O Mercado de Notícias (2014)

por Elias Fontele Dourado

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“Sem a linguagem, o pensamento é uma nebulosa vaga, inexplorada.” – Ferdinand de Saussure. Cabe a questão: a linguagem comunicativa é uma nebulosa vaga ou possui algum nível de certeza? Wittgenstein nos deixaria no impasse solipsista, pois a comunicação depende de regras e essas só têm a possibilidade de assimilação dentro do próprio indivíduo. Sendo assim, o que esperar da veracidade do que é noticiado pela imprensa? Decerto que há graus de informação, e as mais triviais são isentas de grandes problemas, como a presente data ou a previsão do tempo. Nem mesmo o escrutínio de simples aritmética é confiável, como é por exemplo na grande oscilação de pessoas presentes em uma manifestação. Às vezes, temos números incrivelmente díspares, o que implica na inferência de uma possível manipulação ou interesse, quase sempre político.

“O Mercado de Notícias” de Jorge Furtado discute algumas questões, claro, sem todo esse teor filosófico, mas que são indispensáveis para reflexão acerca das grandes mídias e da imprensa em geral. Para isso, faz uma comparação dos documentos filmados para o filme, os depoimentos de jornalistas considerados importantes, com a peça “The Staples of News” (1625) de Ben Johnson, dramaturgo contemporâneo de Shakespeare. Furtado encena a obra de Johnson com os atores selecionados e a filma com o fim de mostrar como a imprensa é problemática desde seu começo, uma vez que no tempo da peça ela ainda alicerçava seu impacto. As conclusões são fascinantes, quase tudo aquilo que Johnson vislumbra em sua obra do século XVII é atual, mostrando que a tecnologia muda, mas a essência do trabalho permanece, e manipular é uma das maiores essências.

É curioso pensar, se generalizarmos a dúvida, que o próprio documentário pode ser manipulado ou feito para dizer certas coisas e omitir outras, o que cabe como rico instrumento estilístico, e que interpretei como um dos motivos da peça ser filmada e intercalada na montagem. A ficção do teatro é mostrada paralelamente ao depoimento dos jornalistas, artifício na edição que pode erigir a acepção ou sentido de que o que ali está sendo dito é também passível de falsidade. Afinal, o que não é? Regra lógica: de A e não-A, tudo se segue. Os meios de comunicação abusam dessa regra sutil, onde certeza se confunde com entendimento raso. Ouvir uma contradição e aceitá-la é entender o que foi dito e ter a certeza somente deste entendimento, mas a certeza da verdade desvanece.

Muitas vezes tomamos como verdadeira alguma notícia, mas todo o aparato que envolve sua construção pode ser falso, e daí, tudo o que vem a seguir é tido como verdadeiro. Isso acontece, por exemplo, quando lemos uma manchete chamativa, exemplo: “100 mortos no bar X”. A maioria toma isso como dado e não questiona antes se é verdadeiro ou falso. Tendo a sentença já como dada, qualquer coisa que vier depois será verdadeira na mente de quem já aceitou. É uma contradição, mas sutil, não carrega em si o peso de algo claramente equivocado, é algo ríspido e que demanda atenção.

As pessoas entrevistadas falam sobre os aspectos de ser um jornalista e inúmeras implicações que a profissão gera em seu universo de fácil perversão intelectual. Vários deles declaram abertamente que jornalismo é política, espécie de quarto poder, e que não existe imparcialidade, visto que o homem gere suas ações com fins pecuniários. Ben Johnson mostra isso em sua peça de modo burlesco, com as personagens arquetípicas, como a importante Pecúnia, simbolizada por uma mulher deveras elegante que possui todos os homens aos seus pés. Sendo assim, aquele que lê um jornal ou algum canal comunicativo já deve ter em mente quais são os seus donos e o que apoiam, visto que qualquer homem é imbuído de opiniões, a não ser que exista algum tipo de Robinson Crusoé incapaz de entender a linguagem, sendo aquilo que a  frase de Saussure expressa no início do texto.

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O que fazer, então? Os entrevistados falam sobre as notícias virtuais e o papel dos blogs nessa renovação que a comunicação está tendo atualmente. “No momento que a internet permite que todos falem, permite que um grande número de imbecis falem”. Essa frase de Umberto Eco expressa bem essa outra alternativa. Não há qualificação profissional em grande parte dos veículos virtuais, o que nos faz indagar até onde vai essa qualificação, uma vez que um amador pode estar muito mais competente com a verdade do que um profissional, em certos casos. Descobrir se algo é verdade ou não é um dos papéis do jornalista, do repórter, em especial, que amplifica sua capacidade investigativa para fazer uma síntese das apartadas informações que recolhe.

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Não é incomum encontrar erros jornalísticos, ou verdades que são tomadas como falsas e depois reconquistam seu valor. Conclusão: o jornalista parece ser aquele que caminha em um regresso ao infinito, na fronteira entre o verdadeiro e o falso, tentando atribuir à notícia algum desses dois valores. Sob aspectos específicos, uma mesma notícia pode carregar os dois valores, há, por exemplo, notícias que podem ser verdadeiras aqui  mas falsas em outras culturas. Dessa forma, é difícil dizer que o jornalista é alguém que se compromete com a verdade, me parece mais ser aquele que se compromete com o que parece razoável, não no sentido de poder inventar algo tragável para os leitores, o que certamente ocorre, mas no sentido das variações de verdade e sua relatividade, algo próximo do Wittgenstein das “Investigações Filosóficas”.

É um filme muito interessante em sua expressão dialógica e roteiro, fascina pela montagem e principalmente em seu cunho investigativo, como na análise da pessoa que atirou a bolinha de papel no candidato Serra e o caso do quadro de Pablo Picasso. O filme de Furtado é capaz de instigar e trazer boas reflexões sobre o jornalismo, com aqueles que ele julga serem bons profissionais da área. É uma obra bastante dinâmica, com muitos cortes, o que achei interessante, pois pode ter sido um exercício estético para mostrar que as informações ali contidas são fugazes, rápidas, são cortadas em poucos segundos. Filme indispensável para todos que apreciam um bom documentário e, sem dúvida, todos os jornalistas.

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