Sabotage: Maestro do Canão (2015)

por Elias Fontele Dourado

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O documentário de Ivan Ferreira, conhecido por Ivan 13P, segue um estilo clássico, expositivo, como diria o estudioso Bill Nichols. São muitas entrevistas e cenas de arquivo para mostrar um pouco da vida de Mauro Mateus dos Santos, reconhecido como Sabotage, o rapper. Não há nada de muito interessante no filme do ponto de vista da linguagem documental, não foge da objetividade e dos depoimentos, mas é fascinante conhecer um pouco mais da história de um dos rappers mais importantes do Brasil.

O filme conta com depoimentos de Beto Brant, Hector Babenco, Paulo Miklos, Ganjaman, Rappin Hood, Mano Brown, Thaíde, Ailton Graça e outros músicos e entidades cinematográficas, além de sua esposa, filhos e amigos. Somos introduzidos ao mundo de Sabotage, no viés musical e pessoal. O documentário traça uma linha cronológica no tempo, revelando suas dificuldades na infância, os problemas familiares, sua inserção no mundo do crime, a perda do irmão, da mãe, enfim, inúmeros infortúnios, até que consegue conquistar o sucesso dentro do cenário da música nacional: o rap, gênero que atingiu seu ápice, no Brasil, nos anos noventa do século passado.

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Sabotage teve participação decisiva na ampliação desse cenário, conseguindo aglutinar outras artes à música, como o próprio cinema, onde trabalhou como ator. Participou do filme “O Invasor”, de Beto Brant, obra que premiou o músico com o candango de melhor trilha sonora no Festival de Cinema de Brasília, e “Carandiru”, de Hector Babenco, onde viveu o personagem “Fuinha”. Suas letras inteligentes e ágeis o fizeram reconhecido não só no Brasil, mas em vários países do mundo, sendo lembrado e admirado até por Snoop Dogg.

Diante de sua humilde origem, problemas intermináveis com a família e o mundo do crime, ninguém acreditaria que Mauro, o simples homem da favela de Canão, seria amplamente reconhecido como um dos mais importantes rappers do Brasil e do mundo, o famoso Sabotage, que lançou apenas um disco, intitulado “Rap É Compromisso!”, frase que inspirou vários músicos do gênero. Não foi apenas um álbum lançado com o intuito de ser apreciado, mas também um grito de liberdade, expressão maior do quão inteligente e criativo é o humilde povo brasileiro, que consegue extrair de sua realidade palavras para serem ouvidas por todos, seja o mais erudito ou o mais simples.

Foi reconhecido ainda vivo, ganhando prêmios importantes, como o de melhor trilha sonora para filme e o Prêmio Hutúz de revelação do ano, em 2002, o mais importante prêmio de hip hop/rap brasileiro. Amplamente divulgado na mídia, Sabotage conquistou o sonho que poucos moradores de favela conseguem, abandonou o mundo do crime e ascendeu sua vida através do rap, gênero que apreciava desde pequeno, como vemos ao decorrer do filme.

Ouvimos do próprio Sabotage, por meio de cenas de arquivo, o quão feliz ele era pelo reconhecimento, e não só, pela influência que exercia em seus amigos, especialmente os mais jovens, as crianças, com quem gostava muito de andar e conversar. Nunca nega sua participação em situações criminosas, fala que era a única saída para um jovem que vê a mãe tanto sofrer para cuidar de três filhos e não ter melhores oportunidades.

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É interessante observarmos, mediante os depoimentos, como Sabotage quebrou um estereótipo que já era recorrente, o de “cantor da favela”, ou seja, aquele que lida somente com os seus, dentro de sua região, querendo demonstrar superioridade e arrogância, muitas vezes em apologia ao crime. O sucesso de Mauro, como o filme mostra, veio justamente de sua tranquilidade com qualquer pessoa que se apresentava, dizia ser fã até de Sandy e Júnior, tinha interesse na música em geral, era a arte como um todo que o encantava, não pequenas correntes. Ouvimos seu filho dizer que o pai também era fã de Iron Maiden, fato um pouco tabu para os rappers, que muitas vezes condenam o rock justamente por ser um “som de playboy”.  Sua versatilidade foi seu triunfo, mas também sua tragédia.

Mano Brown diz que Sabotage, um sujeito grandioso, morreu como qualquer um, no asfalto da favela, e assim foi, atingido por quatro tiros após deixar sua mulher em um ponto de ônibus. Curioso, seu apelido veio justamente por ter conseguido burlar a lei e escapar ileso, e também de brincadeiras com seu irmão, assassinado após a saída da Casa de Detenção de São Paulo – Carandiru. A participação no crime marcou sua vida, mesmo com todo o sucesso conquistado.

O filme não escapa disso, conta a história de Sabotage, do início ao trágico fim, atento, claro, aos detalhes e depoimentos acessíveis, visto que muito poucos sabem realmente como foi a participação de Mauro no crime. Assistimos fascinados pela vida do humilde homem, sua poesia carregada de autenticidade e vigor, ícone do rap nacional e símbolo do gênero no mundo, até onde seus versos são capazes de alcançar.

É um filme regular, sem nada de especial, a não ser pelo tema e pessoa retratada, e nada de desprezível. Por se tratar de uma figura tão inovadora, ficamos curiosos com o rap como um todo. Deixo aqui a recomendação do disco “A Fantástica Fábrica de Cadáver”, de Eduardo Taddeo, ex-vocalista do grupo Facção Central. O álbum foi lançado em dezembro de 2014 e é fabuloso, representação maior de até onde o rap conseguiu chegar em nossa década.

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