Os tempos e as vidas de David Bowie

por Não são as imagens

 Bowie 1

Toda geração, toda década tem um artista-ícone, aquele que reúne em si e em sua obra os anseios, sonhos, inovações, energia e alma dos seus contemporâneos. É possível afirmar que desde o nascimento do rock os jovens são o termômetro desses individuos-estandarte. Para alguns o rock e essa cultura jovem dominante surgiu quando um capricorniano do dia 08 de janeiro chamado Elvis Presley surgiu com seu rebolado em rede nacional – estadunidense, lógico – cantando Heartbreak Hotel. Elvis deixou seu legado pra música e cinema, mas não é ele o protagonista ou coadjuvante desse texto. Uso ele pra ilustrar a força da estrela do artista completo que foi David Bowie.

Doze anos após o nascimento do Rei, caiu na Terra o menino David Jones – codinome Bowie, David Bowie. Dizer que ele foi um camaleão já caiu no clichê. Acho que a razão do uso recorrente da comparação está na tentativa do mundo de definir a natureza indefinível de um ser extraterrestre (olha outro clichê aí). Não usaria a palavra camaleão, no entanto. Um camaleão muda, se adaptando, conforme o ambiente. Bowie nunca foi assim.

Ao tentar se debruçar sobre sua contribuição ao cinema é preciso primeiro se debruçar minimamente sobre seus personagens “musicais”, antes de Major Tom, seu primeiro personagem e primeira aparição bem-sucedida nas paradas musicais. Uniu-se a Lindsay Kemp (mímico, ator, coreógrafo e ex-affair do moço David) e estudou as artes cênicas em seus cantos menos explorados como a mímica e o kabuki. Essas descobertas aconteceram, em concomitância com a música, de 1967 a 1969, quando Space Oddity foi lançado e o primeiro sucesso veio. Os estudos e descobertas desse período seriam presença em tudo que ele fizesse dali em diante.

O real boom de fama veio com o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and th Spiders from Mars, que era a epopeia de um alienígena andrógeno e sexualmente ambíguo que caía na Terra e virava um grande astro do rock para, no fim, morrer nas mãos adoradoras dos próprios fãs. Bowie causou a primeira revolução de gênero e sexualidade no rock. A magreza, as roupas e a teatralidade, o cabelo vermelho, o olho esquerdo com a pupila eternamente dilatada e a declaração de ser bissexual, ele abraçou o diferente e fez disso um espetáculo. O personagem Ziggy durou ainda o álbum seguinte, Alladdin Sane, e foi “suicidado” no show na London Hammersmith Odeon, no fim da turnê registrada pelo incrível documentário Ziggy Stardust and the Spiders from Mars de D.A. Pennebaker (o mesmo cara que fez o Don’t Look Back do Bob Dylan). Aqui a vida desregrada do personagem se confundia com a do intérprete, perceptível no documentário que, além de mostrar o show derradeiro e histórico, mostra os bastidores.

Bowie seguiu em frente para seu novo capítulo, mas Ziggy o levaria para o primeiro filme de sua carreira.

Thomas Jerome Newton

Bowie 2

O Homem que Caiu na Terra (1976) foi dirigido por Nicholas Roeg e conta a história de um alienígena que vem para Terra em busca de água para seu planeta. Utilizando a tecnologia avançada de seu planeta, patenteia diversas invenções e se torna milionário. Porem acompanha de longe o desenvolver das riquezas e tecnologias para volta sua atenção à construção da nave que o levará de volta para seu planeta. Arranja uma parceira amorosa, Mary Lou. Eventualmente é capturado e torturado pelos humanos que começam a estuda-lo perversamente.

É importante apontar que muito da alienação e solidão vividos pelo personagem, eram vividas pelo próprio ator que, anos depois, afirmou ter cheirado cocaína para todas as cenas e ter sido pago para viver a si naquele filme.

Bowie foi retratado nesse filme de uma forma que viria a ser recorrente em seus filmes seguintes: a figura sexualmente fascinante (seja você, expectador, homem; mulher; gay; hétero; bi; pan….) e intrigante. Ele se moldou diferente para cada uma dessas. A figura colorida de Ziggy surge em ecos na interpretação e vivência, mas o desprendimento, a indiferença e os vícios em que Thomas surge na tela acabaria moldando o personagem musical seguinte: Thin White Duke. O filme ainda levaria a duas capas de álbum, o Station to Station (1976) e Low (1977, o primeiro da trilogia de Berlim).

Bowie 3

Apesar de haver uma clara linha narrativa, a linearidade temporal só se faz clara após o fim do filme. As imagens surreais e a construção de metáforas aliada a incrível – primeira – experiência cinematográfica do protagonista (nossa estrela) tornam o conjunto da obra uma belíssima reflexão sobre a natureza humana e os limites e consequências do progresso científico e tecnológico. Não precisa nem dizer que foi um fracasso comercial e crítico, mas o poder e relevância da obra tornou a revisitação do filme um processo natural pela atemporalidade que as questões levantadas possuem e hoje é considerado um clássico cult.

Major Jack Celliers

Bowie 4

Um filme peculiar, Merry Christmas, Mr. Lawrence (1983), que no Brasil veio como Furyo – Em Nome da Honra, com uma parceria igualmente peculiar: o diretor Nagisa Oshima (diretor de Império dos Sentidos).

Em linhas gerais é um filme sobre a guerra, quem de fato luta e os vínculos forjados em uma situação tão extrema.

Na Segunda Guerra Mundial, Capitão Yanoi, com o auxílio do Sargento Hara e seus homens, chefiam um acampamento que aprisiona soldados ingleses. O tenente inglês Lawrence, fluente em japonês e nas tradições do país, acaba sendo a ponte entre os ingleses e os japoneses, desenvolvendo uma amizade com Yanoi e Hara.

