Poltergeist – o fenômeno (2015)

por Victor Cruzeiro

O cinema sempre foi um espelho da sua época. Como todas as artes, ele reflete o mundo que o projeta, não só como ele é, mas também o que ele está se tornando. E essa regra não escapa nem mesmo ao cinema mais industrial, pois são vários os exemplos de blockbusters hollywoodianos que fazem aguçadas críticas a temas atuais, além de imaginarem consequências – ainda que ficcionais – destes problemas.

Dentro do filão de super herois, por exemplo, a franquia X-men 1, 2 e 3 (Bryan Singer, 2000 e 2003; Brett Ratner, 2006) discutiu aceitação e tolerância usando argumentos genéticos e de uma “possível cura” à anormalidade; Homem de Ferro 3 (Shane Black, 2013) e Capitão América 2 (Anthony e Joe Russo, 2014) trouxeram uma discussão sobre as Guerras ao Terror e ao controle e limites do monólogo armamentista estadunidense; O Espetacular Homem Aranha 2 (Marc Webb, 2014) faz uma curiosa discussão sobre a exploração do trabalho.

Também o faroeste já se propôs a discutir questões importantes, como no sublime Era Uma Vez no Oeste (Sergio Leone, 1968) que apresenta, sob os disfarces de dois pistoleiros, o capitalismo injustificadamente cruel, e a força anônima do povo, vingativo, a combate-lo. O gênero – neste caso, quanto mais fantasioso melhor – serve de ótimo disfarce para mostrar algo que, de outro modo, incomodaria demasiado o público/família tradicional.

Com o terror, não havia de ser diferente. Um excelente exemplo é Poltergeist, o fenômeno, de 2015, dirigido por Gil Kenan e produzido por Sam Raimi. O filme é um remake do clássico de 1982, dirigido por Tobe Hooper e produzido (além de co-escrito) por Steven Spielberg. Não se trata de um remake plano por plano, como pretendeu o Psicose (1998), de Gus Van Saint. Em vários aspectos, o Poltergeist de Kenan e Raimi se afasta muito daquele de Hooper e Spielberg, e é por isso que se torna tão rico.

Em primeiro lugar, as famílias são diametralmente diferentes. Em 1982, a família assombrada é a dos Freeling, average americans de classe média, vivendo uma vida confortável em um subúrbio em franca expansão, gramados verdes, cercas brancas e piscinas em construção. Em 2015, a família Bowen está na pior situação possível, jogados no fundo do poço pela recessão causada pela bolha imobiliária criada, muito provavelmente, pelos condomínios dos Freeling.

Desempregado, Eric Bowen (Sam Rockwell) se muda com sua família para um bairro desvalorizado por várias casas hipotecadas e a proximidade das linhas de transmissão da cidade. Enquanto isso, Steven Freeling, o patriarca de 1982, é um empreiteiro de sucesso responsável pela construção e venda das etapas do condomínio onde vive. Adorado pelo patrão, Freeling mora em uma das melhores casas e recebe a proposta de morar na primeira das casas da nova etapa do condomínio, no topo de uma colina. Bowen, por sua vez, está desempregado e, sem perspectivas, se sujeita a um jantar na casa de um amigo da família para tentar conseguir um trabalho administrativo.

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A caixa de correio e o gramado impecável dos Freeling

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A simplória caixa de correio dos Bowen prestes a ser derrubada pelo caminhão de mudanças

Mas não é apenas no núcleo familiar que surgem as pontuais diferenças entre os dois filmes. Cada um trata da família tradicional americana ao seu modo: deitada em berço esplêndido, em 1982, e assolada pela recessão, em 2015. A cena inicial do filme nos dá, com clareza, esta pista. Enquanto que a versão de 1982 se inicia com o hino nacional dos Estados Unidos, em um zoom out lento do visor da televisão onde se forma a famosa foto do levante da bandeira americana em Iwo Jima, a versão de 2015 começa com uma música eletrônica perturbadora acompanhada de um zoom lento de um visor de um iPad, onde o filho dos Bowen, Griffin, trava uma batalha contra um esqueleto assassino.

O americano médio de 2015 já não goza mais das benesses de um país abundante que domina metade do globo. O país dos Bowen está imerso em trevas, perdido entre uma crise financeira e uma crise ideológica. A economia desfalece enquanto o sonho americano de 1982 esvanece no ar como fumaça. Já em 1982, o condomínio Cuesta Verde, onde vivem os Freeling, é a encarnação do sucesso daquele país, que subiu ao trono do mundo desde o fim da Segunda Guerra e pode possibilitar aos seus cidadãos de bem casas de dois andares, carros, televisões, cerveja e paz.

