Perdido em Marte (2015)

por Elias Fontele Dourado

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O título brasileiro “Perdido em Marte” não captura muito o espírito do filme de Ridley Scott. “The Martian” é muito mais plausível e condizente, visto que o personagem principal não encontra sua perdição, vive com hipóteses e conhecimentos biológicos. O filme tende ao original nesta variação, onde a natureza não conquista o homem, mas o homem a natureza. Seu tom irônico e controlado é a fórmula da diversão que não pretende ser uma epopeia espacial, mas uma aventura de sobrevivência e resgate, com todos os caprichos da realidade.

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O maior problema de “Perdido em Marte” é a sua ingenuidade que está para longe de ser um detalhe, é fator essencial para o desenvolvimento da trama. A comoção global, como se todos estivessem reunidos para resgatar um homem que nem conhecem foi para além da pieguice. Não obstante, a China aceita ajudar o seu rival, os  Estados Unidos, sem nada pedir em troca, por pura benevolência humanitária. De duas, uma: ou os chineses são anjos ou aquilo nunca poderia acontecer.

Não é pelo fato de que a situação seja improvável na realidade que esta ação se faz menor, visto que muitas ficções se aproveitam de tal artifício, é sim a falta de maior conflito e complicação na autorização de tal resgate. É fácil demais, é bondoso demais, não há dialética. Excluindo essa situação, o filme é muito divertido, uma experiência que há tempos Ridley Scott não oferecia aos seus fãs.

Mesmo com a óbice de tamanha ingenuidade, o filme consegue sustentar sua diversão e a veracidade da sobrevivência do biólogo. Eis uma divisão possível: a sobrevivência, em seu tom quase que documental, é muito bem pensada e realizada, mas o resgate se sustenta através de uma escolha deficiente, apesar de ser bem dirigida.

“Perdido em Marte” segue o tradicional roteiro do personagem que sofre uma queda, passa por provações e, no final, se ergue e conquista seu templo heroico. Se foi algo tão repetido, certamente foi por sua eficiência, mas em “Perdido em Marte” é batido demais. O final, possivelmente, seria mais interessante se o biólogo mantivesse a sua ironia e não ligasse para propagandas e lições de moral oriundas de sua pessoa. Poderia conviver “perdido na Terra”, em uma resolução mais interessante que a obviedade do compartilhamento de experiências.

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Não podemos, contudo, esperar de um filme as mais fascinantes resoluções do intelecto, ele pode ser divertido com o óbvio, e é justamente o que “Perdido em Marte” consegue fazer, com uma direção minuciosa de Ridley Scott, que torna o lugar comum um pouco mais interessante, devido ao peso e funcionalidade de sua mente visionária.

Somos inseridos na sobrevivência do biólogo e sua incansável vontade de regresso, oportunidade que este pode colocar seu conhecimento à prova. É uma catarse deleitante, um filme com fôlego e dinamismo que, mesmo com seus gritantes defeitos de conflitos arrefecidos, pode passar como uma perfeição aos incautos. Chega a ser brega, mas sorrimos na breguice, gostamos dessa pieguice que Scott nos oferece, serve até de acompanhante para a ironia do personagem principal, mas não para a sua força de vontade, que foi encontrada após momentos derradeiros, ao contrário do fatalismo dos chineses.

Em Marte não encontramos a perdição, mas sim na Terra, com a total falta de verossimilhança dos chineses, que são arquétipos ideológicos produzidos por Hollywood, que pretende causar sua glória final com a união de duas extremidades políticas para o bem de um ser ou entidade. “Perdição na Terra” seria mais correto, mas fiquemos com “The Martian”.

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