Brasil ano 2000 (1969)

por Gustavo Menezes

Com o recrudescimento da ditadura militar, que culminou, no fim de 1968, com a promulgação do Ato Institucional nº 5, os cineastas do Cinema Novo se viram obrigados a mudar de vertente. Em lugar do realismo de filmes como Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963) e Os Fuzis (Ruy Guerra, 1964), surgiram filmes alegóricos, de inspiração tropicalista, que discutiam a situação do país indiretamente. São dessa nova fase clássicos como Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969) e Os Herdeiros (Cacá Diegues, 1969).  Como seus colegas, Walter Lima Jr. também partiu do realismo de seu primeiro longa, Menino de Engenho (1965), para uma empreitada alegórica: Brasil Ano 2000.

Esse poderia ser considerado o filme tropicalista por excelência. A primeira e mais óbvia razão é que ele conta com trilha sonora composta por Gilberto Gil e Rogério Duprat, com canções escritas por Gil, Capinam e o diretor, e interpretadas por Gal Costa e Bruno Ferreira. Aliás, Duprat compôs a trilha instrumental deste filme enquanto trabalhava nos arranjos do antológico disco Tropicália ou Panis et Circencis (1968); e não por coincidência em determinado momento pipoca na trilha sonora seu arranjo para a versão de Coração Materno que Caetano Veloso gravou naquele álbum.

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À parte isso, Brasil remete em sua essência ao tropicalismo por apresentar uma encorpada mistura de gêneros cinematográficos, referências imagéticas, literárias e musicais. O filme recorre principalmente a dois gêneros: A ficção científica pós-apocalíptica e a chanchada. O primeiro, incomum para a época, no país, dá a ambientação geral: No ano 2000, as nações ricas do mundo já não existem; foram destruídas após a mítica 3ª Guerra Mundial, onze anos antes.

Era de se imaginar que o Terceiro Mundo tiraria bons frutos desse acontecimento, mas não foi o caso. Não se tornou independente, não se livrou do complexo de inferioridade, não erradicou a miséria. Pelo contrário, seguiu cultivando todas essas mazelas.

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Walter Lima Jr. explica que, para sua geração, o ano 2000 era uma espécie de “meta messiânica” para o Brasil, em que finalmente trocaríamos o subdesenvolvimento pelo progresso. Em seu filme, o Brasil estaria (finalmente) prestes a se inserir na corrida espacial. Mas, claro, apesar do tom doce, sua visão é pessimista; sua alegoria é irônica, como uma chanchada.

Adotando estratégia como a de Macunaíma e a do vindouro Quando o Carnaval Chegar (Cacá Diegues, 1972), Walter se apropriou da linguagem popular do filmusical para levar o público aos cinemas. E, assim como na chanchada clássica, sua imitação saiu barata, “mal-feita”. De propósito, no entanto. Os figurinos coloridos e as coreografias animadas criam um contraste interessante com o pessimismo do roteiro.

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Somos apresentados a uma família de retirantes recém-chegada à cidade de Me Esqueci. O pai acaba de ser enterrado, à beira da estrada. Sobraram a mãe (Iracema de Alencar), o filho (Hélio Fernando) e a filha (Anecy Rocha). Estes retirantes, no entanto, não vêm do norte ao sul, mas sim querem ir para o norte. A mãe carrega sempre uma cristaleira velha, a que só ela dá valor.

Um desvio de percurso acontece quando a família é interpelada por um agente do Serviço de Educação do Índio (Manfredo Colassanti) com uma proposta inusitada de emprego. Um general importante (Ziembinski) vai visitar a cidade em breve para prestigiar o lançamento de um foguete, mas todos os índios sumiram e ele ficará desmoralizado se não tiver o que mostrar quando o militar chegar. Se a família aceitar se passar por índios durante sua estadia, terão em troca casa e comida. O filho rejeita veementemente a ideia (“Não sou índio, sou civilizado!”), mas todos acabam concordando que é a melhor opção. Assim, eles pintam o rosto com batom, colocam adereços de pena e encarnam estereótipos. Um repórter (Ênio Gonçalves) chega para cobrir o evento e acaba descobrindo a farsa, ameaçando revelá-la ao general. Enquanto isso, a filha vê no rapaz  – ruivo, não por acaso – uma esperança de enfim deixar Me Esqueci.

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Os temas pinçados pelo roteiro de Walter se relacionam diretamente à situação do brasileiro de então (e, infelizmente, de hoje): a rejeição à história nacional (no nome da cidade e na negação da identificação com o indígena, que mais do que à etnia, está atrelado à ideia de ausência de colonização), a cobiça do estrangeiro (“Quem me dá um vestido como aquele de Paris/Um galã de Hollywood, feriado no Havaí/Um domingo todo livre, um verão longe daqui?”, diz uma das canções), o culto aos colonizadores (“(…) as caravelas civilizadoras transformaram o rincão pátrio em grande nação herdeira”, discursa o general) o processo voluntário de aculturação (as aulas de inglês transmitidas na igreja), a fé no progresso tecnológico como esperança de ascensão ao posto de Primeiro Mundo (o culto ao foguete). Curiosamente, alguns desses pontos previram o ufanismo dos militares, que viriam com os projetos megalomaníacos (e fracassados) da Transamazônica, o “milagre econômico”, o “Brasil grande”.

Há outros bons momentos de apuro simbólico, como os talheres gigantes que ornam a parede do Serviço de Educação do Índio. Além de ser um costume herdado do colonizador europeu, podem ser vistos como uma metáfora da antropofagia, sobretudo depois de convertidos em armas no incrível duelo ao final.

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Também a cristaleira da mãe (e sua posterior destruição pela filha, ao som do arranjo de Coração Materno) pode ser uma representação de um passado luxuoso, da história da família que a geração posterior rejeita (como também é tratado numa canção). A relação dos filhos com a mãe reitera o desejo de partir para o Norte (mais provavelmente o hemisfério norte), de abandonar a miséria e o subdesenvolvimento.

E a igreja, que acabou se transformando numa espécie de praça ou feira em que há de tudo, seria uma releitura da passagem bíblica dos mercadores no templo, bem como uma espécie de microcosmo social. Além disso, a igreja é palco de uma cena emblemática sobre nosso país: o repórter desmascara a família, revelando suas verdadeiras identidades ao povo, que vira as costas para não ver.

Fábula inspirada sobre a realidade nacional, chega a ser irônico que Brasil Ano 2000 tenha sido esquecido por boa parte dos brasileiros, que aliás desconhecem o fato de que já trilhamos, sim, e de forma inteligente, os caminhos da ficção científica.

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