Como ganhar inimigos (2014) – IV BIFF

por Não são as imagens

O que se espera de uma mostra competitiva em um festival como o BIFF é que estejam presentes entre os selecionados filmes com narrativas, gêneros diversos, inovadores e que tenham caráter para entrar em um festival. Como ganhar inimigos não se sustenta nesses requisitos. Não é um filme que inova de nenhuma forma. Diria mais, é uma espécie de cópia das comédias americanas. É decepcionante, levando em conta a nova leva da produção argentina.

A comédia-policial de Gabriel Litchtmann conta a história de Lucas, um jovem advogado viciado em romances policiais, ele trabalha no escritório do irmão, Camilo, que tudo faz pelo primogênito. Lucas é uma espécie de escravo de Camilo, até da namorada do irmão, que está a alguns dias do casamento, chora as mazelas para o cunhado. No escritório, ele simpatiza com a secretária, uma senhora atrapalhada que vive fazendo coisas erradas: não anotando recados e estragando a impressora; o jovem advogado acaba sempre assumindo a culpa pelos os malfeitos.

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Com um início promissor, a narrativa se utiliza da estratégia do flashback, o filme se inicia com a festa de casamento do seu irmão. No momento em que Camilo vai ler um discurso que foi escrito por Lucas – já que este faz o tudo pelo irmão até mesmo o próprio discurso de casamento. O título do texto é: “Como ganhar inimigos”, a partir daí a cena é interrompida e voltamos há dez dias, divididos em capítulos que remetem aos romances policiais, como por exemplo: o incidente, o crime, a pista e a prova.

Em um dia comum, Lucas vai tomar um café e encontra uma jovem que também trabalha em um escritório de advocacia, chamada Bárbara. A moça flerta com o jovem que mais tarde a chama para sair. No jantar os dois se dão muito bem, falam sobre uma paixão comum: Agatha Christie. Lucas se sente muito atraído por Bárbara, leva-a para a casa, os dois se beijam. No entanto, ao acordar só no outro dia, Lucas fica desconfiado. O advogado vai então checar a gaveta onde guardava o dinheiro para a compra do apartamento com que tanto sonhava, o dinheiro sumiu. Bárbara roubou. Lucas fica transtornado e nada lhe tira da cabeça que o plano foi premeditado, mas só algumas pessoas sabiam do dinheiro: Camilo, a secretária do escritório e o seu melhor amigo. Lucas então segue em uma trama policial em busca do culpado.

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Nesta altura da narrativa, os espectadores já têm certeza que o roubo foi feito por Camilo. Isto pela forma como ele trata o irmão mais novo, além do mais, a cerimonialista do casamento, prestes a acontecer, vai sempre visitar o escritório cobrando Camilo. As “pistas” deixadas pelo roteiro são muitas e o clima de suspense fica prejudicado pelas obviedades colocadas em cena. O caráter de thriller de Como ganhar inimigos fica prejudicado já no início do longa-metragem que não dá margem a imaginação do espectador. Ficamos condicionados a uma linha de raciocínio única, contrariando as grandes narrativas policiais – pois o que elas fazem é confundir o leitor e surpreendê-lo com um final instigante e revelador.

Além disso, não há desenvolvimento psicológico dos personagens, algo tão essencial em filmes de suspense. Por mais que o longa tenha uma intenção de seguir o caminho da comédia, a graça não consegue sustentar o filme; por isso a necessidade de desenvolver os personagens psicologicamente, o que não é feito durante a narrativa. Lucas ao se envolver com Bárbara trata o encontro como uma leviandade. A personagem só serviu como pretexto para todo o desenrolar da história. Não acreditamos, não é convincente. O encadeamento de ações é tolo, o filme trata o espectador como bobo, não sendo capaz de fazer ligações inteligentes entre os personagens e as ações. Não há processo de identifica-projeção com as personagens tamanha a superficialidade como são tratados.

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Ao final, nos deparamos com um cenário que já tínhamos imaginados há mais de uma hora: Lucas descobre que Camilo roubou o dinheiro, como vingança ele escreve um discurso irônico e debochado para que o próprio irmão leia durante a festa de casamento. O final é feliz. Lucas não recupera seu dinheiro, mas consegue que Camilo assine um cheque doando-o para uma biblioteca pública.

Em relação ao aspectos estéticos, Como ganhar inimigos não inova de nenhuma forma, segue os preceitos do cinema americano tanto na narrativa, quanta na fotografia, no som etc, contrariando a vanguarda argentina nos últimos tempos protagonizada por Relatos Selvagens, por exemplo. A Como ganhar inimigos falta substancia e maturidade.

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Bárbara Cabral – 24 anos –  recém-formada em Audiovisual pela Universidade de Brasília, flerta com o bom  jornalismo. Faz bico em produção cinematográfica e adora escrever. Autora do pouconormal.blogspot.com, onde publica micro-contos, poesia, crônicas e o que mais der na telha.