15 filmes influenciados pela literatura de cordel e pela cantoria nordestina

por Gustavo Menezes

No primeiro de agosto foi comemorado o dia da literatura de cordel. Vai aqui nossa homenagem a essa modalidade poética, que tanto tem inspirado nossos cineastas por diversos momentos do cinema brasileiro.

A Grande Feira (1961)
Diretor: Roberto Pires

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Roberto Pires já havia inaugurado o longa-metragem na Bahia com Redenção (1959). Dando continuidade à proposta de cinema que a escola baiana vinha desenvolvendo, bolou-se uma trama passada na feira de Água de Meninos, com forte influência neorrealista. Os personagens são os comerciantes, os marginais e os marinheiros que habitam aquele ambiente. Para adicionar ao realismo, tiveram a ideia de convidar o mítico Cuíca de Santo Amaro (foto) para interpretar a si mesmo. Cuíca, como todo cordelista e cantador de feira que se preze, vivia sempre por dentro das atualidades e chegou a se meter em confusões com as autoridades soteropolitanas devido a sua falta de papas na língua. Assim, sua participação na abertura e no encerramento dão a validade da documentação popular à trama de ficção que, três anos mais tarde, se concretizaria parcialmente.

Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)
Diretor: Glauber Rocha
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Parte da força de Deus e o Diabo vem da inusitada e corajosa incorporação de elementos do cordel e da cantoria em sua estrutura. A narrativa episódica é pontuada pela voz de Sergio Ricardo, que comenta a história nos versos escritos por Glauber à moda dos repentistas e cantadores de feira. A fotografia, de Waldemar Lima, é saturada nos tons de branco e preto para evocar a xilogravura.

Proezas de Satanás na Vila de Leva-e-Traz (1967)
Diretor: Paulo Gil Soares
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A descoberta de um poço de petróleo próximo à vila de Leva-e-Traz faz com que a maioria de sua população parta para trabalhar para a companhia de extração. Um cego (Jofre Soares), um aleijado (Emmanuel Cavalcanti) e um anão (Meio Quilo), sem conseguir emprego, ficam na vila. Então, o diabo chega para perturbar a paz do lugarejo. Além do tom fantástico e da trama inspirada em vários folhetos de cordel, o roteiro conta com diálogos versificados, desafios de repente, e uma narração-cantoria na voz de Caetano Veloso. Sem falar, é claro, no comentário social perspicaz.

A Noite do Espantalho (1974)
Diretor: Sergio Ricardo

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A luta de uma população rural contra um latifundiário é acrescida de tons fantásticos neste musical que mistura motocicletas aladas, jacarés antropomórficos e castelos com o versejar do cordel. Estreia de Alceu Valença (foto) e Geraldo Azevedo na atuação.

O Homem que Virou Suco (1981)
Diretor: João Batista de Andrade

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A vida de um cordelista vira de cabeça pra baixo depois que ele é confundido com um operário que assassinou o patrão.

O Baiano Fantasma (1984)
Diretor: Denoy de Oliveira

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Um nordestino na grande São Paulo enfrenta o drama de não se encaixar e acaba se envolvendo com a criminalidade. Além da direção de arte interessante que exagera de propósito em alguns figurinos, o filme tem alguns diálogos em versos de cordel.

Os Trapalhões e o Mágico de Oróz (1984)
Diretores: Dedé Santana e Victor Lustosa

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Esta adaptação do Mágico de Oz (Victor Fleming, 1939) para o sertão nordestino se inspirou nas fontes mais diversas: de O Mágico Inesquecível (Sidney Lumet, 1973) aos cantadores de repente. Nesse sentido, chama muita atenção a cena do julgamento da trupe dos Trapalhões  em que Joffre Soares interpreta o juiz e dois cantadores fazem a acusação e a defesa.

Porta de Fogo (1985)
Diretor: Edgard Navarro

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No dia de sua morte, o capitão Carlos Lamarca é visitado por Lampião. O tom fantástico deste filme é todo tirado do universo do cordel.

Boi Aruá (1985)
Diretor: Chico Liberato

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O primeiro longa de animação feito na Bahia não tem medo de explorar o potencial abstrato da técnica, bebendo bastante nas metáforas e mitologias do sertão. Conta a história de um vaqueiro vaidoso determinado a pegar um boi que ninguém conseguiu derrubar. A música tema é composta e interpretada por Elomar Figueira Mello.

Cobra Verde (1987)
Diretor: Werner Herzog

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Este filme do alemão Werner Herzog conta a história de um traficante de escravos fictício que acaba expulso do Brasil para Dahomey (hoje Benin), na África. Apesar de ser falado em alemão e estrelado por Klaus Kinski, o filme tenta legitimar seu relato ao apresentar o cantador Cego Oliveira (foto) versejando sobre o personagem logo na cena de abertura.

O Auto da Compadecida (2000)
Diretor: Guel Arraes

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A mais famosa adaptação cinematográfica da peça de Ariano Suassuna mudou consideravelmente a história original, mas não perdeu suas raízes da cultura popular nordestina. Como o próprio autor reconheceu diversas vezes, a literatura de cordel não apenas traçou a trama principal (baseada especificamente em O Dinheiro ou O Testamento do Cachorro O Cavalo que Defecava Dinheiro, ambos de Leandro Gomes de Barros), como é a verdadeira criadora do personagem João Grilo (consagrado, por exemplo, no folheto Proezas de João Grilo, de João Martins de Athayde), e a responsável pelo tom fantástico do ato final.

O Homem que Desafiou o Diabo (2008)
Diretor: Moacyr Góes

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Filme absolutamente cordelesco. Tem uma estrutura episódica carregada no humor e no absurdo, além de um elenco de primeira. É co-roteirizado pelo pesquisador de literatura fantástica e cordel Bráulio Tavares.

Romance do Vaqueiro Voador (2008)
Diretor: Manfredo Caldas

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Baseado no cordel de João Bosco Bezerra Bonfim. Mistura de documentário e ficção que conta a história dos operários que trabalharam na construção de Brasília, de suas péssimas condições de trabalho e dos massacres de que foram as vítimas até hoje esquecidas. Versos de cordel fazem a ponte entre passado e presente.

Os Pobres Diabos (2013)
Diretor: Rosemberg Cariry

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O filme acompanha a convivência agridoce de um grupo circense que acaba de se instalar em uma cidadezinha no interior do Ceará. Uma das atrações da trupe é uma encenação adaptada do clássico folheto A Chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco.

A Luneta do Tempo (2014)
Diretor: Alceu Valença

LMBrasileiros - A Luneta do Tempo. Divulgação

Além de apresentar diálogos totalmente versificados, o filme tem um personagem cordelista de profissão que escreve sobre a vida de Lampião e Maria Bonita no além, após o massacre na gruta de Angicos. Leia nossa crítica.