O filme, não por acaso, começa no tratamento brutal que um soldado-prisioneiro coreano recebe por tentar estuprar o outro prisioneiro holandês. Nos primeiros minutos é mostrado como a homossexualidade é tratada ali naquela cultura, naquele contexto, naquele ambiente.

Nosso personagem de interesse aqui não é o Lawrence, inclusive aparece menos que o personagem-título. Bowie é Major Celliers. Preso num ataque quase que bobo, vemos que ele na verdade se entrega e, no seu julgamento, após ser condenado à morte, é “salvo” por Yanoi e é transferido para o acampamento que chefia.

Bowie 5

Um interesse homoerótico de Yanoi por Celliers é apontado paulatinamente e o começo do filme já não fica tão sem sentido assim. Novamente a carta Bowie-sexualidade é usada, mas nesse filme a rebeldia e culpa que o personagem carrega leva Bowie a uma interpretação quase que desesperada. Há uma urgência e loucura no seu olhar. Quando desfere em Yanoi o beijo que condena os dois, o faz com um olhar de compreensão e total desapego e desespero. Celliers no filme é o grande rebelde, testa a autoridade e validade da figura de Yanoi o tempo todo e a quase que ternura que Yanoi tem por Celliers é o que torna esse filme muito mais do que a simples analise moral da guerra.

Foi lançado, em competição, no Festival de Cannes, e nessa mesma edição do festival lançou Fome de Viver (The Hunger), fora de competição, dividindo a tela com Catherine Deneuve e Susan Sarandon, recomendo muitíssimo o último.

Jareth, the Goblin King

Bowie 6

O ultimo clássico da carreira que aponto é o “infantil” (e ponha aspas, viu?!) Labirinto – A Magia do Tempo (Labyrinth), de 1986, que, junto com o rei dos duendes Bowie, traz uma pré-adolescente Jennifer Connelly. Dirigido por Jim Henson e produzido em parceria com George Lucas.

A história começa com uma menina que recria a cena de uma peça, Labyrinth, se atrasando para chegar em casa e cuidar do seu meio irmão bebê Toby. Ela não tem muito paciência para o choro do irmão e deseja que o rei dos duendes, do livro que lia há pouco, o levasse. É claro que ele surge, leva o bebê e ao ver o desespero de Sarah (a menina Jennifer Connelly) diz que se quiser o bebê de volta ela terá que atravessar o labirinto de seu reino.

A carta bowiana se apresenta nessa obra da maneira mais interessante. Em meio a marionetes e números musicais temos um Bowie extremamente insinuante. O visual dele é bastante chamativo para certa parte anatômica. Se acha que isso é só eu e minha visão de fã, jogue no Google “David Bowie’s Bulge”. Aposto com você que a maioria das ocorrências te levará a esse filme.

Bowie 7

O filme claramente é uma alegoria a transformação e amadurecimento de Sarah. Uma das armadilhas do labirinto vem em formato onírico. Jareth envenena um pêssego e ameaça seu capataz e amigo da heroína a entregar a mocinha. Ela cai em sono profundo, e uma Sarah totalmente – de novo – fascinada por Jareth surge em um baile de máscaras. Dançam uma valsa (As the World Falls Down, super romântica canção do nosso amigo) e a moça acorda quando foge dos outros “convidados” do baile que tentam aprisioná-la cercando e extinguindo qualquer milímetro de espaço que ela tenha.

O vilão, além de visualmente estimulante, é extremamente charmoso. A heroína, apesar de querer dar umas apertadas no Bowie maravilhoso, não sucumbe a seus charmes e propostas e, após salvar o irmão, volta para casa.

A chave aqui é o charme. O magnetismo que ele causa é trabalhado no charme do personagem (se ignorarmos aquela parte já mencionada do visual dele), que é executado tão incrivelmente na obra. O figurino e a maquiagem desse filme ficaram tão famosos e associados às outras facetas que seu desempenho é ignorado. De fato a fantasia e jornada da heroína ocupa um grande espaço, mas o bom observador percebe o impacto que ter O David Bowie traz para o vilão.

O fim

David Bowie fez outros filmes mais famosos. O mais recente desses é o O Grande Truque, de 2006, dirigido por Christopher Nolan em que interpretou Nikola Tesla. Outro famoso papel foi Pôncio Pilatos no filme de Scorcese A Última Tentação de Cristo, de 1988. Ou ainda Basquiat, de 1996, em que interpretou Andy Warhol.

Minhas escolhas estão baseadas na relevância que tiveram na sua obra geral, logo, devido ao diálogo que esses três filmes tiveram com sua carreira musical e visual.

David Bowie é um daqueles artistas-ícones que eu falei lá no inicio. Diferente de Elvis e tantos outros, que tem sua importância e habitam entre os clássicos, ele foi um homem transgeracional. Desde os anos 70 até 2016, havia grupos diversos de idade que esperavam seu passo seguinte.

Durante muito tempo desejei ser o ícone David Bowie e só após seu falecimento (no ultimo domingo, dia 10) é que pude entender que o que ele me ensinou na verdade foi a estimular minha criatividade sempre; abraçar o que me torna única; estar sempre atenta ao que foi feito antes de mim e ao meu redor se quiser vislumbrar o futuro da minha obra e da minha produção e sempre manter aceso em mim a inovação como mantra.

Espero que você que leu o textão se sinta estimulado a ir ver esses e outros filmes dele, que possa ouvir suas músicas e se apaixonar por ele como eu.

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Por Ândrea Malcher – 22 anos – cursa Audiovisual na universidade de Brasília. Convidada pela equipe do Não são as Imagens.