A única coisa que liga as duas famílias é o terror. A causa do poltergeist, o espírito barulhento, é a mesma em ambos os filmes: um cemitério que havia na terra onde as casas foram construídas e, pela ganância dos empreiteiros, nunca foi completamente removido.

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“Você removeu apenas as lápides, não é?! Por quê?”, pergunta Steven Freeling ao seu chefe, Mr. Teague

No entanto, ainda que os fantasmas tenham a mesma origem, é muito diferente a relação que as famílias travam com o poltergeist. Os Freeling, em 1982, divertem-se durante um tempo com o curioso movimento dos objetos na casa. Diane Freeling chega a posicionar sua filha Carol Anne no centro da cozinha, com um capacete, para que ela seja arrastada pelo espírito. Já os Bowen são, de súbito, reféns de movimentações ameaçadoras (como o castelo de gibis que se forma para Griffin), além de ataques mais violentos dos corpos vingativos dos seus algozes espirituais. Ainda que tal característica possa, e seja, uma decisão de direção na construção da narrativa, é um ponto curioso do roteiro.

O roteiro da versão de 1982 é, deve-se lembrar, de Steven Spielberg, que apenas não dirigiu o filme por uma cláusula contratual que o proibia de dirigir outro filme enquanto dirigia E.T. – o Extra terrestre, lançado naquele mesmo ano. O cenário de calmaria e a relação amistosa-até-que-não-se-possa-mais entre a família e o outro (seja ele qual for) são características do diretor. É a primazia do avarage american sobre tudo e todos.

Contudo, a paz que sustenta a família americana não dura, nem em 1982, tampouco em 2015 (e, ao que parece, tende a tornar-se cada vez mais frágil). Em ambas as versões, a vida dos protagonistas torna-se um inferno, graças ao rancor dos espíritos maculados pela ganância. Os Bowen e os Freeling acabam por abandonar suas casas, fugindo do condomínio onde moram, e é curioso ver o que se dá com suas casas.

Em 1982, a casa é consumida pelos espíritos frente aos olhos incrédulos de Mr. Teague, o empreiteiro e chefe de Freeling. O sobrado é engolido como que por um buraco negro, e desaparece junto com os poltergeiter. Já em 2015, o telhado da casa explode e um feixe de luz intenso jorra em direção ao céu, conduzindo os espíritos raivosos em direção “à luz”.

 

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A casa dos Freeling rui em frente aos olhos do empreiteiro Teague

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A casa dos Bowen explode, conduzindo os espíritos ao céu

Vê-se, então, que o efeito dos fantasmas é distinto nas duas versões. Na primeira, de 82, a casa assombrada desaparece da rua, como um corpo estranho em um sistema saudável – e frente ao empreiteiro, que permanece vivo. Já em 2015, a casa não desaparece, mas rompe seu telhado, chamando a atenção de todos (os vizinhos saem à rua e as autoridades correm para acudir), com uma luz intensa, como um farol ou baliza de que algo acontece ali.

Por fim, há uma vantagem da versão de 2015 sobre a de 1982, que expande a atuação da equipe de parapsicologia e do paranormal. Jared Harris, o Professor Moriarty do Sherlock Holmes de Guy Ritchie, é Carrigan Burke, um paranormal irônico e cheio de cicatrizes, que ganha a vida investigando casas mal assombradas em um programa de televisão. Ele substitui a caricata e apagada médium Tangina Barrons, interpretada por Zelda Rubinstein, na versão de 82. A atuação de Burke é mais importante e dá mais ação, além de humor, ao filme, não sendo apenas uma solução necessária, ainda que um tanto forçada, à trama. Os dois personagens, no entanto, compartilham o bordão “Esta casa está limpa”.

A nova versão de Poltergeist, no entanto, foi um fracasso, e fica muito maior se comparada com sua antecessora. Com um orçamento de mais de U$ 57 milhões, ela conseguiu meros U$ 35 milhões. Já a versão de Hooper e Spielberg, com um orçamento de pouco mais de U$ 10 milhões, alcançou uma bilheteria de U$ 121,7 milhões. Em uma era de Atividades Paranormais, cuja produtora Blumhouse parece pretender ser a nova Hammer do ramo do found footage, é difícil um filme como Poltergeist quebrar paradigmas. A maioria das críticas foi pesadamente negativa: a Variety disse o filme era “fundamentalmente desnecessário” e o Philadelphia Inquirer se indagou “Por que alguém refilmaria Poltergeist?”. No entanto, fica o registro de que, em um filme como esse, é possível encontrar fortes marcas de que o cinema está sendo feito não só pelo dinheiro, mas para refletir e discutir os incômodos da sociedade que o consome.