Labirinto de Mentiras (2014) – IV BIFF

por Daniel Lukan

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Im Labyrinth des Schweigens é o primeiro longa-metragem da carreira do diretor italiano Giulio Ricciarelli. Lançado no final do ano passado, o filme entrou nas mostras competitivas do Toronto International Film Festival e do Brasília International Film Festival – do qual saiu como grande vencedor na categoria de ficção. Além disso, foi selecionado e indicado pela Alemanha como representante do país na categoria do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira do próximo ano. Sem dúvidas, uma boa estreia na carreira do diretor italiano.

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Labirinto de Mentiras conta a história de Johann Radmann, um jovem procurador de justiça alemão que se interessa pelo caso de Charles Schulz (um antigo comandante do campo de concentração de Auschwitz que agora dá aulas numa escola de Berlim). No decorrer de sua pequena investigação, Radmann descobre uma enorme força burocrática – comandada, em parte, por outros ex-soldados da SS – que dificulta qualquer tipo de andamento investigativo e também qualquer tipo de sanção punitiva. Porém, aos poucos, o próprio Radmann, pertencente à nova geração de alemães pós-guerra que são quase completamente ignorantes sobre as atrocidades cometidas nos campos de concentração, vai descobrindo as várias e terríveis particularidades que marcaram o holocausto.

Depois de vários anos vendo filmes, documentários, livros, reportagens e acessando todo tipo de informações relacionadas à segunda Guerra Mundial, ao nazismo e ao holocausto pode nos parecer absurdo imaginar que a geração de alemães imediatamente posterior ao holocausto não tivesse a noção de tudo o que de fato ocorrera. Isso é o que Radmann representa, a nova geração da qual a Alemanha tentou esconder tudo. Sob a égide de “proteção”, um enorme labirinto de mentiras foi instalado no país naquele período. Como se fosse possível, logo após a morte de Hitler, que todo o terror fosse esquecido e que aqueles que haviam servido ao nazismo tivessem despertado de um transe diabólico e voltassem a ser humanos.

Werner Wölbern (Rolle: Hans Lichter), Johann von Bülow (Rolle: Otto Haller), Alexander Fehling (Rolle: Johann Radmann), Hartmut Volle (Rolle: Alois Schulz)

Enquanto Radmann escancara essa ferida mal cicatrizada, vai ficando claro como o trauma daqueles que sobreviveram aos campos de concentração na verdade está apenas mascarado; assim como também está escondido o ódio nazista daqueles que saíram impunes. Em determinado momento perguntam a Radmann “Você quer que cada jovem alemão se questione se seu pai foi um assassino?” e a resposta afirmativa simboliza o quão profunda foram as atrocidades nazista; afinal, sim, é necessário que todos se questionem. Isso também serve como um estímulo dramático para a história, visto que na sequência o protagonista descobre que seu pai era um soldado da SS, seu melhor amigo e aliado na busca pela verdade também serviu em Auschwitz e que também o pai de sua namorada era um ex-comandante da segunda guerra… pode parecer conveniente e exagerado a forma como o protagonista vai descobrindo que quase todos serviram ao nazismo e estavam relacionados ao holocausto, no entanto, representa bem uma verdade: haviam muitos mais culpados do que os que foram julgados em Nuremberg e, além disso, nem só os nazistas são os culpados pelo holocausto, mas todos aqueles que se tornaram cúmplices pelo silêncio, pela falta de coragem e pela inação. Os nazistas foram os carrascos do holocausto, mas cada parte da sociedade ocidental teve sua parcela de culpa.

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Essa proposta temática e a maneira como o filme a desenvolve é extremamente forte, comovente e impactante o que, certamente, justifica a escolha do longa como vencedor do festival – visto que a escolha era feita pelo próprio público. Contudo, é necessário dizer que Labirinto de Mentiras é um grande filme muito mais pela potência de sua história do que por qualquer outro atributo. Pode-se dizer que seus recursos audiovisuais não apresentam falhas e defeitos gritantes, por outro lado também é necessário falar que não expressa nada que pudesse potencializar a dramaticidade da história; sobretudo a fotografia completamente escorada numa neutralidade de parca expressividade. O som é muito bem explorado na sequência em que Radmann começa a ouvir os depoimentos dos sobreviventes de Auschwitz e todas as falas são abafadas pelo som forte de uma música clássica, o que de forma sutil torna evidente o que já é sabido e não precisa ser exposto de novo (para nós): os detalhes do sofrimento nos campos de concentração. Abafando os depoimentos o som potencializa as expressões de sofrimento de seus personagens, e torna universal o luto e o pesar pela memória de todos aqueles que sofreram com o holocausto. Porém, é um único momento de brilho do filme, ao longo de todo o resto não apresenta nada além do previsível.

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O filme de Giulio Ricciarelli com certeza apresenta uma história de apelo dramático muito forte, contudo, muitas vezes o faz preso a arquétipos e clichés ordinários dos filmes de circuito comercial mais banais: o herói puro e justo; a mocinha que serve como um impulso e apoio para aquela jornada, mas que em dado momento se torna mais um percalço; o herói que fraqueja diante da amplitude de seu problema e do sentimento de que não irá mudar nada, antes que uma reviravolta o coloque de volta em busca de seu objetivo; além de uma série de diálogos marcados e outros que tentam impor frases de efeito. Certamente possui o enredo que conquista o público e que possivelmente o dará um passaporte de entrada para o oscar de filme estrangeiro; mas que poderia ter sido muito melhor explorado esteticamente. É tipo de filme que é bom, que foi bom ter assistido… mas que deixa a impressão de que poderia ter sido melhor.