Dheepan (2015)

por Gustavo Fontele Dourado

Há filmes que são lançados ou estreados em festivais exatamente em seu momento histórico, enquanto que há outros que perdem essa sintonia com o que acontece com a geopolítica atual e serão melhor compreendidos no futuro ou serão esquecidos. Ou tudo simplesmente pode ser um golpe de sorte em escolher produzir o filme em um determinado momento e depois de alguns meses o estopim dos conflitos relacionados à obra estejam cada vez mais fortes.

O filme de Jacques Audiard está em sintonia com o momento histórico e foi um achado no Festival de Cannes nesse ano após em janeiro o Charlie Hebdo ter sido atacado, o filme rendeu muito debate e é essencial para pensar a França do momento e a periferia relacionada a ela. Dheepan trata de três pessoas do Sri Lanka que vão à França para fugir de uma guerra em seu país, eles montam uma família fingida para passarem com mais facilidade pela fiscalização de imigração e se emanciparem no contexto da União Europeia. Dheepan e Yalini fazem o papel do casal e Illayaal o da filha de mentira. Sabemos mais sobre o passado de Dheepan, guerrilheiro que perdeu sua família e que não quer mais batalhar, não é a guerra dele e ele sai em busca por melhores condições de vida e construir novas metas.

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Dheepan no início do filme, interpretado por Jesuthasan Antonythasan.

Dheepan tem uma reconstituição da história pregressa dos personagens de forma certeira e sem explanações longas, entendemos o pano de fundo de suas dificuldades através de poucas imagens e, por não entregar informações demais no início, somos imersos por um suspense crescente aliados à empatia que sentimos facilmente pela vida do trio de personagens. Para aqueles que consideravam o zoom in como um recurso cafona, neste filme ele é usado de jeito arrojado e contribui ainda mais para a nossa empatia com as personagens interessantíssimas.

Logo no início vemos que o processo de imigração é uma forma de se humilhar para muitos, pois devem fazer coisas pela sobrevivência. Como a entrada do título inicial, onde vemos Dheepan e outros com uma máscara de coelhinho azul, logo eles são perseguidos por motivos que ainda não sabemos. Depois vemos a entrada do trio no país por uma entrevista desafiante, convencer os fiscalizadores de sua história e da família de mentira. Porém, isso é desmascarado e a sorte é que o intérprete da língua tâmil ajuda os protagonistas a responder tudo que é necessário para convencer o fiscalizador francês que não entende tâmil das dificuldades e permitir a entrada no país. Humanismo por parte do intérprete ou incompetência no trabalho? Outro ponto de humilhação é a de Yalini se passar por muçulmana sem acreditar nessa religião ou mesmo sair na rua sozinha e sofrer preconceitos.

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Yalini tensa com a saída de pessoas hostis. Interpretada por Kalieaswari Srinivasan. A obra não é apenas sobre Dheepan, por um grande tempo temos bastante contato com Yalini e sua importância na história é a mesma.

Cada personagem do trio vai para funções diferentes, Illayaal vai para a escola para aprender francês em uma turma especial, Yalini vai ganhar 400 euros para cuidar do pai de um traficante e Dheepan se torna o zelador do prédio do grupo do traficante. No subúrbio parisiense, os conflitos vão se desenvolver e a alteridade fica nítida, um exemplo são as piadas politicamente incorretas que Dheepan não sente graça, mas para Yalini é mais uma questão de humor dele do que das piadas em si, mesmo que nos perguntemos que isso vem das diferenças culturais e de referências.

Apesar da nova vida, o trio vai sofrer conflitos como o atrito entre grupos étnicos e associados ao comércio ilegal – muitos deles árabes ou descendentes relacionados. A obra não cai em clichês que seriam a prostituição de Yalini ou um sofrimento sem limites que beiraria a tortura de Dheepan.

Esta película pode ser sobre a paciência para se viver em um outro país, todavia há cada vez mais intolerância por Dheepan que queria fugir de conflitos que não fazem parte dele e que estão lá para desestruturar a sua família que antes era de mentira e que se transforma em um afeto real, só que ainda instável. Eles inventaram essa vida e se acostumam com ela após passar por tantas dificuldades e apreensões.

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Brahim, líder da quadrilha, tem uma conversa séria com Yalini.

A cartada é mostrar as situações do ponto de vista dos imigrantes e nos subúrbios, algo que muitos franceses e ocidentais estão pouco acostumados para ver fora da televisão. Essa é a força de Dheepan, mesmo que haja muitas imagens e relatos na mídia, neste filme conseguimos sentir mais empatia pelos imigrantes e encarar a violência que nós ocidentais também criamos em nossas áreas e que muitas vezes se passa despercebida ou considerada como não tão relevante. Somos criadores de muita violência, mesmo que as pessoas ou o pretexto esteja lá diluído ou oculto, na obra só vemos árabes ou franceses pobres, mas os alguns fatores da violência estão lá camuflados. Para muitos temas, ainda podemos nos sentir como espectadores que precisamos a reaprender a olhar ou reeducar nosso suporte cinematográfico para assistir certos conteúdos e Dheepan é um desses filmes que contribui para isso.

Audiard mostra seus recursos como hábil diretor de suspense e ação na sequência final que não salta da coesão do filme e faz sentido pela violência étnica e econômica na região, as cenas são viscerais e as personagens não estão lá para trivialidades, suas vidas estão realmente em risco. Além de entrar em confluência com o estado de guerra de Dheepan, ele esteve dentro de violências por muito tempo em seu país e as cenas de ação não estão desconjuntadas da obra.

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O clímax, a cena de “ação”.

A polêmica é a cena final, em que há um lapso temporal e vemos a família feliz, bem-sucedida e em outro contexto. Muitos encararam a cena com ceticismo, pois é moda da crítica defender o retrato daquilo que é o puro realismo ou das verdadeiras mazelas do mundo na ótica da “crua verdade”, pois só assim você criaria uma opinião crítica sobre os acontecimentos.

Entretanto, Dheepan vai pela linha da exceção, mesmo que seja muito difícil ter uma ascensão social ou se emancipar na condição de imigrante em um país como a França, há casos que já aconteceram ou mesmo exemplos como nos EUA em que imigrantes se consolidaram por linhas que não sejam o do estereótipo da ilegalidade.

No próprio cinema o que dizer de Chaplin na condição de imigrante nos EUA? Muitos acreditam que pessoas “comuns” não tem capacidade de se emanciparem em condições muito adversas e fica evidente que a crítica tem muitos lugares-comuns em sua análise e ignora a complexidade do mundo social e suas exceções, mesmo que alguns resultados disso não sigam aquilo que é genérico ou “normal”. Dheepan também nos mostra se como espectadores podemos ter preconceitos ao encarar diferenças e causos complexos do mundo, é um filme que revela qual tipo de especadores podemos ser.

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Dheepan e sua “filha”.