção para como, não só Juan Manuel, nós – todos! – não estamos completamente preparados para lidar com as privações dos outros?

O que para nós é automático, inato e imediato, não o é para os demais. E como lidar com isso? Com culpa e piedade? De certo que não. Juan Manuel fala com Sergio o tempo todo buscando trazê-lo mais próximo de si, incentivando a interação deste com o mundo. Não há esse sentido falho de dó velando uma superioridade recalcada.

Em um espelho torto, avesso e convexo, não vemos nisso o cinema?

Não somos nós, também, como espectadores, privados de sentidos? Assim como Sérgio, também não nos escapam várias sensações daquela aventura? Também não somos/estamos privados de alguma forma de apreensão? Talvez, essa tenha sido uma maneira ousada de trazer tal assunto à tona – ainda que ele não seja o foco principal…

Há uma máxima do saudoso Schopenhauer que diz: “Todas as traduções são necessariamente imperfeitas”. Schopenhauer, cujo único sentido que lhe faltava era o bom humor, jamais imaginaria que sua crítica à tradução literária poderia ser estendida à tradução visual – e, portanto, mais ampla – de uma aventura como a desse filme.

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Um dos poucos registros da equipe durante as gravações. Com a câmera, o diretor Juan Rayos.

O Sorriso Verdadeiro busca causar um incômodo estético e contar uma bonita história. Consegue fazer os dois com folga. Não cai em clichês, não hesita e pensa além do óbvio. Seu incômodo, refletido neste texto, que é bem mais rebuscado do que o normal, é uma prova de que houve, ali, um sucesso.